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Kanagawa, quem sabe

Fico pensando onde deve ter ido parar meu senso crítico. Faz tempo que não o vejo, faz tempo que não vem tomar um café comigo, faz tempo que não vem colocar minhocas na minha cabeça. Por certo, tirou férias e resolveu ficar por lá, um lugar mais interessante do que aqui – suponho -, sem mandar nem um cartão postal. “Estou aqui e aviso que essa é a última vez que me lembrarei de você. Não sinta minha falta, pois o inverso não ocorrerá. Adeus para sempre, adeus”, ele escreveria, certamente. Deve ter encontrado terra fértil para plantar suas teorias sem pé nem cabeça em terras em que tudo dá, inclusive abobrinhas, sua especialidade. Sorte dele.

Enquanto isso, fico aqui, cabeça dura, com saudades de sua animação, de quando era meu amigo, meu companheiro fiel de toda hora, que me embarcava em suas ondas, em seu vai e vem, em seus altos e baixos, em suas urgências e agoras, em suas nuances que me permitiam distinguir cinza claro e cinza escuro, ou então misturar sem culpa diferentes tons de rosa – mesmo o rosa sendo a última das cores na minha escala de preferências. Enquanto isso, fico aqui, desenterrando minhocas, reorganizando cores, arrumando postais, cozinhando abobrinhas e observando de longe o movimento dos tsunamis.

 

Camila Teixeira

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Achados

Levar uma vida cigana é, ao mesmo tempo, estimulante e difícil. No primeiro caso, porque há um universo a descobrir. No segundo caso porque, também, há um universo inteiro, infinito a descobrir. Tudo depende da perspectiva que se adota. Por alguma razão que desconheço, tenho uma forte tendência a adotar a perspectiva pessimista em qualquer situação. O que me faz dizer que garimpar um universo não é tarefa fácil. Até criar um hábito, encontrar duas ou três preferências, leva-se uma vida. É um período de relativo sofrimento.

Enfim. Por sorte, caí num universo não muito infinito, grande suficiente para que eu possa desbravá-lo, em sua essência, a pé. Pois foi o que fiz dia desses. Botei o tigre em sua viatura e fui me misturar com o que existe nas redondezas. Engraçado. As coisas estavam em seu devidos lugares e eu, curiosamente, fora deles. Eram os lugares de um lado e eu do outro, numa estranheza que só sente quem ainda não identifica o que vê.

Até que. Até que. Lá longe observo. Bela e cintilante. Com uma vitrine recheada. De pães. De todos os tipos. De pâtisserie. De todos os tipos. Baguetes, croissants, chocolatines, quentinhos e perfumados. Doces finos, harmônicos e deliciosos. Ah, a padaria. Desde que cheguei, passei por algumas outras que (é duro dizer) me decepcionaram. Pães duros, cascudos, ressecados. Estava até meio jururu por não ter encontrado uma padaria para chamar de minha, mesmo após duas semanas instalada. Mas, inchalá, muito ôro, achei. Achei uma preferência. Por delicadeza, evitei fazer xixi em sua porta de entrada, no poste, na roda dos carros estacionados na frente da minha nova boulangerie.

Saí de lá com três baguetes na mão, como quem carrega um nobel da paz. Olhei ao redor, para o horizonte. Havia algo de mágico naquela descoberta. Estrelinhas douradas caiam sobre mim, o tigre e as baguetes. De posse do meu novo troféu, num lapso de segundo, me vi desfilando no alto de um caminhão de bombeiros pelo centro da cidade, sendo calorosamente saudada pela população. (Tá, parei).

A verdade é que uma tarde linda terminava diante de um parque arborizado. Raios de sol atravessavam as nuvens, criando uma luminosidade suave de fim de dia. O mundo já não era mais tão estranho assim.

Camila Teixeira

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