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Saudadinha

Da proa de um barco imenso, aceno com meu lencinho branco para uma multidão que faz o mesmo gesto que eu, em minha direção. Amo vocês, eu grito. A multidão não diz nada, é como se eu não estivesse ali. E é verdade, eu raramente estive, um dia ou outro apenas, somente quando o relógio não escandalizava em meus ouvidos olha a hora, olha a hora. Minha declaração fica no vácuo, sem eco, desliza até o espaço na esperança de ser ouvida por alguma forma aleatória de vida, quem sabe. Todos aqueles tchauzinhos de miss com o movimento delicado das mãos não são para mim, mas para o barco que vai. Menos mal, penso eu, ao menos não fiz ninguém sofrer. Não choro, todos sorriem e algumas lágrimas ficam esperando escondidas uma piada a mais para cair sem querer.

Daí eu vou na minha viagem, o barco fica cada vez menor, a multidão desaparece no porto, eu mudo minha vista de direção e vejo o sol que se põe do outro lado e deixa meu rosto meio alaranjado e morno; o clima úmido não poupa meu cabelo já melado e levemente coberto de sal. Por um instante quase imperceptível, seria capaz de apostar que um grãozinho de feijão tenta brotar sua primeira folhinha verde lá no fundo do peito. Vejo algumas arraias seguir meu rastro por baixo das ondas e sou surpreendida pelo voo repentino de uma delas. Meus pensamentos brincam de estátua e resistem com certo heroísmo infantil à ventania que sopra por trás da minha cabeça. Meus ouvidos, menos resistentes, porém, sucumbem às flechadas do vento e sentem uma pequena otite nascer.

Fico mareada com o sobe e desce, lembro subitamente que prefiro sentir o barro atravessar os dedos do meus pés, a areia entrar debaixo da minha unha mal aparada, a concha virada para cima machucar a sola do meu pé, e aguardo ansiosamente a próxima ilha na qual atracarei. Ficarei de pé na orla, com o corpo imóvel, mas com olhos de radar e encontrarei com urgência um galho de árvore com o qual escreverei um universo na areia, antes que a próxima onda o apague. Mergulharei na água transparente, nadarei com os peixes minúsculos, finos e prateados, e flutuarei entre as bolhas e espumas até a chegada da próxima ressaca.

Camila Teixeira

Considerações sobre a estupidez

“In order to move on, you must understand why you felt what you did and why you no longer need to feel it.”

Mitch Albom, Five People You Meet in Heaven

Há algum tempo, venho me interessando por esse fenômeno curioso que é a estupidez. A razão é simples: embora eu deseje do fundo da alma acreditar na lucidez e na bondade humana, e mais, quando eu consigo ter um vislumbre concreto dessas propriedades, vem o ser-humano, o próprio, e estraga tudo. Em situações mais graves, chego inclusive a me espantar quando percebo que o homem é capaz de algum tipo de amor e altruísmo sinceros.

Ao mesmo tempo, tenho plena consciência de que essa tarefa que me deleguei, a de compreender a estupidez, é ingrata, pois, já reparei, a estupidez é imprevisível. Ela surge onde menos se espera e brota no ser-humano como um herpes comportamental repentino e gigantesco. Mesmo assim, tento me convencer de que existem meios de apreendê-la.

Minha teoria sobre a estupidez é composta por três partes.

1. Causa

Estar vivo e ser humano.

2. Condições que favorecem sua ocorrência

O estresse. Assim como ocorre no herpes comum, a estupidez tem grandes chances de se produzir após uma forte descarga de estresse. Portanto, se você perceber que alguma pessoa está estressada em níveis alarmantes pode ter certeza de que dali nascerá uma estupidez.

A onipotência e a ignorância. Pessoas que acreditam possuir um poder superior, ou ainda os que ignoram por completo as regras de convivência social são mais propensas à estupidez.

3. Características e profilaxia

A. Im/Previsibilidade.

Ter em mente que a estupidez é imprevisível já seria uma forma de proteção contra seus golpes malignos. Quando a estupidez imprevisível chutar, já teremos o espírito preparado para amortecer, pelo menos, seu impacto. Outra forma de se preservar é, obviamente, esperar a estupidez dos estúpidos costumeiros.

De qualquer maneira, não dá para ficar muito feliz. Mesmo se conseguirmos nos defender do impacto, dificilmente conseguiremos nos proteger da sensação natural e corrosiva que geralmente sobe pela nossa espinha, diante de uma situação estúpida. Para conter essa sensação, só praticando a respiração diafragmática durante milênios.

B. Prazer e culpa.

A estupidez pode acarretar dois tipos de sensação ao estúpido. Se for um estúpido consciente do seu ato, é provável que a sensação resultante seja o prazer, ou até mesmo o orgulho. Já o estúpido por acidente possivelmente sentirá alguma forma de culpa.

