Arquivo da tag: felicidade

Placar do Consumo: Putz 6 x 2 Oba

Estamos no período de grandes promoções aqui na França. No último final de semana, eu paguei 10 euros por dois conjuntos de roupa para o tigre (oba). Cada conjunto vem com três peças. Ótima qualidade, lindos e quentinhos (oba)². Mas quando eu penso no preço que paguei, não sei se fico feliz (oba), p*** da vida (putz) ou moito preocupada (putz)². Vamos aos diferentes cenários:

 
A – Eu paguei 4,50 euros por cada conjunto de três peças. Em reais, significa algo em torno de 15 reais. Nunca no Brasil eu acharia um conjunto semelhante por esse preço. Chutando baixo, eu pagaria no mínimo 45,00 (em lojas de grande distribuição, estilo C&A, Renner, etc). Em lojas de marca própria, pode aumentar o valor para uns 80 reais.
– Resultado: o preço que se cobra e se paga no Brasil por qualquer objeto de consumo é simplesmente escandaloso.
Conclusão: p*** da vida (putz).

B – Quando se pensa na repartição dos valores sobre os 80 reais do conjunto no Brasil (impostos, lucro, matéria-prima, infraestrutura, salário), dá para perceber o quanto a mão de obra brasileira (qualificada, inclusive) vale pouco e como a vida é cara.
– Resultado: para ser classe média no Brasil é preciso ser rico.
Conclusão: p*** da vida.

C – O valor que paguei foi resultado de uma promoção de 50% sobre cada conjunto. Ou seja, o valor normal de venda era 10 euros por cada um. Quando se pensa que com 50% de desconto o lojista ainda tem lucro, percebe-se o quanto ele ganha com uma venda normal, sem promoção.
– Resultado: a gente paga para os outros ficarem ricos (novidade).
Conclusão: p*** da vida (putz).

 
D– Vi na etiqueta que o produto foi fabricado na China. Sobre um valor de 4,50 euros da venda final, me pergunto quanto a costureira que se esmerou para produzir uma costura caprichada ganhou.
– Resultado: o trabalho escravo continua.
Conclusão: p*** da vida e moito preocupada (putz).

 
E– Quando penso que a costureira chinesa (conjunto de 15 reais) pode ter o mesmo salário que a costureira brasileira (conjunto de 80 reais), me pergunto quem são os verdadeiros ladrões.
– Resultado: Hã? Hein? Queim?
Conclusão: p*** da vida e moito preocupada (putz).

 
F – Considerando a hipótese de que a costureira brasileira pode ter um salário mais ou menos correto (duvido), não sei se fico feliz por ela (oba) ou preocupada com a chinesa (putz).
– Resultado: não posso deixar de me sentir culpada por alimentar esse modelo bizarro.
Conclusão: sem comentários.

 

Resultado final: esse blábláblá todo é coisa de pobre. Vou ali consumir mais pra ver se esqueço desses detalhes e fico um pouquinho mais feliz.

 

Camila Teixeira

Etiquetado , , , , , , , , , , ,

O postulado (in) feliz

Dia desses li um texto sobre dois psicólogos/pesquisadores que traçaram um paralelo entre o funcionamento da mente humana e a felicidade. Os autores dizem: “A human mind is a wandering mind, and a wandering mind is an unhappy mind”. Em seguida, eles completam “The ability to think about what is not happening is a cognitive achievement that comes at an emotional cost”.

No momento em que li, instantaneamente achei que era algo evidente e que, enfim, alguém tinha conseguido apontar por meio da lógica a causa da felicidade ou da infelicidade. De fato, passamos boa parte do tempo pensando naquilo que não temos, por maior que seja nossa coleção de bens materiais e imateriais. E isso tem um peso.

Só que, logo na sequência, algo me soou estranho. De uns tempos pra cá, eu vinha achando o contrário, que a felicidade é fundamentalmente ter o que buscar. E ter o que buscar é, em princípio, se dar conta daquilo que não temos. Eu estava feliz com esse meu postulado, pois ele elucidava perfeitamente meu estranhamento ao observar o funcionamento do mundo.

