Arquivo da categoria: Sistema nervoso antipático

A fina flor da ironia

É engraçado como um monte de respostas a pensamentos e impressões tem cruzado meu caminho nos últimos dias. É como se cada resposta tivesse seguido um caminho diferente da rosa dos ventos em direção ao centro, que, óbvio, sou eu. O problema é que chegou todo mundo ao mesmo tempo e está rolando um congestionamento cruzado e sério de luzes no fim do túnel. O caos, portanto. Até eu conseguir identificar quem é quem vai demorar um pouco, porque, entenda, estou ofuscada. E olha que eu passei naquele teste psicodélico, ops, psicotécnico, de enxergar a forma depois do flash de luz. Esses testes não atestam nada, a verdade é essa.

Até eu conseguir digerir todas essas explicações para as dúvidas que colecionei e listei aqui no blog, em posts publicados ou não, vai levar um tempo. Vou tentar, prometo.

Adianto apenas que depois que li esse artigo, não tenho mais vontade de fazer piada, nem de ser irônica (vai passar). Vai passar porque não sei ser de outro jeito além da ironia, pois a ironia é a estrutura do meu pensamento, é minha melhor amiga. Não, mentira, é a Andréa. Não, a Priscila. Não, a Luciana. Não, a Tatiana. Não, a Fabíola. Não, a Graziela. Não, a Sabrina. Não, a Fabiana. Não, a Paula. Não, a Time. E não estou sendo irônica. Depois que li aquele artigo, fico me policiando para não ser irônica, a ironia sendo um tipo de estupidez. E não gosto de tipos estúpidos, como já falei uma vez. E fico feliz pelo fato da autora ter se referido apenas à ironia, e não ao deboche e ao sarcasmo, porque aí sim, eu ficaria chateada.

rosa

A rosa. Para onde ir, de onde partir. O como chegar fica por conta das ironias da vida.

Repare no que ela diz:

O que significaria vencer o empuxo cultural da ironia? Afastar-se do irônico representa dizer o que se pensa, pensar o que se diz e considerar a seriedade e a declaração direta como possibilidades expressivas, apesar dos riscos inerentes. Significa assumir o cultivo da sinceridade, da humildade e do autoapagamento, rebaixando o frívolo e o kitsch em nossa escala coletiva de valores. E pode incluir também fazer um inventário honesto de si próprio.

É o que faço aqui. O único problema é que não é possível deixar a ironia de lado, posto que a vida, no seu sentido mais amplo, é a primeira irônica do universo. Quando a gente acha que uma coisa é o que é, vem a life e mostra que não é. Como não aprender com os ensinamentos da vida? E não estou sendo irônica. Feliz ou infelizmente, a ironia é um dos métodos pedagógicos mais utilizados pela Grande Mãe. É o meio pelo qual boa parte dos acontecimentos se concretizam. E não estou falando da forma como os narramos, mas como esses eventos acontecem de fato.

A ironia é uma forma muito clara de se dizer algo, de entender algo, de dar um recado. Talvez não seja a mais amorosa, a mais carinhosa, a mais cuidadosa. (Pausa para pensar). De fato, é uma pena que a vida não seja mais carinhosa em seus ensinamentos. Nem nós, na maneira de agir.

Se a gente já soubesse desde o início para onde ir e como chegar lá, tudo bem. O problema é que a gente cai nessa selva sem trilha e tem que descobrir que caminho seguir – ou por intuição ou por ironia da vida. Dá para entender. Diante da ameaça, o bicho usa as armas que tem (a ironia?) e avança. Mas qual é a ameaça, mesmo?

Felizmente, vez ou outra – e na maior parte dos casos, acidentalmente – a gente encontra uma clareira, um engarrafamento cruzado de luzes no fim do túnel. A gente encontra a luz, mas não sabe identificar qual das luzes é a boa, nem sabe direito para que serve ou como usar. Não é irônico isso?

 

 

Camila Teixeira

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Da utilidade do inútil

Às vezes, fico pensando se o inútil tem alguma utilidade, ao contrário do que supomos. Sim, pois essas pegadinhas do mundo, de fazer a gente acreditar em algo que não é totalmente verdade, acontecem com mais frequência do que imaginamos. Tem que ficar esperto para não virar piada no programa do Sílvio Santos. Oêêêêê.

