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O intrigante ET de Paris

Eu nunca tinha ouvido falar de Leos Carax (oups) até o Festival de Cannes desse ano, quando o diretor francês apresentou seu Holy Motors. O filme conquistou os críticos, mas também dividiu opiniões. Esquisito e genial, louco e chato, entediante e eufórico. Fui fazer o tira-teima ontem.

 

 

Na sala, cinco pessoas além de mim. Na tela, uma sequência de nove histórias. Sr Oscar, incrivelmente interpretado por Denis Lavant, percorre Paris numa limusine branca, dentro da qual existe um camarim que ele utiliza para se fantasiar de louco, pai de família, assassino, intérprete de motion-capture, músico, moribundo, mendiga. Para cada “papel”, ele recebe um roteiro a seguir e que identifica as pessoas que deve encontrar. Até aí, normal. Não, engano. Nada é normal em Holy Motors.

A originalidade é o grande destaque do filme, com cenários e situações inusitadas. Pegue o exemplo do louco encardido, o Sr. Merda, que surge de um bueiro no meio de um cemitério e sai comendo todas as flores postas sob os túmulos, cujas lápides indicam: visite meu website. Ou então o intérprete de motion-capture que simula uma luta de kung-fu e a cópula de dois monstros. Ou então do homem que assassina um outro homem semelhante a ele mesmo. Holy Motors é uma experiência visual de impacto, cheia de detalhes. E é num desses detalhes que Leos Carax deixa uma referência a ele mesmo. Na placa de um carro em primeiro plano está a inscrição ET 75, sendo 75 o número que indica a região parisiense. O ET de Paris.

O filme tem poucos diálogos, mas alguns deles bastante existenciais. A mendiga que pede dinheiro na ponte mais luxuosa de Paris pensa: “sou tão velha que tenho medo de não morrer”. Ou então, a filha que mentiu ao pai pergunta a ele se vai ser punida. Ele responde: “sim, sua punição será continuar sendo quem você é”. Ou ainda o chefe que pergunta ao homem: “o que te faz continuar, Sr Oscar?”

Andei olhando o que disse a crítica. Engraçado como cada jornalista teve uma impressão diferente sobre o tema de Holy Motors. Seria o próprio cinema? Uma autorreferência? Distúrbio de múltiplas personalidades? Reencarnação? Até poucos minutos antes do fim, não tinha conseguido formar nenhuma teoria sobre o assunto do filme, mas um diálogo entre o Sr Oscar e uma mulher me salvou. Holy Motors é uma referência à vida que a gente leva, aos diversos papéis e máscaras que assumimos para agradar aos outros em detrimento do nosso próprio prazer de viver. A música de Gerard Manset de umas das cenas finais diz: “gostaríamos de reviver, reviver a mesma coisa, refazer quem sabe o grande percurso, refazer novamente o que se ama”.

Gosto da minha teoria porque ela me permite gostar do filme. Qualquer uma das outras propostas me faria acha-lo esnobe, prolixo, enfadonho, umbiguista. Recomendo, nem que seja pela experiência visual.

 

 

Camila Teixeira

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Drive

Mais uma vez o problema da expectativa. Ouvi tanta coisa sobre Drive, que estava esperando algo bombástico. É um bom filme, é verdade. O  roteiro é original, o cenário simples destaca ainda mais a atuação dos atores, todos ótimos, a trilha sonora incrível e suave equilibra com a violência da história. Ryan Gosling, que normalmente acho sem graça, é o verdadeiro suspense encarnado e está incrível com suas frases curtas e expressões carregadas de ambiguidade.

 

Acharei uma jaqueta dessa pra mim.

No filme, Gosling trabalha numa oficina mecânica, além de ser um motorista profissional, que atua como dublê de capotagem de carro e motorista em assaltos. Ele se encanta com sua vizinha, casada com um ex-presidiário, a quem tenta proteger a todo custo, inclusive se colocando em perigo.

