Arquivo da tag: HQ

Lá no meu outro eu

Fiz um post novo sobre Ma Révérence, HQ que acabei de ler e adoreeeei.

Vai lá.

Camila Teixeira

Anúncios
Etiquetado , , , ,

Blast

Fiz um post novo sobre Blast, HQ do Manu Larcenet. Vai lá ver.

Etiquetado , ,

Aâma

A quem possa interessar, fiz um novo post lá no meu novo eu sobre a HQ Aâma. Vai lá.

Aama

Camila Teixeira

Etiquetado , , ,

Novo eu

Tenho um novo eu internético.

Lá publicarei principalmente meus comentários sobre as HQs & afins que tenho lido.

Juntei tudo o que já publiquei aqui sobre o assunto e mais um post novo sobre a HQ Portugal. Vai lá.

 

Camila Teixeira

Etiquetado , ,

ToXic

Quando terminei de ler ToXic (X’ed Out, título original), logo pensei que tinha duas opções. A primeira: passar batido, fazer cara de paisagem e fingir que não era comigo. A segunda: parar minha vida inteira para entender o mundo e o submundo de suas quase 30 páginas. Estava seguindo firme na primeira opção, quando Charles Burns, o autor, me deu um tapa bandido na cara e disse: acorda, menina! Ele puxou a minha orelha e disse: não vai sair daí até entender, pelo menos, dois quadrinhos da história.

Fiquei de castigo. Li e reli ToXic. Porque o problema é o seguinte: você não pode ler Charles Burns e achar que depois vai poder sair pra comer uma pipoquinha Nhac! numa boa. Não vai. Porque o Charles vai puxar teu pé à noite, ele vai se esconder dentro do teu armário, debaixo da tua cama, dentro do chiado da tua televisão. Ele vai te assombrar até você falar: tá, tá, tá, tá, tá! Porque é isso que ele quer, a tua alma, a tua confissão, os teus segredos. E se você tiver o mínimo gosto por HQ, ou pelo caos, pelo desconcerto, pelo estranho, ou simplesmente se você foi adolescente um dia na vida, ele vai vencer. Nem adianta lutar contra.

Primeira página, referência clara a Tintin. 

Para resumir muito, o universo do americano Charles Burns gira em torno das transformações, do mal-estar, da incompreensão, das dúvidas, dos medos e das turbulências que marcam o período entre a adolescência e o início da fase adulta. Ok, você vai pensar, todo mundo faz isso. Sim. Só que Charles Burns tem uma linguagem muito própria. Pra citar algumas: a mistura entre o sonho e a realidade, o consciente e o inconsciente; a manifestação do mal-estar psicológico dos personagens por meio de sequelas e feridas diversas pelo corpo; o mundo underground, a referência ao movimento punk, a violência, a monstruosidade.

O autor.

No caso de ToXic, Doug tem um machucado na cabeça, toma remédios para tentar se curar de um mal indefnindo, é aspirante a artista na cena punk, tem problemas com a família, tem uma namorada que se corta com uma lâmina de barbear para ser retratada numa foto polaroid, e ele se perde nas dimensões de um inconsciente assustador, que reflete seus medos reais, ou o contrário, que é a origem desses medos. Doug deseja sair dessa espiral, ele quer sair, mas não consegue. Está bloqueado. E ToXic é sobre isso, sobre esse desejo quase forte de encontrar uma saída. Alguns críticos falam que é a versão punk de Tintin, outros que é Tintin modo Twin Peaks.

O que me chamou atenção foi a forma que o autor escolheu contar a história. Os quadros são bastante clássicos, os desenhos são nítidos, claros, bem definidos e tudo isso é oposto do conteúdo da trama. O mundo perturbado de Doug em nada tem a ver com essa retidão. Você acha que está num mundo normal, mas é engano seu, béim. O contraste entre as duas linhas narrativas causa um efeito desnorteante, como se você tivesse levado uma bordoada na cabeça. Bem mundo real mesmo, tipo quando você passa manteiga no pão, enquanto lá no fundo do seu eu arde um inferno dantesco.

Pra falar a verdade, a monstruosidade retratada não é o tipo de universo que me atrai e ainda tem muita coisa da história que nem comentei. Mas Charles Burns é tão conceitual que não dá pra fingir que não viu. Não sei se  X’ed Out foi publicado no Brasil, mas Black Hole, sua obra mais famosa e que levou 10 anos para ser escrita, foi. Li somente alguns trechos, mas recomendo muito.