No caso do inútil, por exemplo, embora eu tenha tentado identificar utilidades que pudessem ser atribuídas a ele e, portanto, capazes de contestar seu estado natural de inútil, não cheguei a encontrar uma profusão de evidências. O que significa que o inútil é, em 80% dos casos, de fato inútil. É uma taxa elevada. Imagina que no tempo da inflação, essa porcentagem fazia que um produto comprado num dia com um valor X não pudesse mais ser comprado com o mesmo valor no dia seguinte. Com o inútil é a mesma coisa, só que ao contrário, pois se algo é inútil num dia, é muito provável que ele continue sendo inútil também no dia seguinte. A menos que o inútil se dê conta de sua inutilidade e dê um upgrade na vida (por conta própria ou por força exterior). Os outros 20% ficam por conta de quem considera o objeto em questão inútil. Pois pode acontecer de o inútil não ser um inútil universal. Ou seja, o inútil para um pode não ser inútil para o outro. Mas um detalhe. Isso não atesta verdadeiramente a utilidade do inútil, mas apenas que existem necessidades diferentes que fazem com que o inútil possa ter um dia de glória em sua existência.

Mas tem dias em que estou de bom humor. Nesses dias, tenho acesso ao lençol freático da generosidade e consigo alcançar uma interpretação mais amigável dos fatos. Abaixo, listo alguns exemplos de utilidade que arranquei da superfície rude do inútil. Acompanhe.

  • O inútil permite, pela lei dos contrários, que se possa identificar o útil.
  • Permite que a própria inutilidade exista e, com ela, todos os seus derivados ou correlatos, como o vão e vazio, conceitos tão úteis e nobres, por exemplo, da física, da engenharia civil e da matemática.
  • Permite a existência de tarefas nobres, como o resgate dos descartados.
  • Permite que um objeto seja simplesmente algo na vida, mesmo que seja inútil – o que, a rigor, não deixa de ser uma qualidade.
  • Estimula o espírito daquele que é inútil a encontrar um sentido na vida.

Como se vê, a inutilidade não é de toda inútil. Basta um pouco de boa vontade para interpretar os fatos.

E agora que já encontrei alguma iluminação sobre essa questã deveras fundamental, posso seguir em paz esse blog, do qual vinha duvidando há algum tempo.

Camila Teixeira

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Sinais do apocalipse

Meu computador esta agonizando. Essa noticia, para mim, é uma espécie de prenúncio de que o fim do mundo é uma probabilidade muito mais provavel do que provavelmente se supoe.

O que torna meu computador precioso é seu teclado brasileiro em terra estrangeira. E quem tem olho em terra de cego é rei. Til, entao, nem se fala E’ tipo um ser divino. Acento agudo, A direto no dedinho esquerdo, cedilha, ponto final sem precisar apertar shift. Esse conjunto de detalhes faz do meu computador um objeto raro-esmeralda. Nao ouso imaginar o caos caso ele decida evoluir na vida e entrar para a eternidade.

Nao bastasse isso, existe ainda um outro agravante. Expirou hoje a licença do meu dicionário digital. Se fosse so isso, tudo bem. O problema é que tempos atras fui possuida pelo TOC de organizaçao da minha irma (fato que, isoladamente, é otimo). So que, fiel ao costume familiar, arrumei tudo tao bem que nao sei onde guardei o CD de instalacao. E agora não posso renovar minha licença.

Nao posso simplesmente ignorar esse conjunto de sinais apocalipticos e adotar um carpe diem despreocupado. Nao posso simplesmente dizer tudo bem e ir dar um passeio para contribuir com o ciclo da fotossintese. Tem dias que o mundo é grave.

Estou temporariamente orfa do meu computador. O universo nao é o mesmo sem ele.

 

Camila Teixeira

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Depressões e embutidos

O pior tipo de depressão é a depressão gástrica apetitósica. Funciona assim. Com ela, você continua vivendo consciente de todas as delícias do mundo e do formidável prazer que te proporcionariam durante uma interação mundana. Mais: você continua desejando essas delícias. Só que o buraco negro que gira numa velocidade alucinante na altura do seu abdome causa sérios efeitos colaterais nos cinco sentidos que utilizamos para experimentar o mundo. A consequência mais drástica é a ojeriza por algo que, num estágio normal da existência, adotaríamos. Ou seja, na depressão gástrica apetitósica, você evita o que quer, não quer o que deseja. Já na depressão nervosa, tudo é muito mais simples. Você não quer o que não quer. E está tudo bem, não há contradição. E não há nada pior do que não querer algo que se quer (sim, há pior, mas, em nome da coerência do post, aceitemos o fato de que não há nada pior do que não querer o que se quer).