Quantas vezes já não vi situações contraditórias de pessoas realizadas e de grandes posses, mas, ainda assim, infelizes. Quantas vezes já não vi pessoas humildes, ou em busca de seus objetivos, animados pelo desafio de conseguir o que desejam. Considerar “o que não está acontecendo” como causa da infelicidade pode parecer lógico, mas me parece uma explicação  reducionista e incompleta.

O problema da conclusão deles é que se trata de um retrato apenas momentâneo. Não projeta as consequências do não-acontecimento no tempo e seu impacto na vida de alguém (considerando uma mente sã, obviamente). E é aí que entra a genialidade do meu postulado, que é o seguinte:

A capacidade de imaginar e desejar aquilo que não temos é justamente um dos combustíveis da felicidade. Saber onde se quer chegar, imaginar como, fazer planos, tudo isso borbulha no espírito de quem se dá conta daquilo que não tem – e claro, deseja alcançá-lo (a teoria é mesmo linda).

Em última medida, quando penso nesse meu postulado e o relaciono com o que dizem os pesquisadores, minhas conclusões são as seguintes, nessa ordem:

  • A infelicidade é o ponto de partida e mesmo parte da felicidade – e não o seu oposto;
  • A felicidade é um desejo, uma miragem, uma imaginação, um sonho, uma projeção;

Só que aí vem a vírgula, o porém que mata:

  • Nenhuma realização é tão bela quanto um sonho, tão perfeita quanto o desejo, tão linda quanto a miragem, tão ideal quanto a esperança;
  • Sempre, invariavelmente, haverá algum descontentamento na passagem entre o imaginário e o concreto.

Talvez esse choque entre o real e o imaginado, isso sim, seja a causa da infelicidade.

 

(Post em evolução, que é uma sequência deste).

 

Camila Teixeira

Etiquetado , , , , , , , , ,

De onde vem sua alegria

Depois de um dos posts abaixo, uma amiga querida insistiu na importância do otimismo. Ironicamente, tinha acabado de escrever um texto sobre as vantagens do pessimismo, que devo publicar aqui em breve, se tudo der certo.

Desde então, a palavra otimismo não saiu da minha cabeça. Pensei em suas causas, natureza e condições. Pensei em sua ligação com a felicidade. Será que só os otimistas são felizes? Será que os realistas são todos blasés? Será que os pessimistas são infelizes? Será tudo tão categórico assim?

Parto do princípio de que ser otimista é ter uma chama interna acesa, intensa o suficiente para que não se apague com as tempestades e ventanias da vida. Precisa de uma forte dose de coragem para achar que, mesmo depois de tantas moléstias, tudo vai ser melhor. Precisa ter uma predisposição que permita, a todo instante, minimizar as dificuldades e redimensionar os pequenos acertos. Demanda uma crença de que tudo que ocorre no mundo é da melhor maneira possível. Ou então que todos os problemas encontrarão uma solução positiva. Pode ser simplesmente fazer vistas grossas ao mundo. Pelo menos uma dessas alternativas.

Não acho que o otimismo seja uma condição para a felicidade. Não acho que o pessimismo seja a causa da infelicidade. O que o otimismo e o pessimismo têm em comum, no meu entender, é o fato de não serem sentimentos e sim formas de analisar e esperar os acontecimentos. O nosso estado de espírito, uma terceira coisa, depende ainda de outras variáveis para ser alegre ou triste, radiante ou apático. Atualmente, tenho a impressão de que a felicidade está mais ligada ao grau de realização pessoal do que à leitura que se faz do momento que vivemos.

Um pessimista e um realista podem ter tantas alegrias quanto um otimista, desde que (isso vale para os três) saibam onde encontrá-las.

(Post em evolução)

 

Camila Teixeira

Etiquetado , , , , , , , ,