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O amor morre

Eu tenho uma teoria sobre o amor. Ou sobre a paixão. Acho que é mais sobre a paixão. É de 2008. Tirando uma coisinha ou outra, um adjetivo aqui, outro ali, acho que ainda é válida. Lá vai.

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Repare. A gente se apaixona pela diferença que existe no outro. Mas não qualquer diferença. A diferença entre aquilo que o outro é e aquilo que queríamos ter sido e não somos. Aquilo que queríamos ter tido e não temos.

Apaixonar-se é um exercício de subtração. A equação será sempre, fatalmente, exata. A pessoa por quem nos apaixonamos (menos) aquilo que realmente somos é exatamente (igual) aquilo que sempre gostaríamos de ter sido. Simples assim, eu já reparei. A gente nunca se apaixona por uma pessoa, mas por aquilo que ela conseguiu fazer ou ser e a gente não.

A paixão não passa, portanto, de um apego louco por aquilo que um dia imaginamos ser. É um auto-amor invejoso. Um sentimento de posse por um desejo não realizado, perdido no tempo, quase esquecido. E que, de repente, a gente reencontra concretizado na vida de outra pessoa. A gente vê um pedaço de nós cintilando na vida do outro. E se o outro tem o que eu sempre quis, eu quero essa pessoa para mim.

E a gente passa a viver juntos. Fazer coisas juntos. Dorme, come, arrisca. A gente se adapta, a gente se enquadra, a gente cede, a gente pede. Nesse modelo de sentimento vampiresco, um suga o outro, posto que na equação da paixão tudo é recíproco.

O tempo passa, a gente se acostuma. Aquilo que era uma diferença passa a não ser mais. As diferenças foram compensadas até que se chega ao estado letal da equação. Você menos eu é igual a zero. Eu não me vejo mais em você, você não se vê mais em mim. O que eu gostava em você eu já tenho. O que você gostava em mim, já tem, graças ao nós dois.

Este é o primeiro sintoma da morte. A paixão morre no equilíbrio.

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Camila Teixeira

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