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Tomi Ungerer

Faz algum tempo, eu descobri o Tomi Ungerer, autor/ilustrador francês. O Tomi é o seguinte: além de ser um grande nome da ilustraçao publicitaria e da imprensa americana, ele é também autor de obras infantojuvenis, nas quais ele chega pra molecada e fala assim: ta vendo esse soldado perfurado por balas de fuzil? isso existe de verdade OU ta vendo esse mundo bonito e colorido? existe o homem pra estragar tudo OU ta vendo essa miséria humana? isso também existe. Nao com essas palavras, mas com seus desenhos.

tomi ungerer ©Le Pacte

Tomi Ungerer. Foto que tirei daqui. © Le Pacte.

O Tomi é um autor que fala a verdade verdadeira, doa a quem doer. Talvez porque ele proprio tenha sofrido com a verdade verdadeira, doa a quem doer. Nascido em Strasbourg, leste da França, sofreu quando pequeno com os horrores da Segunda Guerra Mundial. A ocupaçao alema deixou marcas profundas em sua personalidade. Em varios dos seus livros para crianças, a decepçao, a guerra, o lado sombrio da humanidade estao presentes.

Tomi foi também um verdadeiro mochileiro. Apos chegar até a Laponia, foi para os EUA, onde se firmou como ilustrador.

tomi ungerer otto

Descobri Tomi lendo Otto, um urso de pelucia que vai parar na vitrina de um antiquario, depois de ter visto o que é a guerra, o abandono e a solidao. A frase de abertura é a seguinte: Entendi que estava velho no dia em que me vi na vitrina de um antiquario. Quando bati o olho nessa pequeno aglomerado de palavras, minha primeira reaçao foi fechar logo o livro e procurar outra coisa mais alegrinha para ler. Mas nao consegui. Precisei voltar para saber o que tinha acontecido com o Otto. E é de chorar.

tomi ungerer jean de la lune

Depois nao parei mais. Sempre que posso, procuro algo que nao tenha lido para conhecer as nuances do trabalho dele. Um dos ultimos que li foi Jean de la lune, sobre um garoto que mora na lua e que um dia resolve visitar a Terra. Quando ele chega, tudo é lindo, colorido, perfumado. Mas um grupo de homens, lideres politicos e representantes da ordem, afirmam que ele é um inimigo e passam a persegui-lo. Jean de la lune vai preso, mas finalmente consegue escapar e encontra ajuda para voltar para sua lua natal. Jean de la lune acaba de ser adaptado para um filme de animaçao dirigido por Stephan Schesch e vai ser lançado em breve.

Além disso, um outro documentario sobre a personalidade de Tomi esta para ser lançado. A revista Les Inrocks fez um textinho sobre o assunto, dizendo o seguinte: “No filme estao todas as facetas ungerianas: os livros infantis que nao consideram as crianças como idiotas, seus desenhos politicos subversivos, sua veia erotica”. Aqui vai o trailer. Verei certamente.

Adoro quando ele diz: “Quando eu desenho, é algo unico. é como ir ao banheiro. Tem que sair.” Ou entao quando ele diz “nao importa o quao longe você ja foi, pois nunca tera sido longe o suficiente”.

tomi rufus

Nao li a obra completa, mas muitos titulos infantojuvenis giram em torno de um personagem que deixa suas origens para conhecer um outro mundo que, a principio, é lindo, mas que acaba revelando algum tipo de violência. Tipo Rufus, a historia de um morcego que queria conhecer as cores do dia, realiza seu desejo, até que algo tragico acontece.

***

O Le Monde publicou recentemente um slide-show sobre ele com algumas de suas ilustraçoes. As legendas sao otimas, com comentarios do proprio Tomi: 

Ilustraçao 4: Cheguei aos EUA em 1956. Fiquei chocado ao descobrir que no pais da liberdade ainda reinava a segregaçao.

Ilustraçao 5: Meu erotismo se desenvolveu como reaçao ao puritanismo. Em Fornicon, denunciei a tirania de uma sexualidade que se tornou mecanica. Fui parar nas listas negras e também oficialmente banido de todas as bibliotecas.

Ilustraçao 6:  Quando cheguei a NY, fiquei espantado com o famoso sorriso americano – o sorriso colgate, tao voraz quanto hipocrita. Minha reaçao a essa sociedade materialista desencadeia um diluvio de desenhos satiricos.

Ilustraçao 7: Meu engajamento contra a guerra e o rascimo foi uma forma de exorcismo contra a lavagem cerebral fascista. é preciso saber domesticar seus demônios. Sem a colera e a revolta – meus dois combustiveis – todos esses desenhos nao existiriam.

Ilustraçao 8: O que é o fim? A trajetoria da minha vida foi tao sinuosa quanto radical. Sou um experimenta-tudo, passo meu tempo a trocar de estilo. Cada curva representa uma nova forma de me expressar. Hoje estou com o volante livre, sem permissao para dirigir.

Alguns titulos dele foram traduzidos para o português. Recomendo muito.

Quer mais? Algumas ilustraçoes que tirei do site do Museu Tomi Ungerer.

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Nada mais a declarar, além do meu amor por esse artista.

Camila Teixeira

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