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Listas e a consciência do contentamento

Nunca fui do tipo que faz listas, daquelas de enumerar itens semelhantes do mais para o menos legal. Sempre observei com certa curiosidade as meninas do colégio e mesmo as mais adultas que manifestavam esse hábito. Deve ser ótimo ter tanto assunto, pensava eu. Na época, tinha a nítida impressão de que poder elencar milhares de coisas era sinônimo direto de ter uma vida interessante. Por outro lado, a sensação de que ficaria perdidinha se tivesse que rotular minha vida por temas e, em seguida, classifica-los por ordem decrescente, nunca me abandonou.

Como sou uma pessôua de espírito econômico, fui naturalmente levada a ter o seguinte modo de funcionamento: minha preferência é não ter muitas preferências. É assim: existe a preferência, existe o resto tanto-faz e, por fim, existem os abjetos. E a conclusão é: tudo é mais prático quando se prefere uma ou duas coisas. Essa é minha atual classificação simplificada da vida.

Imagine ter uma lista de preferências e constatar frequentemente que a preferência preferida não está disponível e então ser obrigada e ficar meio feliz com as demais opções. Imagino como seria viver com essa consciência do contentamento e mais: tê-la anotada me dizendo a todo instante há-há-há, você não me pega (voz da minha preferência n. 1, num escárnio costumeiro, ao me ver tentar alcançá-la sem sucesso).

Porque a preferência, minha gente, é difícil 1. de distinguir, 2. de obter. Vide o mundo como prova. Não por acaso, as listas existem, suponho: para nos dar uma falsa sensação de saciedade.

Podem me acusar de me contentar com pouco. Isso póde. Podem alegar que meu sistema faz vistas grossas sobre a fartura do mundo. Isso póde. Seja lá o que você tenha pensado, isso também póde. Pode parecer um regime bastante austero esse de preferir poucas coisas, mas quanta paz há num mundo de poucos pertences.

(…)

Tá, vai. Confesso. Fiz esse post só pra me convencer de que não morro de inveja de quem tem coisas infinitas pra elencar.

 

Camila Teixeira

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Achados

Levar uma vida cigana é, ao mesmo tempo, estimulante e difícil. No primeiro caso, porque há um universo a descobrir. No segundo caso porque, também, há um universo inteiro, infinito a descobrir. Tudo depende da perspectiva que se adota. Por alguma razão que desconheço, tenho uma forte tendência a adotar a perspectiva pessimista em qualquer situação. O que me faz dizer que garimpar um universo não é tarefa fácil. Até criar um hábito, encontrar duas ou três preferências, leva-se uma vida. É um período de relativo sofrimento.

Enfim. Por sorte, caí num universo não muito infinito, grande suficiente para que eu possa desbravá-lo, em sua essência, a pé. Pois foi o que fiz dia desses. Botei o tigre em sua viatura e fui me misturar com o que existe nas redondezas. Engraçado. As coisas estavam em seu devidos lugares e eu, curiosamente, fora deles. Eram os lugares de um lado e eu do outro, numa estranheza que só sente quem ainda não identifica o que vê.

Até que. Até que. Lá longe observo. Bela e cintilante. Com uma vitrine recheada. De pães. De todos os tipos. De pâtisserie. De todos os tipos. Baguetes, croissants, chocolatines, quentinhos e perfumados. Doces finos, harmônicos e deliciosos. Ah, a padaria. Desde que cheguei, passei por algumas outras que (é duro dizer) me decepcionaram. Pães duros, cascudos, ressecados. Estava até meio jururu por não ter encontrado uma padaria para chamar de minha, mesmo após duas semanas instalada. Mas, inchalá, muito ôro, achei. Achei uma preferência. Por delicadeza, evitei fazer xixi em sua porta de entrada, no poste, na roda dos carros estacionados na frente da minha nova boulangerie.

Saí de lá com três baguetes na mão, como quem carrega um nobel da paz. Olhei ao redor, para o horizonte. Havia algo de mágico naquela descoberta. Estrelinhas douradas caiam sobre mim, o tigre e as baguetes. De posse do meu novo troféu, num lapso de segundo, me vi desfilando no alto de um caminhão de bombeiros pelo centro da cidade, sendo calorosamente saudada pela população. (Tá, parei).

A verdade é que uma tarde linda terminava diante de um parque arborizado. Raios de sol atravessavam as nuvens, criando uma luminosidade suave de fim de dia. O mundo já não era mais tão estranho assim.

Camila Teixeira

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