Drive tem tudo para ser um cult, com a jaqueta de escorpião do personagem de Gosling, sua luva de couro e seu sapato estiloso, os apelidos motorista e cozinheiro, a máscara de borracha, o timing e os enquadramentos das cenas de violência milimetricamente pensados, o autocontrole do motorista, a cena romântica no elevador antes do duplo ataque, o palito no canto da boca, o marginal engomadinho, o romance não dito, a tensão em cada cena. Quando paro para pensar agora, tudo é legal.

Mas.

Para mim, faltou uma costura melhor a partir do pico da trama, quando um assalto que tinha tudo para correr “tranquilamente” acaba derrapando e tudo dá errado. O “quem sabe o que sobre quem” me pareceu um pouco confuso.

Li muitas referências à violência do Tarantino, por isso, acho que estava esperando algo mais intenso, mais rasgado. Pessoalmente, não vi nada de Tarantino na história – o que achei bem inteligente da parte do diretor, o dinamarquês Nicolas Winding Refn.

E, sei que é irrelevante, mas achei a escolha da fonte utilizada no cartaz, estilo Brush do MS Word, bem infeliz. E isso influencia tudo.

Eu sou uma chata, mesmo.

Lá vai o trailer.

 

 

Mas gostei. Indico.

 

Camila Teixeira

 

 

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Never let me go

Tenho pouquíssimo tempo livre no dia. Esse pouquíssimo tempo livre estava dedicando, em partes, a Never let me go, livro do Kazuo Ishiguro. Que mergulho, uma maravilha. Demorei 150 páginas para sair do ponto morto e engatar a primeira marcha na leitura. Mas depois que a primeira entrou, tive que passar logo para a quinta, de tanto que ela me pegou. De repente, me vi lendo enquanto escovava os dentes ou tomava café da manhã. É um quase-suspense, drama, ficção científica e romance de formação, ao mesmo tempo. Por outro lado, é difícil estabelecer o assunto principal, se é sobre a amizade, sobre a mentalidade humana, sobre o que seríamos capazes de fazer para diminuir nossas mazelas. Em todo caso, é uma ótima reflexão sobre o modo como apreendemos os acontecimentos que impactam nossa vida e formam nossa personalidade.

A trama de Never let me go acontece em dois níveis. O primeiro é a história da amizade entre Kathy, a narradora, Tommy e Ruth, todos alunos de Hailsham, uma escola muito especial dos confins da Inglaterra, desde a infância até chegarem aos 30 anos. O segundo nível, em evidência logo na primeira página, embora abordado com parcimônia pelo autor durante toda a narrativa, é sobre a doação de órgãos. O autor se serve do primeiro nível, ou seja, dos ritos de passagem, dos códigos secretos entre amigos e confidências entre eles para desenvolver em breves relances a dureza do segundo nível. A doação, que hoje vemos como algo nobre, é tratada de uma maneira misteriosa durante a narrativa e seu uso só é revelado nas últimas 50 páginas.

Embora no início eu tenha tido enormes dificuldades em acreditar na força da história, o autor conseguiu me fazer ter um pouco de fé no que ele queria contar. Que bom. O que me segurou foi sua habilidade para descrever cenas minimalistas, impressões conturbadas e sentimentos complexos com doçura e muita justeza. Fui fisgada pela maneira como ele manipula a decodificação de atitudes, gestos e palavras para justificar seu romance. Um exemplo. No livro, ele utiliza uma frase matadora – e que pode se aplicar à vida de qualquer pessoa – sobre a maneira como os alunos de Hailsham eram informados sobre o que aconteceria com eles no futuro. Kathy diz a Tommy:

Nós fomos informados sem ser.

Difícil não parar nessa frase e pensar no tanto que ela se aplica a qualquer situação difícil da vida real. Por pior que seja um acontecimento, não tem como escapar: nós fomos informados sem ser. É um conformismo duro de engolir, mas que é real.

