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Autoderrota moral

Eu andava bem faceira nos últimos dias, orgulhosa dos triunfos culinários que consegui emplacar. (E quem conhece o vazio-universal-gastronômico no qual meus conhecimentos se enquadravam até pouco tempo atrás, sabe do que estou falando).

Depois de uma torta de morango memorável, meu mais recente golaço foi a quiche de legumes. Tanto que resolvi repetir e incrementar. Dessa vez, era de brócolis, alho poró e cenoura. Fiz tudo com o maior cuidado da vida. Capricho para cortar, esmero para temperar. Tudo milimetricamente pensado. Recheio pronto, massa na forma, creme por cima, coberto com o mais delicioso emmental ralado. Tudo ok. É só colocar no forno, esperar 25 minutos e o jantar está na mesa.

Até que:

Dê início à câmera lenta.

A forma da quiche estava em cima da mesa, que fica logo de frente para o fogão, que, por sua vez, já estava aberto. Peguei a forma. (Slow motion, não esqueça). Virei na direção do forno. Abaixei. Estendi o braço para colocar a quiche lá dentro. Nada mais simples do que isso. Bafo quente soprando na cara. Por um centímetro de engano, consigo empurrar a forma contra a grelha (e não sobre ela). Com esse choque frontal, a forma entorna com tudo o que tem lá dentro. Creme+legumes+queijo ralado caem forno quente adentro.

NNNNNOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO.

 

 

Sim.

Nessa operação, não somente perdi o jantar, como ganhei uma noite de limpeza extra.

 

***

 

Deve haver algum significado filosófico para a quiche que entorna crua dentro do fogão quente. Estou buscando uma explicação existencial para essa minha autoderrota moral. Jamais vou me recuperar.

 

Camila Teixeira

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TOC de gaveta

Há algumas semanas, o tigre desenvolveu uma mania de arrumação de dar inveja a sua tia que tem TOC de organização. É vassoura, paninho, pá, pregador. Atualmente, duas buchas, uma bacia e um pano de chão estão entre seus brinquedinhos campeões. O problema é que a arrumação de um tigre não é exatamente a mesma de um humano adulto. E cada vez que ele resolve arrumar algo, fico de cabelo em pé.

Atualmente, o tigre tem como alvo preferido as gavetas. Dizem que o estado de arrumação da gaveta de uma pessoa é equivalente ao estado de ordem em sua vida. Não é difícil concluir, portanto, que o atual estado de arrumação da minha querida vida é nulo, visto o rebu dos meus pertences. Já desisti de tentar ordenar minhas peças após as incursões do tigre pelo meu quarto. No início, até que, vai, coragem, dobrava uma por uma antes de colocá-las de volta na gaveta. Porém, contra minha vontade, fui obrigada a colocar um fim nessa repetição absurda. De nada adianta arrumar bonitinho se, 20 minutos depois, minhas peças estarão novamente espalhadas pelo corredor.

Mas lá onde dói, onde pega na alma, é que o tigre tem uma obsessão. Seu alvo preferido é minha gaveta de meias e sutiãs. Em tempos juvenis, não ligaria muito, dado que o tigre era eu. Mas de uns tempos pra cá, enfim, tô velha.
Às vezes, deixo a fera passear sozinha pela casa. Quando ela está muito quietinha, é sinal de que as coisas não vão bem. Quando vou ver, minha dignidade está por todos os cômodos do apartamento.

Sei que devo me satisfazer e até me alegrar com a ideia de que, por enquanto, é apenas a gaveta que está em desordem. É fase. Em breve, vai piorar. É o que dizem.

***

UPDATE: mas daí, enquanto estou verificando meus emails, o tigre vem me trazer meu pijama na sala, me dizendo ma-ma, ma-ma. suspiros infinitos.

Camila Teixeira

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