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Você já forjou um Cof para chamar atenção dos outros?

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O poder do Cof

Durante os últimos dias, ficou clara para mim a polivalência do termo Cof. Digo isso com grande seriedade, pois a utilização recorrente desse termo me levou a minutos de profunda reflexão sobre o significado das coisas. Embora eu seja uma fã absoluta das hipérboles – e jamais outra figura de linguagem a destronará de meus costumes linguísticos – pouquíssimas onomatopeias conseguem produzir o mesmo efeito de um poderoso Cof.

Um Cof pode assumir diversos significados, além do próprio cof. Ou seja, é um termo que vai muito além de si mesmo e alcança dimensões improváveis. Sua flexibilidade de emprego, seu caráter multifuncional são exemplos inspiradores para qualquer ser-humano que esteja em busca do próprio eu para, em seguida, superá-lo. É justamente esse perfil versátil que coloca o Cof em posição de destaque entre os numerosos recursos da fala e da escrita coloquial, além, é claro, da convivência em sociedade.

Acompanhe alguns exemplos do emprego do Cof.

Cof – espantar pessoas desagradáveis: você está numa roda de amigos. De repente, chega alguém de quem você não gosta muito. Para espantá-lo, você teatraliza uma cena em que é acometido por uma séria crise de tosse. E você tosse, e tosse, se possível, próximo a essa pessoa. Se o cof for acompanhado de caretas e olhos esbugalhados, seu efeito será potencializado. A pessoa certamente se afastará, nem que seja por causa da sua esquisitice.

Cof – sic às avessas: essa expressão foi cunhada por um amigo, num salutar instante de brilhantismo – que não tive (estranho). O fato é que esse cof tem o poder de desconfirmar (sic) uma afirmação, algo também conhecido como ironia. Por exemplo, eu digo: incrível como sou maravilhosa. Se deixo a frase como está, ela vai parecer verdade (cof). Porém, se coloco o cof em seguida, assim: incrível como sou maravilhosa (cof), vai ficar evidente que se trata do contrário do que eu disse. Entendeu?

Cof – estou doentinha, preciso de atenção: esse é um dos que menos aprecio. O Cof, no esplendor de sua versatilidade, também pode ser usado para o mal. Uma pessoa sem escrúpulos, manipuladora, pode muito bem recorrer ao Cof para obter algo que, em situação normal, não obteria. É uma poderosa ferramenta para quem quer se fazer de vítima. A pessoa vai lá e faz cof, cof, bem fraquinho, ao lado do namorado que não quer muito papo. Daí, o namorado olha, e a pessoa faz uma cara de piedade, levantando a sobrancelha. Se o rapaz não for muito esperto, ele cai na arapuca. Felizmente, os gatos (ou gatas), não tão pingados assim, andam bem escaldados. Poucos são os que caem nessa armadilha do arco da velha.

Cof – estou doente / não se aproxime: por outro lado, o Cof pode ser um verdadeiro sinal de perigo. Isso vale para os casos de doenças. Se não quisermos ser infectados por uma horrorosa gripe, o cof é um excelente sinal de alerta. Ao mesmo tempo, caso a pessoa esteja em busca de algum tipo de moléstia (= desculpa para faltar no trabalho), o Cof é um excelente sinal de aproxime-se.

Cof – não fume: se há um uso realmente profícuo do Cof, é este. Fazer um cof num restaurante, por exemplo, ao lado de um fumante, numa área de não-fumantes, pode ser a maneira mais delicada de alertá-lo sobre a divisão dos espaços no mundo. Caso o fumante faça vistas grossas sobre seu pedido, você pode perfeitamente apelar e teatralizar uma crise asmática das brabas bem ao seu lado. Funcionará.

Cof – mentira: enquanto no sic às avessas você usa o Cof para desconfirmar sua própria informação, nesse caso, ele é utilizado para desconfirmar a informação alheia. Trata-se de um recurso bastante utilizado em novelas, pouco afável, porém, na vida real – a menos que os atritos dos interlocutores em questão sejam evidentes e o cof seja apenas mais uma de suas indelicadezas.

Camila Teixeira

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