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Da utilidade do inútil

Às vezes, fico pensando se o inútil tem alguma utilidade, ao contrário do que supomos. Sim, pois essas pegadinhas do mundo, de fazer a gente acreditar em algo que não é totalmente verdade, acontecem com mais frequência do que imaginamos. Tem que ficar esperto para não virar piada no programa do Sílvio Santos. Oêêêêê.

No caso do inútil, por exemplo, embora eu tenha tentado identificar utilidades que pudessem ser atribuídas a ele e, portanto, capazes de contestar seu estado natural de inútil, não cheguei a encontrar uma profusão de evidências. O que significa que o inútil é, em 80% dos casos, de fato inútil. É uma taxa elevada. Imagina que no tempo da inflação, essa porcentagem fazia que um produto comprado num dia com um valor X não pudesse mais ser comprado com o mesmo valor no dia seguinte. Com o inútil é a mesma coisa, só que ao contrário, pois se algo é inútil num dia, é muito provável que ele continue sendo inútil também no dia seguinte. A menos que o inútil se dê conta de sua inutilidade e dê um upgrade na vida (por conta própria ou por força exterior). Os outros 20% ficam por conta de quem considera o objeto em questão inútil. Pois pode acontecer de o inútil não ser um inútil universal. Ou seja, o inútil para um pode não ser inútil para o outro. Mas um detalhe. Isso não atesta verdadeiramente a utilidade do inútil, mas apenas que existem necessidades diferentes que fazem com que o inútil possa ter um dia de glória em sua existência.

Mas tem dias em que estou de bom humor. Nesses dias, tenho acesso ao lençol freático da generosidade e consigo alcançar uma interpretação mais amigável dos fatos. Abaixo, listo alguns exemplos de utilidade que arranquei da superfície rude do inútil. Acompanhe.

  • O inútil permite, pela lei dos contrários, que se possa identificar o útil.
  • Permite que a própria inutilidade exista e, com ela, todos os seus derivados ou correlatos, como o vão e vazio, conceitos tão úteis e nobres, por exemplo, da física, da engenharia civil e da matemática.
  • Permite a existência de tarefas nobres, como o resgate dos descartados.
  • Permite que um objeto seja simplesmente algo na vida, mesmo que seja inútil – o que, a rigor, não deixa de ser uma qualidade.
  • Estimula o espírito daquele que é inútil a encontrar um sentido na vida.

Como se vê, a inutilidade não é de toda inútil. Basta um pouco de boa vontade para interpretar os fatos.

E agora que já encontrei alguma iluminação sobre essa questã deveras fundamental, posso seguir em paz esse blog, do qual vinha duvidando há algum tempo.

Camila Teixeira

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Pesquisas

Ando meio ocupada e tals (=desculpinha crássica de quem abandona o blog no meio do caminho). Mas é verdade, ando meio ocupada e tals. Mas meu espírito vive no blog. E o blog vive no meu espírito. Foram feitos um para o outro. Ah, o amor.

E daí eu vejo que uma pessoa chegou ao blog pesquisando pelo seguinte: “qual a diferença entre robôs e ser-humano”. Outra pessoa pesquisou: “a moda agora é ser mais humano possível”.

Achei curiosa a segunda pesquisa. Isso ignifica que ser humano é (ou era) meio demodê. Concordo. Ser humano às vezes é bem cafona. Ah, vai, confessa que você também acha isso. Mas, ao mesmo tempo, ser humano é legal, né, fala a verdade.

De qualquer jeito, fiquei feliz. Espero que tenham encontrado, não respostas, mas novas perguntas.

 

Camila Teixeira

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Método

1, 2, tessste, ssssoooomm, ssssoooooom.

Estou fazendo um power point-tabela-fluxograma da minha vida para me autoentender. Confere?

 

Camila Teixeira

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Pergunta

Você já identificou, reconheceu e dominou seu lado obscuro, hoje?

 

Camila Teixeira

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Luta contra os robôs

Eu sei que o ser-humano é um ser social e que, portanto, passa seu tempo tentando pertencer a determinado grupo pela semelhança. Tipo: punk se vestir de preto, nerd falar de games, meninas falar sobre moda, etc. Mas acho que o homem chegou ao limite do bom senso, ao fundo do poço, quando tenta se parecer com robôs. E estamos em plena epidemia.