Por outro lado, há uma certa sabedoria embutida na depressão gástrica apetitósica. É uma boa forma de despertar para a consciência de que, em muitos casos, embora não soframos dessa moléstia no cotidiano, seus sintomas parasitam nosso comportamento diário. Evitamos o que queremos.

É, é. É uma pena ter que passar por uma depressão gástrica apetitósica para obter alguma iluminação na vida. A conta da iluminação às vezes é um pouco salgada. Ou dá náuseas. Mas, enfim, passa. Saúde!

Camila Teixeira

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Corte

Chega uma hora em que seu corte de cabelo passa a ser incompatível com seu modo de vida. Aceite.

Quando cruzo a Ipiranga com a São João, meu cabelo é realmente um filhote de leão raio da manhã, e nesse momento eu sei bem o que acontece com o meu coração. Caetano é dos meus. Se bem que o cabelo dele agora tá bem mais comportado. É disso que estou falando.

Durante boa parte da minha vida, fui feliz com minha juba. Ainda mais depois que descobri os nomes que se pode dar às ondulações capilares que enfeitam minha cabeça: inglesas, curvas de boticelli, ondas. Inveje. Pouco importa em qual classificação eu entro, o que conta é que eu faço parte desse time de lindos nomes para a cabeleira – mesmo se a categoria na qual eu me enquadro com mais frequência é a do bad hair day, pra ficar numa expressão de TPM cabelística, ou então, pra colocar a culpa nas fases da lua.

Não sei que força a gente acha que o cabelo tem pra querer conservá-lo tão longo por tanto tempo. Quando você observa, a única força que ele tem é de roubar nosso tempo no banho, nosso dinheiro no cabeleireiro, nossa dignidade na foto. E vai esconder do universo aquele retrato do penteado new wave cultivado com todo carinho, nos anos 80.

Cortar o cabelo é o fim de uma época, um adeus permanente, é suicidar a história, um luto por vontade própria. É também acabar com aquele rastro de existência pelo chão da sala.

Porque é o desapego do desapego do desapego.

 

Camila Teixeira

 

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Dansei

Quandi li A Metamorfose, fiquei pensando se um dia atravessaria alguma transformação radical a ponto de não perceber o processo de mudança. Apenas acordaria um dia, me olharia no espelho e BÚ. Porque as transformações radicais são justamente essas que a gente nem percebe que está atravessando. São as mais perigosas também. Num dia, você acha que está tudo sob controle e, no dia seguinte, está escrevendo dansa ao invés de dança. Tsc, tsc, tsc.

Nesse tipo de transformação, você não tem como se defender. Você apenas muda – contra sua vontade, a favor de algo, uma incógnita, uma corrente, um X que você não sabe ao certo o que é. E isso é muito grave e preocupante. Se você é capaz de escrever em público dansa sem se dar conta do erro é sinal de que algo muito profundo está borbulhando nos confins do teu eu. E eu não gosto que nada borbulhe nos meus confins sem minha autorização expressa, se é que estou sendo clara.

A dansa me fez cair na real. De nada adianta ter corretor ortográfico se você não usa a ferramenta.

A gente nunca sabe o suficiente, é bom lembrar. Ainda mais durante uma metamorfose.

Acho que todo mundo sabe disso. Mas enfim, nunca se sabe.

 

Camila Teixeira

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Epitáfio

Saiu recentemente no Le Monde Diplomatique uma matéria sobre um estudo realizado por pesquisadores de Harvard, que buscou verificar a capacidade de informação que um DNA é capaz de suportar. Os pesquisadores conseguiram armazenar aproximadamente um milhão de gigabits (700 To ou 14 mil blu-rays) por milímetro de DNA. O método: traduzir o código binário da informática em sequências de DNA e implantá-lo nesse último. Sriram Kosuri, um dos pesquisadores da equipe liderada por George Church, afirma: “o total de informações no mundo, que representa aproximadamente 1,8 zettabytes, poderia ser armazenado em apenas quatros gramas de DNA”.

