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Depressões e embutidos

O pior tipo de depressão é a depressão gástrica apetitósica. Funciona assim. Com ela, você continua vivendo consciente de todas as delícias do mundo e do formidável prazer que te proporcionariam durante uma interação mundana. Mais: você continua desejando essas delícias. Só que o buraco negro que gira numa velocidade alucinante na altura do seu abdome causa sérios efeitos colaterais nos cinco sentidos que utilizamos para experimentar o mundo. A consequência mais drástica é a ojeriza por algo que, num estágio normal da existência, adotaríamos. Ou seja, na depressão gástrica apetitósica, você evita o que quer, não quer o que deseja. Já na depressão nervosa, tudo é muito mais simples. Você não quer o que não quer. E está tudo bem, não há contradição. E não há nada pior do que não querer algo que se quer (sim, há pior, mas, em nome da coerência do post, aceitemos o fato de que não há nada pior do que não querer o que se quer).

Por outro lado, há uma certa sabedoria embutida na depressão gástrica apetitósica. É uma boa forma de despertar para a consciência de que, em muitos casos, embora não soframos dessa moléstia no cotidiano, seus sintomas parasitam nosso comportamento diário. Evitamos o que queremos.

É, é. É uma pena ter que passar por uma depressão gástrica apetitósica para obter alguma iluminação na vida. A conta da iluminação às vezes é um pouco salgada. Ou dá náuseas. Mas, enfim, passa. Saúde!

Camila Teixeira

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