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Méritos

Faz tempo que quero comentar um negócio muito importante. Reservei um tempo especial só para falar disso. E esse negócio é uma pergunta existencial, que é a seguinte: como as francesas fazem para cultivar um cabelo extremamente charmosamente  muito bagunçado? Sério.

Há meses venho reparando nesse fenômeno curioso e completamente incompreensível. Cada vez que entro no tramway às 7h30 da manhã, aparece uma francesa do meu lado com um coque gigante e desajeitado em cima da cabeça, cheio de fios desgovernados caídos pelo rosto, com um ar de oi, acabei de acordar, e ainda assim, um penteado incrivelmente irresistível e de dar inveja em qualquer monja.

Esses franceses são cercados de lendas. O french kiss, a petite mort, a magreza numa gastronomia cheia de manteiga, o não tomar banho, a baguete e a boina, o romance em Paris, Paris apenas, e agora mais esse que instauro, o mistério do cabelo espatifado altamente charmoso.

Se eu me aventuro a reproduzir a moda, o resultado seria desastroso, já sei por antecipação. Nem uma versão mais radical do Bob Marley ia querer algo do tipo.

Ainda falta muito para que eu alcance o mérito do penteado francês.

Camila Teixeira

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Corte

Chega uma hora em que seu corte de cabelo passa a ser incompatível com seu modo de vida. Aceite.

Quando cruzo a Ipiranga com a São João, meu cabelo é realmente um filhote de leão raio da manhã, e nesse momento eu sei bem o que acontece com o meu coração. Caetano é dos meus. Se bem que o cabelo dele agora tá bem mais comportado. É disso que estou falando.

Durante boa parte da minha vida, fui feliz com minha juba. Ainda mais depois que descobri os nomes que se pode dar às ondulações capilares que enfeitam minha cabeça: inglesas, curvas de boticelli, ondas. Inveje. Pouco importa em qual classificação eu entro, o que conta é que eu faço parte desse time de lindos nomes para a cabeleira – mesmo se a categoria na qual eu me enquadro com mais frequência é a do bad hair day, pra ficar numa expressão de TPM cabelística, ou então, pra colocar a culpa nas fases da lua.

Não sei que força a gente acha que o cabelo tem pra querer conservá-lo tão longo por tanto tempo. Quando você observa, a única força que ele tem é de roubar nosso tempo no banho, nosso dinheiro no cabeleireiro, nossa dignidade na foto. E vai esconder do universo aquele retrato do penteado new wave cultivado com todo carinho, nos anos 80.

Cortar o cabelo é o fim de uma época, um adeus permanente, é suicidar a história, um luto por vontade própria. É também acabar com aquele rastro de existência pelo chão da sala.

Porque é o desapego do desapego do desapego.

 

Camila Teixeira

 

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