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ToXic

Quando terminei de ler ToXic (X’ed Out, título original), logo pensei que tinha duas opções. A primeira: passar batido, fazer cara de paisagem e fingir que não era comigo. A segunda: parar minha vida inteira para entender o mundo e o submundo de suas quase 30 páginas. Estava seguindo firme na primeira opção, quando Charles Burns, o autor, me deu um tapa bandido na cara e disse: acorda, menina! Ele puxou a minha orelha e disse: não vai sair daí até entender, pelo menos, dois quadrinhos da história.

Fiquei de castigo. Li e reli ToXic. Porque o problema é o seguinte: você não pode ler Charles Burns e achar que depois vai poder sair pra comer uma pipoquinha Nhac! numa boa. Não vai. Porque o Charles vai puxar teu pé à noite, ele vai se esconder dentro do teu armário, debaixo da tua cama, dentro do chiado da tua televisão. Ele vai te assombrar até você falar: tá, tá, tá, tá, tá! Porque é isso que ele quer, a tua alma, a tua confissão, os teus segredos. E se você tiver o mínimo gosto por HQ, ou pelo caos, pelo desconcerto, pelo estranho, ou simplesmente se você foi adolescente um dia na vida, ele vai vencer. Nem adianta lutar contra.

Primeira página, referência clara a Tintin. 

Para resumir muito, o universo do americano Charles Burns gira em torno das transformações, do mal-estar, da incompreensão, das dúvidas, dos medos e das turbulências que marcam o período entre a adolescência e o início da fase adulta. Ok, você vai pensar, todo mundo faz isso. Sim. Só que Charles Burns tem uma linguagem muito própria. Pra citar algumas: a mistura entre o sonho e a realidade, o consciente e o inconsciente; a manifestação do mal-estar psicológico dos personagens por meio de sequelas e feridas diversas pelo corpo; o mundo underground, a referência ao movimento punk, a violência, a monstruosidade.

O autor.

No caso de ToXic, Doug tem um machucado na cabeça, toma remédios para tentar se curar de um mal indefnindo, é aspirante a artista na cena punk, tem problemas com a família, tem uma namorada que se corta com uma lâmina de barbear para ser retratada numa foto polaroid, e ele se perde nas dimensões de um inconsciente assustador, que reflete seus medos reais, ou o contrário, que é a origem desses medos. Doug deseja sair dessa espiral, ele quer sair, mas não consegue. Está bloqueado. E ToXic é sobre isso, sobre esse desejo quase forte de encontrar uma saída. Alguns críticos falam que é a versão punk de Tintin, outros que é Tintin modo Twin Peaks.

O que me chamou atenção foi a forma que o autor escolheu contar a história. Os quadros são bastante clássicos, os desenhos são nítidos, claros, bem definidos e tudo isso é oposto do conteúdo da trama. O mundo perturbado de Doug em nada tem a ver com essa retidão. Você acha que está num mundo normal, mas é engano seu, béim. O contraste entre as duas linhas narrativas causa um efeito desnorteante, como se você tivesse levado uma bordoada na cabeça. Bem mundo real mesmo, tipo quando você passa manteiga no pão, enquanto lá no fundo do seu eu arde um inferno dantesco.

Pra falar a verdade, a monstruosidade retratada não é o tipo de universo que me atrai e ainda tem muita coisa da história que nem comentei. Mas Charles Burns é tão conceitual que não dá pra fingir que não viu. Não sei se  X’ed Out foi publicado no Brasil, mas Black Hole, sua obra mais famosa e que levou 10 anos para ser escrita, foi. Li somente alguns trechos, mas recomendo muito.

 

Camila Teixeira

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