 

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Acho essa notícia incrível, mas, na prática, suspiros profundos ao concluir que, visto o número de informações que pode estar escondido  no meu DNA, minha busca por autoconhecimento está muito longe de ter começado. A gente morre sem se conhecer.

 

Camila Teixeira

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Considerações sobre a estupidez

“In order to move on, you must understand why you felt what you did and why you no longer need to feel it.”

Mitch Albom, Five People You Meet in Heaven

Há algum tempo, venho me interessando por esse fenômeno curioso que é a estupidez. A razão é simples: embora eu deseje do fundo da alma acreditar na lucidez e na bondade humana, e mais, quando eu consigo ter um vislumbre concreto dessas propriedades, vem o ser-humano, o próprio, e estraga tudo. Em situações mais graves, chego inclusive a me espantar quando percebo que o homem é capaz de algum tipo de amor e altruísmo sinceros.

Ao mesmo tempo, tenho plena consciência de que essa tarefa que me deleguei, a de compreender a estupidez, é ingrata, pois, já reparei, a estupidez é imprevisível. Ela surge onde menos se espera e brota no ser-humano como um herpes comportamental repentino e gigantesco. Mesmo assim, tento me convencer de que existem meios de apreendê-la.

Minha teoria sobre a estupidez é composta por três partes.

1. Causa

Estar vivo e ser humano.

2. Condições que favorecem sua ocorrência

O estresse. Assim como ocorre no herpes comum, a estupidez tem grandes chances de se produzir após uma forte descarga de estresse. Portanto, se você perceber que alguma pessoa está estressada em níveis alarmantes pode ter certeza de que dali nascerá uma estupidez.

A onipotência e a ignorância. Pessoas que acreditam possuir um poder superior, ou ainda os que ignoram por completo as regras de convivência social são mais propensas à estupidez.

3. Características e profilaxia

A. Im/Previsibilidade.

Ter em mente que a estupidez é imprevisível já seria uma forma de proteção contra seus golpes malignos. Quando a estupidez imprevisível chutar, já teremos o espírito preparado para amortecer, pelo menos, seu impacto. Outra forma de se preservar é, obviamente, esperar a estupidez dos estúpidos costumeiros.

De qualquer maneira, não dá para ficar muito feliz. Mesmo se conseguirmos nos defender do impacto, dificilmente conseguiremos nos proteger da sensação natural e corrosiva que geralmente sobe pela nossa espinha, diante de uma situação estúpida. Para conter essa sensação, só praticando a respiração diafragmática durante milênios.

B. Prazer e culpa.

A estupidez pode acarretar dois tipos de sensação ao estúpido. Se for um estúpido consciente do seu ato, é provável que a sensação resultante seja o prazer, ou até mesmo o orgulho. Já o estúpido por acidente possivelmente sentirá alguma forma de culpa.

C. As leis.

As leis deveriam nos proteger das formas mais graves de estupidez. Só que elas têm quatro problemas:

  • o estúpido não está nem aí para elas.
  • para o verdadeiro estúpido, as leis representam uma força que chega com lentidão após o ato estúpido, o que reforça o postulado acima. Isso se os envolvidos no caso, na tentativa de enquadrar o estúpido, também não forem estúpidos ao ponto de passar por cima, eles também, das leis que nos protegem (cof).
  • as leis são incompreensíveis em seu enunciado e talvez por isso ninguém as entenda/respeite. Temos aqui, ora, um excelente nicho que poderia, enfim, ser adotado como causa nobre pela publicidade. Se as leis fossem redigidas por publicitários, quem sabe até por jornalistas ou professores do primário, talvez pudéssemos esperar argumentos mais esclarecedores ou persuasivos e, portanto, apostar na decadência da estupidez, hoje, infelizmente, em alta.
  • a única lei que parece combinar com a lógica da estupidez (mas que não a justifica) é a lei da sobrevivência.

De qualquer maneira, parece que ainda não existe um aciclovir contra esse tipo de herpes. (Ora, veja, temos aqui um outro ramo que poderia render rios de dinheiro à indústria farmacêutica). Portanto, a única coisa que se pode tentar contra a estupidez é a distância. No mais, cuidar para que a corrosão que nos sobe pela espinha não se torne uma fonte inesgotável de estresse de forma a nos transformar em mais um herpes ambulante.

 

Camila Teixeira

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