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Vazio

Poucas coisas podem ser mais tristes do que perder a pelúcia preferida do seu bebê no meio da multidão.

 

Camila Teixeira

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Verdades

Passou esse comercial na televisão:

 

O tigre olha para a Natalie Portman, aponta para ela e diz: ma-ma, ma-ma.

Verdade. Pareço muito.

 

Nada melhor para o ego do que os olhos do seu filho.

 

Camila Teixeira

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Caligrafia

Quando eu estava na pré-escola, meu caderninho de caligrafia era algo sagrado. Lembro com perfeição do meu esmero em cobrir os pontilhados, a demora para preencher a folha inteira de aaaaaa em letra de mão. Era um exercício quase espiritual. Desenhava ainda pequenas flores, usava canetinhas coloridas, colava adesivos. Tudo isso no intuito de receber uma boa nota. E ela vinha: Muito Bem!, escrevia a tia Elisa.

Daí eu fui para o primário. A tarefa mudava, mas meu empenho era o mesmo. Meu trabalho era tão bom que a professora, a tia Ruth, pedia para que eu ajudasse meus coleguinhas em dificuldade. Eu achava fofo e tinha orgulho de poder ajudar. Depois, vieram o colégio, a faculdade, a vida profissional.

O que quer que eu fizesse, era como se eu estivesse preenchendo meu caderninho. Eu me dedicava, entendia e avançava. Completava uma página, passava para outra. Sempre funcionou assim, uma lógica que se repetiu minha vida inteira.

Daí vêm os bebês e, numa brincadeira, dão um rabiscão bem dado no caderninho de caligrafia que você cultivou durante anos, derrubam um pote gigante de guache em cima dele, picotam folha por folha do que você levou décadas para aprender, e ainda jogam seu caderninho pelo ar, como quem se desfaz de um bilhete antigo.

E não sobra mais nada. Só começar de novo.

 

 

Camila Teixeira

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Elementar

Você tem certeza de que seu bebê entendeu o conceito de quente quando, de repente, ele começa a soprar o aquecedor da sala.

Lógico.

 

 

Camila Teixeira

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Além

Quando eu vejo o tigre usar – feliz – um alho-poró como se fosse uma vassourinha, ou um pregador de varal como prendedor de cabelo, me dou conta de como adultos são quadrados e enquadrados.

Camila Teixeira

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TOC de gaveta

Há algumas semanas, o tigre desenvolveu uma mania de arrumação de dar inveja a sua tia que tem TOC de organização. É vassoura, paninho, pá, pregador. Atualmente, duas buchas, uma bacia e um pano de chão estão entre seus brinquedinhos campeões. O problema é que a arrumação de um tigre não é exatamente a mesma de um humano adulto. E cada vez que ele resolve arrumar algo, fico de cabelo em pé.

Atualmente, o tigre tem como alvo preferido as gavetas. Dizem que o estado de arrumação da gaveta de uma pessoa é equivalente ao estado de ordem em sua vida. Não é difícil concluir, portanto, que o atual estado de arrumação da minha querida vida é nulo, visto o rebu dos meus pertences. Já desisti de tentar ordenar minhas peças após as incursões do tigre pelo meu quarto. No início, até que, vai, coragem, dobrava uma por uma antes de colocá-las de volta na gaveta. Porém, contra minha vontade, fui obrigada a colocar um fim nessa repetição absurda. De nada adianta arrumar bonitinho se, 20 minutos depois, minhas peças estarão novamente espalhadas pelo corredor.

Mas lá onde dói, onde pega na alma, é que o tigre tem uma obsessão. Seu alvo preferido é minha gaveta de meias e sutiãs. Em tempos juvenis, não ligaria muito, dado que o tigre era eu. Mas de uns tempos pra cá, enfim, tô velha.
Às vezes, deixo a fera passear sozinha pela casa. Quando ela está muito quietinha, é sinal de que as coisas não vão bem. Quando vou ver, minha dignidade está por todos os cômodos do apartamento.

Sei que devo me satisfazer e até me alegrar com a ideia de que, por enquanto, é apenas a gaveta que está em desordem. É fase. Em breve, vai piorar. É o que dizem.

***

UPDATE: mas daí, enquanto estou verificando meus emails, o tigre vem me trazer meu pijama na sala, me dizendo ma-ma, ma-ma. suspiros infinitos.

Camila Teixeira

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Vidinha doméstica

Cada vez que o tigre sobe no sofá da sala eu quase tenho um ataque cardíaco. Sobe tão rápido, que não dá nem tempo de dizer “não”. De repente, já está lá, triunfante, como quem senta num trono de ouro. Orgulhoso, observa seu reino de brinquedos espalhados por todos os lados. “São todos meus”, deve pensar. Até que escolhe um deles para compartilhar a visão privilegiada que se tem do alto da poltrona. E se joga de cabeça no chão para pegá-lo, como se logo abaixo existisse uma piscina de plumas. Nesse momento, uma outra crise instantânea de nervos tritura o que resta do meu antigo equilíbrio zen. Sou, então, obrigada a me desapegar de quem um dia fui e a me recompor novamente em centésimos de segundo.

Hoje sou domadora de tigre. Que aventura vê-lo escalar o mundo.

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