O indício mais grave do processo de robotização do ser-humano é esse desejo de agir como eles – o interesse pelo não-pensamento, pela ação comandada, pelo caminho fluxograma e pela limitação, todos altamente convenientes para um robô-wanna-be. Porque o número de burros convictos que tenho visto perambular por aí é, olha, vou te contar.

Alguém, por favor, avise os humanos: não há a recompensa do pertencimento em se parecer com um robô. Robôs e máquinas ainda não são uma tribo (ainda). Embora sejam capazes de lembrar da data do seu aniversário, eles não vão organizar uma festa surpresa e te oferecer uma grapette gelada quando você chegar em casa depois do trabalho – é bom deixar claro.

Cá estamos. O cúmulo da bizarrice não é mais máquinas que desejam ser como humanos, como retratam os filmes de ficção científica. A moda agora é humanos que querem ser como robôs. E estão conseguindo.

Aperta o reset.

 

Camila Teixeira

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Adendo

Num post anterior, eu disse: “Nenhuma realização é tão bela quanto um sonho”.

Após árduos minutos de profunda reflexão, cheguei a um outro veredecccto sobre essa questã, que é o seguinte:

É verdade. Nenhuma realização é tão bela quanto um sonho.

Isso porque o sonho tem uma grande vantagem. Ele existe apenas na imaginação. E a gente faz dele o que quiser. Por isso, costumam ser todos perfeitos e lindos. Ou alguém aqui costuma acalentar o sonho de que tudo dará errado? Estilo: ai, no dia do meu casamento queria tanto dar de cara com a porta e quebrar o nariz… Ou então: que delícia quando eu repetir de ano na escola, uuhuuu! Ou ainda: nossa, tava querendo tanto levar um puxão de orelha do meu chefe…Na frente de todo mundo ainda, imagina que tudo!

Alguém? Alguém? Não, né. Ninguém. Nem eu.

A realização tem uma grande vantagem em relação ao sonho. Ela existe no mundo real, no aqui e agora. Vamos logo, então, tirar de cima do sonho toda essa purpurina besta, que, aliás, só serve pra sujar o dedo. E o que sobra é a imperfeição da vida real, mas a concreta e que, principalmente, pode ser partilhada com outros.

E essa possibilidade de dividir uma bela realização imperfeita me parece mais valiosa do que viver apenas na perfeição do sonho.

Nenhuma realização é tão bela quanto um sonho. Mas toda realização é tão bela quanto ela pode ser.

 

Camila Teixeira

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O amor morre

Eu tenho uma teoria sobre o amor. Ou sobre a paixão. Acho que é mais sobre a paixão. É de 2008. Tirando uma coisinha ou outra, um adjetivo aqui, outro ali, acho que ainda é válida. Lá vai.

***

Repare. A gente se apaixona pela diferença que existe no outro. Mas não qualquer diferença. A diferença entre aquilo que o outro é e aquilo que queríamos ter sido e não somos. Aquilo que queríamos ter tido e não temos.

Apaixonar-se é um exercício de subtração. A equação será sempre, fatalmente, exata. A pessoa por quem nos apaixonamos (menos) aquilo que realmente somos é exatamente (igual) aquilo que sempre gostaríamos de ter sido. Simples assim, eu já reparei. A gente nunca se apaixona por uma pessoa, mas por aquilo que ela conseguiu fazer ou ser e a gente não.

A paixão não passa, portanto, de um apego louco por aquilo que um dia imaginamos ser. É um auto-amor invejoso. Um sentimento de posse por um desejo não realizado, perdido no tempo, quase esquecido. E que, de repente, a gente reencontra concretizado na vida de outra pessoa. A gente vê um pedaço de nós cintilando na vida do outro. E se o outro tem o que eu sempre quis, eu quero essa pessoa para mim.

E a gente passa a viver juntos. Fazer coisas juntos. Dorme, come, arrisca. A gente se adapta, a gente se enquadra, a gente cede, a gente pede. Nesse modelo de sentimento vampiresco, um suga o outro, posto que na equação da paixão tudo é recíproco.

O tempo passa, a gente se acostuma. Aquilo que era uma diferença passa a não ser mais. As diferenças foram compensadas até que se chega ao estado letal da equação. Você menos eu é igual a zero. Eu não me vejo mais em você, você não se vê mais em mim. O que eu gostava em você eu já tenho. O que você gostava em mim, já tem, graças ao nós dois.

Este é o primeiro sintoma da morte. A paixão morre no equilíbrio.

