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Fresh feeling

Eu sei, romantismo não é meu forte e tenho plena consciência de que deveria pensar 297 vezes antes de postar qualquer vírgula que ultrapasse a linha do real e do concreto. Mas como decidi me aventurar mais esse ano (cof, no sofá), digo alto e claro que tenho uma nova teoria.

O amor é como um grande estacionamento. Tem quem estacione na beira do rio, no shopping lotado sábado à tarde, em local proibido, em lugar deserto, na garagem de casa, na vaga do vizinho, em cima da calçada. Em última medida, que não desenvolverei aqui, mas que deixo registrada graças à minha infinita generosidade para fins iluminatórios do mundo, os hábitos de estacionamento de uma pessoa revelam muito sobre seu caráter. Repare.

Voltando a minha teoria amorestacionamentária. É a mais pura verdade. O estado amoroso é um grande estacionamento. A gente escolhe uma vaga e fica. Aprecia aquele espaço como se fosse o universo. Vive e revive, todo dia, dia após dia, assim sucessivamente, repetidamente, cegamente, surdamente, do início até o fim. Até o dia em que a gente resolve sair do carro e vê que a vaga na sombra é melhor.

Não vou entrar nos pormenores interpretativos dessa minha nova teoria, visto que cada um é grande o suficiente para comprovar por experiência própria e com a devida riqueza de detalhes a multiplicidade de combinações teóricas e empíricas que a amorestacionamentária merece e permite em todo seu esplendor.

Revelarei apenas e entretanto a gênese desse brilhante conhecimento especulativo que é por natureza – destaco – alheio a qualquer aplicação prática que venham um dia, por pensamento ou ações, atos ou palavras, imputar a mim.

Estava eu tranquila no meu canto ouvindo minha nova playlist até que fui atropelada por um título que não conhecia, mas pelo qual me apaixonei subitamente. E eu nem sabia que ele fazia parte da playlist. Mas fazia, perceba. O problema é o seguinte. Estava tão  repetidamente, cegamente, surdamente estacionada em El Hombre Lobo, do Eels, particularmente em That look you give that guy, In my dreams, All the beautiful things e Ordinary man, que não tinha ouvidos para nenhuma outra de suas músicas. Grande erro.

Felizmente o amor tem dessas coisas, mesmo o amor de estacionamento. Ao viciar numa paisagem, a gente acaba descobrindo detalhes que nunca tinha visto antes, mesmo olhando todos os dias para ela.

Descobri Fresh Feeling. Lá vai.

Recomendo também a versão original.

Feliz ano novo, aliás.

 

Camila Teixeira

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Ataque do coração

E esses choques que a cidade de São Paulo é capaz de causar na gente.

Em 2009, morei lá durante seis meses. Eu fazia o mesmo trajeto todo santo dia. Uma hora de ônibus para ir, outra para voltar.  E todos os dias, esse mesmo trajeto tinha coisas novas para me mostrar. Como se, enquanto eu dormia, ele acordasse e preparasse alguma surpresinha pra eu ver no dia seguinte. Na época, a noite de São Paulo me deixava recadinhos nos muros, nos postes, nas placas de trânsito: “Mais amor, por favor”. Um pouquinho antes de morar lá, tinha rolado a fase: “o amor é importante, porra”.

Saber que as pessoas que moram em São Paulo não endureceram com a dureza da cidade me comove.

Hoje, a surpresinha foi essa.

Via.

 

Esses paulistas.

 

Camila Teixeira

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O amor morre

Eu tenho uma teoria sobre o amor. Ou sobre a paixão. Acho que é mais sobre a paixão. É de 2008. Tirando uma coisinha ou outra, um adjetivo aqui, outro ali, acho que ainda é válida. Lá vai.

***

Repare. A gente se apaixona pela diferença que existe no outro. Mas não qualquer diferença. A diferença entre aquilo que o outro é e aquilo que queríamos ter sido e não somos. Aquilo que queríamos ter tido e não temos.

Apaixonar-se é um exercício de subtração. A equação será sempre, fatalmente, exata. A pessoa por quem nos apaixonamos (menos) aquilo que realmente somos é exatamente (igual) aquilo que sempre gostaríamos de ter sido. Simples assim, eu já reparei. A gente nunca se apaixona por uma pessoa, mas por aquilo que ela conseguiu fazer ou ser e a gente não.

A paixão não passa, portanto, de um apego louco por aquilo que um dia imaginamos ser. É um auto-amor invejoso. Um sentimento de posse por um desejo não realizado, perdido no tempo, quase esquecido. E que, de repente, a gente reencontra concretizado na vida de outra pessoa. A gente vê um pedaço de nós cintilando na vida do outro. E se o outro tem o que eu sempre quis, eu quero essa pessoa para mim.

E a gente passa a viver juntos. Fazer coisas juntos. Dorme, come, arrisca. A gente se adapta, a gente se enquadra, a gente cede, a gente pede. Nesse modelo de sentimento vampiresco, um suga o outro, posto que na equação da paixão tudo é recíproco.

O tempo passa, a gente se acostuma. Aquilo que era uma diferença passa a não ser mais. As diferenças foram compensadas até que se chega ao estado letal da equação. Você menos eu é igual a zero. Eu não me vejo mais em você, você não se vê mais em mim. O que eu gostava em você eu já tenho. O que você gostava em mim, já tem, graças ao nós dois.

Este é o primeiro sintoma da morte. A paixão morre no equilíbrio.

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Camila Teixeira

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A função do gostar

Eu sempre penso se o que gosto sou eu que gosto de verdade. Ou se é o gosto de outra pessoa. Se você chegou aqui achando que o que gosta é gosto seu, sinto informar que nada ou pouco do que gosta você gosta porque simplesmente gosta. Porque o gostar, repare, é um ato de integração social. Poucas coisas podem ser tão maquiavelicamente manipuladas quanto o ato de gostar.

Complicado? Nada, boba. Funciona assim. Você gosta de um cara. Ele gosta de pudim de chá de boldo e de passar o domingo vendo pegadinha na televisão. Hm. Apesar disso, você gosta do sujeito. O que você faz? Um esforço descomunal para fingir que se interessa pelo hobby dele. E daí, cria-se a empatia, a semelhança, a proximidade, requisitos básicos para iniciar a relação amorosa que você deseja.

Ou então, meu amigo. Você está numa entrevista de emprego. Você precisa desesperadamente desse emprego. A empresa fabrica armas nucleares. Você odeia armas nucleares, mas precisa pagar suas contas ou morre porque tem um agiota bandido atrás de você. O que você faz? Diz que é fã do Rambo, do Comandos em Ação e que passou sua infância inteira jogando batalha naval.

É assim. A gente gosta porque o outro gosta, por conveniência, para parecer, por integração, porque precisa, por interesse, por vingança, por influência, para provocar, para disfarçar, por obrigação, para agradar, para impressionar, por costume, para não se sentir só.

Quanto do gostar é realmente puro, é realmente amor?

 

***

 

PS: Gostou do meu texto?

 

Camila Teixeira

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