C. As leis.

As leis deveriam nos proteger das formas mais graves de estupidez. Só que elas têm quatro problemas:

  • o estúpido não está nem aí para elas.
  • para o verdadeiro estúpido, as leis representam uma força que chega com lentidão após o ato estúpido, o que reforça o postulado acima. Isso se os envolvidos no caso, na tentativa de enquadrar o estúpido, também não forem estúpidos ao ponto de passar por cima, eles também, das leis que nos protegem (cof).
  • as leis são incompreensíveis em seu enunciado e talvez por isso ninguém as entenda/respeite. Temos aqui, ora, um excelente nicho que poderia, enfim, ser adotado como causa nobre pela publicidade. Se as leis fossem redigidas por publicitários, quem sabe até por jornalistas ou professores do primário, talvez pudéssemos esperar argumentos mais esclarecedores ou persuasivos e, portanto, apostar na decadência da estupidez, hoje, infelizmente, em alta.
  • a única lei que parece combinar com a lógica da estupidez (mas que não a justifica) é a lei da sobrevivência.

De qualquer maneira, parece que ainda não existe um aciclovir contra esse tipo de herpes. (Ora, veja, temos aqui um outro ramo que poderia render rios de dinheiro à indústria farmacêutica). Portanto, a única coisa que se pode tentar contra a estupidez é a distância. No mais, cuidar para que a corrosão que nos sobe pela espinha não se torne uma fonte inesgotável de estresse de forma a nos transformar em mais um herpes ambulante.

 

Camila Teixeira

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Atrasado, mas de coração

Eu já estava me sentindo complentamente #fail no Valentine’s Day, que aqui na França se chama Saint Valentin. Para quem não sabe (oi?), é o dia dos namorados.

Meu sentimento de fracasso não vinha da falta de procura. Vinha da falta de achar algo que me inspirasse. Até que.

Estou atravessando uma fase hard de DIY (do it yourself, faça você mesmo). Estou feito uma maluca atrás de projetinhos que sejam, ao mesmo tempo:

  • fáceis
  • práticos
  • personalizados
  • baratos
  • fofos

Nessas, topei com uma ideia genial. É um super tutorial para fazer fotos lindas de morrer de amor. Fiz as minhas hoje. Então, lá vão:

Fotinhas apaixonadas para o dia dos namorados. Atrasado, mas é de coração.

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Crédito total a Globerotter Diaries.

 

Camila Teixeira

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Antropologia do frio – II

Por outro lado, a gente vê coisas assim.

 

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Camila Teixeira

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Indico

Blog moito interessante, muitas coisas em inglês, grande parte traduzida para o português, sobre vários tipos de arte: fotos, exposições, livros, animais, natureza. Dá pra passar uma tarde inteira nele, fácil, em contato com ideias de além-mar. Recomendo.

 

Camila Teixeira

 

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FAQ

Para quem ainda tem dúvidas, aqui vai uma excelente explicação sobre o que é o amor.

 

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Presentinhos

Eu adoro receber presentinhos virtuais. No último final de semana, recebi dois de um amigo (o mesmo que menciono no post O Poder do Cof). Ele me mandou dois links de vídeos que eu não conhecia. O primeiro é essa versão de Ruby, do Kaiser Chief com The Ukulele Orchestra. Forte potencial para dar um grau em noites e dias já animados.

O segundo foi uma paixonite aguda. Eu não conhecia Deolinda, um grupo de música tradicional portuguesa.Tem que ver o vídeo acompanhando a letra, da qual selecionei o trecho abaixo. Totalmente Só na sua Cabeça. Vê.

Anda, faz uma pausa,
encosta o carro,
sai da corrida,
larga essa guerra,
que a tua meta,
está deste lado,
da tua vida.

Muda de nível,
sai do estado invisível,
põe o modo compatível,
com a minha condição,
que a tua vida,
é real e repetida,
dá-te mais que o impossível,
se me deres a tua mão.

 

 

Num é?

Adoros essas coisas sensacionais.

 

Camila Teixeira

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Em obra

A vida é excepcional. É o lugar onde tentamos construir sonhos.

Eu gosto dessa frase do jeitinho que ela é. E ela é do Rodrigo de Souza Leão, um escritor carioca que morreu em 2009, aos 44 anos.  Aos 23, foi internado pela primeira vez numa clínica com o diagnóstico de esquizofrênico.

Uma vez (faz tempo), li na Gazeta Mercantil uma matéria que falava justamente sobre a proximidade psicológica entre os loucos/conturbados e os gênios. (…) Eu só lamento que RSL tenha sofrido tanto para controlar o gênio que tinha.

A citação acima tirei de uma entrevista que ele deu ao Portal Literal. Um perfil completo sobre ele está disponível no blog do Ronaldo Bressane.

 

Camila Teixeira

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Flagra

Folhas foram vistas sentadas num banco, descansando calmamente, após um verão intenso de trabalho.

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Camila Teixeira

Sistema nervoso

Por motivos totalmente desinteressantes, andei fazendo uma breve pesquisa sobre o cérebro. Não pude deixar de rir quando li numa das definições a expressão sistema nervoso simpático. O termo me fez cócegas na alma e pareceu uma excelente piada, já que, no meu caso, meus nervos não andam nada, nada simpáticos. Ao contrário, no que se refere a mim, o correto seria dizer sistema nervoso totalmente antipático. Faz tempo que não tenho contato com esse tal sistema simpático, ou, pior, supersimpático.
Por isso, a primeira categoria que criei foi a do posto abaixo, para marcar meus momentos de mau humor (aliás, nos últimos tempos, uns 363 dias do ano).

Camila Teixeira

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