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Camila Teixeira

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O postulado (in) feliz

Dia desses li um texto sobre dois psicólogos/pesquisadores que traçaram um paralelo entre o funcionamento da mente humana e a felicidade. Os autores dizem: “A human mind is a wandering mind, and a wandering mind is an unhappy mind”. Em seguida, eles completam “The ability to think about what is not happening is a cognitive achievement that comes at an emotional cost”.

No momento em que li, instantaneamente achei que era algo evidente e que, enfim, alguém tinha conseguido apontar por meio da lógica a causa da felicidade ou da infelicidade. De fato, passamos boa parte do tempo pensando naquilo que não temos, por maior que seja nossa coleção de bens materiais e imateriais. E isso tem um peso.

Só que, logo na sequência, algo me soou estranho. De uns tempos pra cá, eu vinha achando o contrário, que a felicidade é fundamentalmente ter o que buscar. E ter o que buscar é, em princípio, se dar conta daquilo que não temos. Eu estava feliz com esse meu postulado, pois ele elucidava perfeitamente meu estranhamento ao observar o funcionamento do mundo.

Quantas vezes já não vi situações contraditórias de pessoas realizadas e de grandes posses, mas, ainda assim, infelizes. Quantas vezes já não vi pessoas humildes, ou em busca de seus objetivos, animados pelo desafio de conseguir o que desejam. Considerar “o que não está acontecendo” como causa da infelicidade pode parecer lógico, mas me parece uma explicação  reducionista e incompleta.

O problema da conclusão deles é que se trata de um retrato apenas momentâneo. Não projeta as consequências do não-acontecimento no tempo e seu impacto na vida de alguém (considerando uma mente sã, obviamente). E é aí que entra a genialidade do meu postulado, que é o seguinte:

A capacidade de imaginar e desejar aquilo que não temos é justamente um dos combustíveis da felicidade. Saber onde se quer chegar, imaginar como, fazer planos, tudo isso borbulha no espírito de quem se dá conta daquilo que não tem – e claro, deseja alcançá-lo (a teoria é mesmo linda).

Em última medida, quando penso nesse meu postulado e o relaciono com o que dizem os pesquisadores, minhas conclusões são as seguintes, nessa ordem:

  • A infelicidade é o ponto de partida e mesmo parte da felicidade – e não o seu oposto;
  • A felicidade é um desejo, uma miragem, uma imaginação, um sonho, uma projeção;

Só que aí vem a vírgula, o porém que mata:

  • Nenhuma realização é tão bela quanto um sonho, tão perfeita quanto o desejo, tão linda quanto a miragem, tão ideal quanto a esperança;
  • Sempre, invariavelmente, haverá algum descontentamento na passagem entre o imaginário e o concreto.

Talvez esse choque entre o real e o imaginado, isso sim, seja a causa da infelicidade.

 

(Post em evolução, que é uma sequência deste).

 

Camila Teixeira

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A função do gostar

Eu sempre penso se o que gosto sou eu que gosto de verdade. Ou se é o gosto de outra pessoa. Se você chegou aqui achando que o que gosta é gosto seu, sinto informar que nada ou pouco do que gosta você gosta porque simplesmente gosta. Porque o gostar, repare, é um ato de integração social. Poucas coisas podem ser tão maquiavelicamente manipuladas quanto o ato de gostar.

Complicado? Nada, boba. Funciona assim. Você gosta de um cara. Ele gosta de pudim de chá de boldo e de passar o domingo vendo pegadinha na televisão. Hm. Apesar disso, você gosta do sujeito. O que você faz? Um esforço descomunal para fingir que se interessa pelo hobby dele. E daí, cria-se a empatia, a semelhança, a proximidade, requisitos básicos para iniciar a relação amorosa que você deseja.

Ou então, meu amigo. Você está numa entrevista de emprego. Você precisa desesperadamente desse emprego. A empresa fabrica armas nucleares. Você odeia armas nucleares, mas precisa pagar suas contas ou morre porque tem um agiota bandido atrás de você. O que você faz? Diz que é fã do Rambo, do Comandos em Ação e que passou sua infância inteira jogando batalha naval.

É assim. A gente gosta porque o outro gosta, por conveniência, para parecer, por integração, porque precisa, por interesse, por vingança, por influência, para provocar, para disfarçar, por obrigação, para agradar, para impressionar, por costume, para não se sentir só.

Quanto do gostar é realmente puro, é realmente amor?

 

***

 

PS: Gostou do meu texto?

