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Dansei

Quandi li A Metamorfose, fiquei pensando se um dia atravessaria alguma transformação radical a ponto de não perceber o processo de mudança. Apenas acordaria um dia, me olharia no espelho e BÚ. Porque as transformações radicais são justamente essas que a gente nem percebe que está atravessando. São as mais perigosas também. Num dia, você acha que está tudo sob controle e, no dia seguinte, está escrevendo dansa ao invés de dança. Tsc, tsc, tsc.

Nesse tipo de transformação, você não tem como se defender. Você apenas muda – contra sua vontade, a favor de algo, uma incógnita, uma corrente, um X que você não sabe ao certo o que é. E isso é muito grave e preocupante. Se você é capaz de escrever em público dansa sem se dar conta do erro é sinal de que algo muito profundo está borbulhando nos confins do teu eu. E eu não gosto que nada borbulhe nos meus confins sem minha autorização expressa, se é que estou sendo clara.

A dansa me fez cair na real. De nada adianta ter corretor ortográfico se você não usa a ferramenta.

A gente nunca sabe o suficiente, é bom lembrar. Ainda mais durante uma metamorfose.

Acho que todo mundo sabe disso. Mas enfim, nunca se sabe.

 

Camila Teixeira

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Autoderrota moral

Eu andava bem faceira nos últimos dias, orgulhosa dos triunfos culinários que consegui emplacar. (E quem conhece o vazio-universal-gastronômico no qual meus conhecimentos se enquadravam até pouco tempo atrás, sabe do que estou falando).

Depois de uma torta de morango memorável, meu mais recente golaço foi a quiche de legumes. Tanto que resolvi repetir e incrementar. Dessa vez, era de brócolis, alho poró e cenoura. Fiz tudo com o maior cuidado da vida. Capricho para cortar, esmero para temperar. Tudo milimetricamente pensado. Recheio pronto, massa na forma, creme por cima, coberto com o mais delicioso emmental ralado. Tudo ok. É só colocar no forno, esperar 25 minutos e o jantar está na mesa.

Até que:

Dê início à câmera lenta.

A forma da quiche estava em cima da mesa, que fica logo de frente para o fogão, que, por sua vez, já estava aberto. Peguei a forma. (Slow motion, não esqueça). Virei na direção do forno. Abaixei. Estendi o braço para colocar a quiche lá dentro. Nada mais simples do que isso. Bafo quente soprando na cara. Por um centímetro de engano, consigo empurrar a forma contra a grelha (e não sobre ela). Com esse choque frontal, a forma entorna com tudo o que tem lá dentro. Creme+legumes+queijo ralado caem forno quente adentro.

NNNNNOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO.

 

 

Sim.

Nessa operação, não somente perdi o jantar, como ganhei uma noite de limpeza extra.

 

***

 

Deve haver algum significado filosófico para a quiche que entorna crua dentro do fogão quente. Estou buscando uma explicação existencial para essa minha autoderrota moral. Jamais vou me recuperar.

 

Camila Teixeira

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