 

Camila Teixeira

Etiquetado , , , , , , ,

Embalagens, chocapic, HQ, etc.

Eu tô numa fase em que uma das únicas coisas que consigo terminar de ler é a nota explicativa do pacote de bisnaguinha, que aqui se chama fofamente petit pain au lait. Ou então da caixa de Chocapic. Imagina que existe uma diferença profunda entre a composição do Chocapic tradicional e seu equivalente orgânico. Na fórmula tradicional, tem 26,8% de chocolate em pó, enquanto no cereal orgânico essa porcentagem cai para 5,4% (sem perda alguma na qualidade gustativa). Enquanto a primeira tem 31% de trigo, a segunda tem 61%. Para você ver como tradicionalmente a gente come mais porcaria do que quando resolve olhar a etiqueta da embalagem.

Enfim, felizmente, tenho conseguido ler coisas um pouquinho mais extensas do que a embalagem do cereal (mas não muito). Embarquei forte na fase HQ, que se lê em uma horinha ou duas, mais ou menos. E os franceses são fortes em HQ, preciso dizer. Acabei de ler Quai d’Orsay – Crônicas Diplomáticas e – senhóóóór – como eu ri com o primeiro volume (de dois). Além de um desenho primoroso, em que quase se pode ouvir o que acontece nos quadrinhos, a trama é tão interessante quanto. Quai d’Orsay acompanha o início do jovem Arthur Vlaminck no Ministério das Relações Exteriores da França. Ele é contratado como conselheiro em discursos políticos para o ministro Alexandre Taillard de Worms (uma referência ao antigo ministro Dominique de Villepin).

Todo o primeiro volume gira em torno do estresse e das pressões que fazem parte do ambiente no qual Vlaminck caiu. Também é uma caricatura de como os discursos políticos são criados. Os temas são ricamente ilustrados pelos autores, o desenhista Christophe Blain e o roteirista Abel Lanzanc, esse último sob pseudônimo, já que foi na vida real um dos conselheiros do ministério retratado na história.

Uma das minhas passagens favoritas, na qual o ministro vai grifar um texto. 

O melhor de Quai d’Orsay é, sem dúvida, a construção do personagem do Ministro de Worms. Suas inspirações filosóficas, suas manias, sua presença retumbante, a força de suas palavras (delirantes e abstratas, em alguns casos) se misturam e formam um personagem tão carismático que dá até vontade de convidá-lo para comer um Chocapic no café da manhã, num dia desses.

TAC, TAC, TAC. THAC, TCHAC, TCHAC. Ri demais.

O volume dois eu gostei menos, embora tenha a mesma qualidade. O problema é que eu achei os personagens da trama menos idiossincrásicos que no primeiro volume. Falarei dele num dia em que não tiver que ler etiquetas de embalagens.

Camila Teixeira

Etiquetado , , , , , ,

Polina

Às vezes eu queria que o mundo inteiro falasse francês. Seria ótimo perguntar em francês a um nômade da Mongólia quanto tempo ele fica em cada acampamento e vê-lo responder algo tipo: não conto o tempo, conto a necessidade. Ou então: o tempo que o tempo deixa. Se ele me desse uma dessas respostas, eu cairia dura no chão ao constatar que toda a ideia que faço desse povo é absolutamente verdadeira. E o mais importante é que ele entenderia minha pergunta e eu a resposta. Ele poderia falar português também, óbvio, mas o português não cabe exatamente no causo que quero defender nesse post, que é o seguinte: me apaixonei por uma HQ francesa. E se o mundo inteiro falasse francês, o mundo inteiro poderia ler a mesma história que acabei de ler. E, sei lá, ficar um pouco feliz também, se não for sonhar muito.

Quando cheguei aqui, durante minhas primeiras visitas às livrarias, fiquei espantada com a profusão de HQs nas estantes. Tem de tudo: monstros, fantasmas, naves espaciais, horrores do mar, guerreiros do futuro armados com pistolas gigantes. Até que no meio desse ambiente hostil, vi a capa de uma HQ diferente das outras: uma bailarina em exercício. Era Polina. Fiquei intrigada com a diferença temática entre essa HQ e as demais, mas na ocasião não pude ir adiante e ver do que se tratava.