 

Camila Teixeira

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Técnicas para parecer interessante

Bom, finalmente você entendeu e aceitou que é uma pessoa desinteressante. Como diz minha mãe, pa-ra-béns. Para chegar a esse ponto, é preciso muita coragem e autoconhecimento, o que é bastante louvável. Se você chegou a esse ponto, deve estar se sentindo o último dos bobalhões. Talvez você realmente seja um bobalhão, mas, hoje em dia, não há nada que não possa ser revertido com um mínimo de empenho.

Após anos de observação social e virtual, selecionei cuidadosamente algumas dicas para você dar início a sua transformação, ao seu relook social. São conhecimentos fundamentais para que você possa construir seu novo eu. A lista é um pouco longa, mas a vida é assim, parecer interessante demanda trabalho e dedicação. E se você já sentiu preguiça antes de começar, sinto informar que você é um bobalhão irremediável.

Lá vai.

Quase toda pessoa interessante é uma farsa. Ou então tem mau hálito. Ou seja, elas não são o que parecem. Elas só parecem. Essa é a boa notícia, porque você também não precisará ser alguém interessante. Parecer será suficiente. Mas escove os dentes regularmente.

Tenha uma mania ou uma paixão, enfim, algo que fuja dos padrões da sua idade/círculo social. O clássico é colecionar cartazes de publicidade da antiga União Soviética. Mas você pode tentar outras opções, como praticar jardinagem, colecionar vinis (muito na moda), ler HQs ou graphic novel (altamente na moda), fazer pose de bom cozinheiro, ir a todas as exposições de artes da cidade, ver apenas filmes cults e alternativos, amar Paris, NY, Tóquio  (clássicos) ou qualquer outro lugar mais insólito, tipo Patagônia. O importante é ir fundo na opção que escolher e saber tudo sobre ela.

Faça da sua casa seu reduto sagrado. Dê uma limpeza geral, jogue os lixos fora (importante), mas guarde as antiguidades preciosas. Saiba distinguir antiguidades preciosas de lixo.

Goste do Woody Allen. Todo mundo que parece interessante gosta do Woody Allen (ou pelo menos diz que gosta). Allen é um grande consenso cultural e, ao dizer que gosta dos trabalhos dele, terá grandes chances de criar empatia com os interessantes. (E fique tranquilo, os interessantes só viram os últimos filmes e olhe lá. Portanto, se você disser que adorou um título realizado nos anos 70 vai estar abafando geral).

Use a palavra super antes da conjugação de um verbo (em alta). Exemplo: ele super sabe, ele super superou (evite essa formação & similares), ela super adorou, etc.

Faça críticas à programação de TV, mas atenção, BigBrother não é mais um bom alvo, já que os interessantes resolveram assumir que acompanham o reality show. Prefira as bizarrices que rolam de madrugada. Tenha o cuidado de passar uma noite em branco para saber o que passa no Corujão.

Não minta sobre as coisas que anda vendo. Não tenha medo de dizer que não viu algo (e aproveite para falar isso com ar totalmente blasé. Ser blasé vale ouro). Mentir sobre algo que não viu é queimar o filme para o resto da vida.

Acompanhe o twitter, mas não ouse tuitar. Sendo alguém desinteressante, você correrá sério risco de ser honesto, dizer uma bobagem desinteressante e, portanto, de queimar o próprio filme.

Faça de uma viagem até a esquina de casa parecer um mergulho na vida pulsante da cidade. Ou faça uma visita ao jardim público mais próximo parecer uma verdadeira imersão na natureza e no seu lado zen. Tire fotos (boas) e compartilhe (se ficarem ruins, faça retoques no photoshop).

Pratique um esporte diferente do futebol e fale sobre ele com brilho nos olhos (para tanto, é altamente recomendável fazer um curso de teatro).

Faça um curso de teatro para aprender a interpretar o papel de alguém interessante. Isso poderá te ajudar a se tornar uma pessoa interessante de verdade.

Nem todos os ricos são interessantes. Aliás, quase todos são chatos. Portanto, não se preocupe se você é um pé rapado. Aliás, hoje em dia ser pé rapado é glamour. Mas disfarce e faça parecer que seu estado pé rapado é uma opção e não sua situação.

Não fique falando sobre você, ainda menos se você é desinteressante. Só se transforme em assunto se os outros se interessarem espontaneamente por você (vai demorar).

Seja feliz. Ou pareça ser. Sempre funciona.

 

Camila Teixeira

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