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Manual do Pessimismo

Ser pessimista facilita muitas coisas na vida. Ironicamente, essa é uma das únicas visões positivas que tenho do mundo. Com frequência, o pessimismo vem acompanhado de uma forte dose de ceticismo. Eu duvido que alguém discorde desse meu postulado. Aliás, para ser um pessimista premium, é fundamental duvidar de tudo e de todos, não confiar em nada nem ninguém e só esperar decepções de todos os vínculos que se tem com o existente.

Uma pessoa pessimista desfruta de diversas vantagens no decorrer dos anos. Acompanhe.

1. Redução das decepções: se você só espera o pior, dificilmente será perturbado pela desagradável sensação de frustração. O errado aconteceu e você, com grande perspicácia, já previa isso. Portanto, gastará menos energia lamentando o ocorrido.

2. Redução do grau de ingenuidade: se você só duvida e não confia, terá tendência a tornar-se uma mocreia para o seu próprio bem. O número de perguntas, dúvidas e suspeitas que levantará em qualquer tipo de relacionamento será tão imenso que, se o seu interlocutor tiver um mínimo de sensibilidade, desistirá logo de cara de te enganar. Exemplo aleatório numa padaria: Esse pão é de hoje mesmo? Tem certeza? Não é de ontem? Olha a carinha de adormecido dele. Dá uma apertadinha pra eu ver. Não, com a luva, né, meu bem. Agora no debaixo. No do lado. Naquele mais ao fundo. Não, no outro. É, não, não quero nenhum. – Pronto, resolvido o problema e você não vai ter a frustração, conforme mencionado acima, de ter um pão duro em casa, graças ao indispensável estado de espírito mocreia. E se você repetir esse mesmo procedimento todas as vezes que for à padaria, a atendente já vai te reconhecer e te dar o pão fresquinho logo de cara, aumentando o grau de praticidade da vida (outra vantagem do pessimismo). Particularmente, confesso que ainda tenho um pouco de dificuldade nesse quesito, já que, por cordialidade, evito ser muito mocreia de vez em quando. Um erro crasso. Acredite, nesses casos, tudo dá errado e acabo sendo passada para trás. Ainda preciso me empenhar mais nesse item do Manual do Pessimismo.

3. Aumento do grau da razão: se você é um pessimista, espera que tudo dê errado. Como a lei de Murphy realmente funciona, não é preciso insistir muito, tudo vai dar errado, com certeza. Nessas ocasiões de desventuras, em que você estará cercado de otimistas decepcionados, você poderá dizer soberana, do alto de sua razão: eu avisei. Não há nada mais saboroso do que ter razão.

4. Aumento no grau de alegrias: como um pessimista só espera que o pior aconteça, qualquer acontecimento que sair do esquema previsto (o erro) será motivo de esfuziante alegria. A sensação de alívio percorrerá seu corpo, causando o mesmo efeito que a atividade calmante e prazerosa de sua preferência tem sobre seus nervos.

5. Aumento do grau de precaução: como bom pessimista, você já espera que seu plano dará errado. Em função disso, com o objetivo de fazer sua vida funcionar, você, de antemão, terá preparado planos B, C, D e E (quando não mais) para aplicar logo após a falha do plano A. Um deles vai funcionar, se nada der errado.

6. Redução da necessidade de contar com a sorte: em função do item acima, dispondo de diversos planos elaborados com antecedência, a necessidade de contar com a sorte (que nunca funciona) será drasticamente reduzida. Repare: um pessimista jamais joga na loto, já que ele não conta com a sorte. Portanto, nunca vai ganhar e ficar rico, o que confirma sua teoria inicial: tudo dá errado – neste caso, com o diferencial de não apostar e nem pagar por isso.

 

Camila Teixeira

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De onde vem sua alegria

Depois de um dos posts abaixo, uma amiga querida insistiu na importância do otimismo. Ironicamente, tinha acabado de escrever um texto sobre as vantagens do pessimismo, que devo publicar aqui em breve, se tudo der certo.

Desde então, a palavra otimismo não saiu da minha cabeça. Pensei em suas causas, natureza e condições. Pensei em sua ligação com a felicidade. Será que só os otimistas são felizes? Será que os realistas são todos blasés? Será que os pessimistas são infelizes? Será tudo tão categórico assim?

Parto do princípio de que ser otimista é ter uma chama interna acesa, intensa o suficiente para que não se apague com as tempestades e ventanias da vida. Precisa de uma forte dose de coragem para achar que, mesmo depois de tantas moléstias, tudo vai ser melhor. Precisa ter uma predisposição que permita, a todo instante, minimizar as dificuldades e redimensionar os pequenos acertos. Demanda uma crença de que tudo que ocorre no mundo é da melhor maneira possível. Ou então que todos os problemas encontrarão uma solução positiva. Pode ser simplesmente fazer vistas grossas ao mundo. Pelo menos uma dessas alternativas.

Não acho que o otimismo seja uma condição para a felicidade. Não acho que o pessimismo seja a causa da infelicidade. O que o otimismo e o pessimismo têm em comum, no meu entender, é o fato de não serem sentimentos e sim formas de analisar e esperar os acontecimentos. O nosso estado de espírito, uma terceira coisa, depende ainda de outras variáveis para ser alegre ou triste, radiante ou apático. Atualmente, tenho a impressão de que a felicidade está mais ligada ao grau de realização pessoal do que à leitura que se faz do momento que vivemos.

Um pessimista e um realista podem ter tantas alegrias quanto um otimista, desde que (isso vale para os três) saibam onde encontrá-las.

(Post em evolução)

 

Camila Teixeira

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