Ontem o dia chegou e, senhóóóóór, ainda bem que esse rapaz, Bastien Vivès, o autor, existe. É um moço de 27 anos, aparentemente discreto, mas de uma sensibilidade profunda. Tanto que eu até duvido que ele saiba que é tão sensível assim. Acho que ele nem sabe que é tão profundo. Porque as pessoas que são profundas não sabem que são profundas. Elas são. Enfim, pouco importa.

O Gosto do Cloro

Primeiro eu li O Gosto do Cloro, uma HQ que me fisgou por se passar numa piscina. A capa é uma menina de costas, de touca, colocando oclinhos, enquanto é observada por um garoto dentro da piscina. A história é simples: o encontro de um rapaz e uma menina. E também de toda a ansiedade do garoto nos dias em que vai nadar. Será que ela vem, será que já está lá, será que vai falar comigo? Além da história tem também a estética. NO Gosto do Cloro, os quadrinhos são limpos, poucos traços, mas muito justos e cheios de perspectivas que retratam com exatidão o tempo de quem já passou mais de 20X25 metros dentro de uma piscina. As observações, as cenas, os mergulhos, o fôlego, a espera, a calma. Está tudo lindamente retratado por Vivès.

O ponto alto da história é o golpe do suspense. Nas cenas finais do livro, a menina chama o rapaz para ficar debaixo da água. Ela fala alguma coisa para ele, mas ele não consegue entender. Mais tarde ele pergunta a ela o que ela disse. Ela diz que contará na semana seguinte. É tipo a mesma cena de Lost in Translation, quando a Charlotte diz alguma coisa secreta no ouvido do Bob Harris. Para quem fala português (enfim, aqui entra a parte em que eu queria que o mundo inteiro falasse português), os movimentos que ela faz com a boca parecem muito com um “eu te amo”, mas no estágio em que se encontra a relação dos dois, é pouco provável. Mas que parece, parece.

O ponto fraco está na repetição de alguns diálogos e frases, como se o autor não soubesse o que colocar na boca dos personagens. Ou como se quisesse enfatizar a falta de assunto entre eles. Se for a segunda opção, ele não precisaria ter insistido taaaanto na repetição, já que a expressão dos personagens já deixava isso bem claro.

Pooooor isso, resolvi passar para uma segunda opinião. Parti para Polina. Não tinha lido nenhuma resenha, nenhum resumo sobre a história. Só sabia que tinha recebido ótimas críticas.

Polina

Polina é de uma delicadeza infinita. É a história de uma bailarina russa, dos seus seis anos até a idade adulta. É a história das marcas de sua infância na idade adulta, e de como Polina reage aos eventos inesperados da vida. Ou de como ela briga e se reconcilia. Para resumir, acho que é a história da coragem de Polina.

Logo na primeira página, dá para sentir o tom empregado por Vivès. Polina está no carro com sua mãe, indo para escola, onde passará por um teste de balé. Sua mãe diz:

Você precisa se concentrar em tudo o que já estudamos. Você conseguiu alongar um pouco hoje de manhã?

(Polina) Sim.

(Mãe) E aí, tá se sentindo melhor?

(Polina) Tá dolorido ainda.

(Mãe) Se o professor Bojinski vier testar sua flexibilidade, presta atenção para não demonstrar nada da tua dor.

Uma das minhas páginas preferidas. Polina faz uma pirueta para um grupo de pequenas bailarinas.

Quando termina, todas querem fazer uma pergunta a ela. 

Os traços dessa HQ são menos limpos, mas isso não interfere em nada a leitura. Por outro lado, é impressionante a capacidade de Bastien Vivès de captar e reproduzir os movimentos do corpo. Embora Polina não seja exatamente uma história sobre a dança, a HQ é quase um documentário sobre o assunto.

Polina é um tanto de delicadeza sobre a dureza da vida.

****

Atualização

No final do texto, escrevi dansa e não dança (já corrigi). Oups. Coisas que só a proximidade entre duas línguas, o português e o francês, faz por você, visto que em francês é danse.

Estou em processo de metamorfose e nem percebi.

Camila Teixeira

Etiquetado , , , , ,