Só que o fatality, o momento em que passei da primeira marcha para a quinta, foi a forma como Ishiguro desenvolveu a frase acima. Kathy conta:

Tommy achava que, durante todo o tempo que passamos em Hailsham, os guardiões escolhiam com bastante cuidado o momento de nos dizer cada coisa, de modo que fôssemos sempre um pouco jovens demais para entender corretamente a informação mais recente. Mas, claro, nós assimilávamos as ideias a um certo nível e, antes de muito tempo, todos esses dados entraram em nossas cabeças sem que tenhamos nos dado realmente conta.

Ô, o poder da doutrina. Os alunos de Hailsahm estão envolvidos num conjunto de pregações, faça isso, seja aquilo, você é muito importante para nós, recebem peça por peça de informação para que se transformem num belo produto a serviço da humanidade.

De novo, difícil não fazer um paralelo entre a maneira como eles são doutrinados e:

  • a forma como nós nos preparamos (ou não) para a vida adulta,
  • a forma como uma geração forma a seguinte,
  • a forma como as gerações se deixam formar,
  • a confiança que as gerações mais jovens deposita na logo anterior.

Never let me go é um livro repleto de nuances, de possibilidades de interpretação, além de ser um belo convite para pensar na forma como crescemos, fomos criados e educados. E sobre a forma como aceitamos tudo isso, como aceitamos, em partes, o horror. Ishiguro acerta em cheio: um mundo sombrio, mas com delicadeza.

Concordo com o autor. É realmente uma pena que, quando jovens e até mesmo quando adultos, a gente não tenha o discernimento necessário para parar tudo e começar de novo.

***

O filme foi adaptado para o cinema. No Brasil, foi chamado Não me abandone jamais. Acho difícil o filme ter a mesma profundidade do livro, já que ele revela logo de cara os segredos da trama. Mas verei, certamente. Adoro adaptações. Lá vai o trailer, mas cuidado. Ele revela mais do que deveria para quem quer ler o livro.

Camila Teixeira

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Coragem

Dia desses, vi o filme Comer, Rezar, Amar (o livro li ano passado, acho). Ontem terminei de ler  One Day. Há um ponto em comum nas duas histórias: a coragem de se desfazer de algo no meio do caminho e começar outra do zero.

Talvez esse seja um tema clássico dos 30 anos, época em que, normalmente, a gente tem inteligência intelectual e emocional para fazer um balanço sincero do que a gente fez da vida.

Não tenho muito a dizer a respeito, além de

  • como (não) é fácil fazer vista grossa sobre um descontentamento em nome da afeição que se tem por ele,
  • como é difícil viver essa contradição e
  • como é duro ver que tomamos uma decisão errada, que investimos tempo, dinheiro, energia e sentimento num caminho que pede retorno.

Nos dois casos, da desistência ou da persistência, é preciso coragem.

 

Atualização:

Lembrei. Esse tema também está em Vicky Cristina Barcelona.

 

Camila Teixeira

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Tão sem tempo, tão atrasada

Em vários momentos, percebo o quanto meus conhecimentos cinematográficos estão atrasados. Só que hoje cheguei ao fundo do poço, ao ler n’O Globo que

  • Oskar Schell, meu herói forever de “Extremamente alto e incrivelmente perto”, do Jonathan Safran Foer, tem um rosto no cinema e que
  • a adaptação do livro está concorrendo ao Oscar 2012 na categoria de melhor filme.

De qualquer jeito, não verei esse filme, estou decidida, posto que não pretendo morrer afogada no meu mar de lágrimas. Já chega o que tive que segurar quando terminei de ler o livro. Também não quero que o meu Oskar Schell tenha um rosto diferente daquele que criei especialmente para ele na minha imaginação.

Meu Oskar é mais gordinho.

Por outro lado, essa trilha do U2 me diz que a sensibilidade da história pode ter derrapado para um chororô sentimentalóide, o que me faria chorar menos. Outro motivo para não ver.

Mas verei. Óbvio.

Camila Teixeira

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