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Olha a onda

(Atualizado)

Começo esse post com um tema em mente, mas sem a certeza de como vou terminá-lo ou mesmo se devia escrevê-lo. É um post em construção, sem planta, nem maquete e é possível que um dia, futuramente, eu venha a me arrepender de tê-lo escrito. Pois é muito provável que daqui um tempo eu discorde de mim mesma, o que acontece com bastante frequência. Nessas horas eu até entendo o FHC, quando ele disse “esqueçam o que eu escrevi”. Não é fácil mudar de ideia. Por isso, já deixo claro, logo de cara, que me guardo o direito de um dia mudar os rumos dos meus pensamentos, cabendo a cada um o direito (e o dever?) de ir na direção que o próprio pensamento manda e não na direção que os meus indicam – e não me venham com churumelas.

Pois é disso que quero falar, de como a gente vai na onda dos outros. Ou de como é difícil seguir a própria onda. Ou de como a inteligência pode ser parcial. Desculpe o exemplo, mas é que quando eu vejo que uma boyband chamada One Direction regrava o sucesso brasileiro do Tchakabum conhecido como Olha a Onda, e que, por algum motivo eu soube dessa notícia e, mais, reproduzo-a aqui, é sinal de que algum movimento Olho de Thundera, visão além do alcance, atravessa as paredes da minha casa atrás de mim, fazendo buuuuuuu, buuuuuu. Até hoje de manhã eu consegui fugir desse gasparzinho, mas um cruzamento de acasos (alguns chamam coincidências) me obrigou a sentar na minha cadeira e relatar os fatos da forma como descrevo em seguida.

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Estou lendo um livro sobre feminismo, chamado Féminism au Masculin, de Benoîte Groult (traduzi dois trechos aqui). Foi um presentinho de natal que está dando um nó na minha cabeça já feita de dreadlocks. Para resumir, a autora apresenta filósofos da história do mundo que, contra toda obviedade, defenderam o feminismo em suas respectivas épocas. Falando assim, parece um livro enorme, mas a verdade é que se trata de uma obra bem curtinha. A autora relata o perfil de cada filósofo/pensador/político que teve a coragem de afirmar que a mulher também tinha seus direitos em épocas em que o sexo feminino era reduzido, no melhor dos casos, a mulher do lar, e no pior dos casos, a doente mental. Estou cogitando reler tudo pois cheguei numa fase em que começo a duvidar de tudo o que li até agora, tão absurda me parece a História.

Dois exemplos de pensadores que defenderam os direitos da mulher:

  • Condorcet, filósofo do século 18 que participou da Revolução Francesa, mas que também foi perseguido por ela, por defender, entre outras, a ideia do direito da mulher. Foi preso e se suicidou em sua cela.
  • Stuart Mill, filósofo inglês do século 19, descreditado por amar uma mulher e por defender os direitos do sexo feminino.

O primeiro ponto que queria sublinhar é o seguinte: filósofos, estudiosos, cientistas, políticos, enfim, gente letrada e de certa iluminação intelectual dos séculos 17, 18 e 19 se uniam num conceito comum da mulher, que era o seguinte: sua incapacidade natural para a inteligência e os estudos. E mais: subjugavam o sexo feminino como se esse fosse uma lástima da humanidade.

Aqui entra o segundo ponto. Como pessoas de comprovada inteligência podem desenvolver raciocínios tão divergentes de sua própria clareza de espírito? Em outras palavras, uma pessoa considerada inteligente por seus pares ou pela sociedade pode ter preconceitos, por exemplo? Pode errar, se enganar? O FHC pediu para esquecer o que escreveu. E agora, José?

É a velha questão. Quanto do que somos é nossa essência? Quanto do que somos é reflexo ou reprodução do meio em que vivemos? Até que ponto pensamos o que pensamos ou que pensa nossa época? Somos culpados por nossos pensamentos? Somos vítimas das nossas heranças? Somos responsáveis pelo que fazemos deles.

Daí eu leio sobre o suicídio do Aaron Swartz, o jovem hacker brilhante que militava pelo conhecimento livre na internet. Para quem não sabe, entre a participação na criação das licenças Creative Commons, do RSS, do Reddit, ou seja, da base da internet tal como conhecemos hoje, Aaron entrou no sistema da biblioteca do MIT, baixou centenas de arquivos científicos e disponibilizou todo o conteúdo para consulta livre. Por causa disso, estava sendo processado pelo governo americano (o MIT desistiu do processo) e corria o risco de ser condenado a passar 50 anos na prisão. Entre tudo o que li a respeito desse episódio trágico e triste, destaco o seguinte:

Li um comentário de que pessoas como Aaron, inquietas e que vivem em luta para melhorar o mundo, não conseguem aguentar muito tempo no planeta. (…) Se o sistema está errado, é preciso tentar transformá-lo – e não mudar para se adequar a ele. Aaron sintetizou esse espírito tão necessário nos dias de hoje. Eu acho que a trajetória curta e intensa dele ainda vai render frutos. Nem que seja o livro. Não foi em vão.

Sempre penso nos valores que admitimos hoje e que, no futuro, não serão mais válidos. Ou, ao contrário, no que condenamos hoje e que, em breve, será permitido. Quem se preocupa se um dia terá vergonha do próprio passado? Quem pensa na herança que vai deixar? Se é que alguém pensa nisso.

Camila Teixeira

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A função do vazio

Eu  tinha uma certa tendência a achar o vazio uma coisa meio melancólica, meio solitária. Aquela história do copo cheio/vazio sempre me deu um aperto no coração e um pouquinho de pena da metadinha vazia, tadinha, enquanto a outra metade desfilava triunfante sua plenitude. Uau, como está cheia aquela metade, como se fosse algo de dar inveja à pobre metade sem nada. Essa rixa entre as metades sempre me incomodou e a diferença de juízo sobre ambas me parecia um pouco injusta.

Porque, veja. O problema  do vazio é quando esse vazio está espalhado por muitos lugares, sem uma forma definida. Quando você arruma a bagunça e reúne todo o vazio num lugar só, você sabe exatamente que cara ele tem. Portanto, um vazio dentro de um copo é um vazio de muitos méritos, na medida em que é possível ter uma noção clara do tipo de coisas que ele pode comportar. Por outro lado, eu tenho um problema sério com formulários, por exemplo, pois, na maior parte dos casos, o espaço disponível é pequeno demais para o tamanho das coisas que eu tenho que anotar.

A metade cheia pode desfilar, bobona, sua plenitude triunfante. Não ligo mais. Do meu lado, me preocuparei em sempre preservar meu copo metade vazio.

 

Camila Teixeira

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Profecia

Para registro interno: brócolis graúdo com casinha.

Emoção total.

 

 

Criação do artista plástico Brock Davis ou aqui.

 

Camila Teixeira

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Never let me go

Tenho pouquíssimo tempo livre no dia. Esse pouquíssimo tempo livre estava dedicando, em partes, a Never let me go, livro do Kazuo Ishiguro. Que mergulho, uma maravilha. Demorei 150 páginas para sair do ponto morto e engatar a primeira marcha na leitura. Mas depois que a primeira entrou, tive que passar logo para a quinta, de tanto que ela me pegou. De repente, me vi lendo enquanto escovava os dentes ou tomava café da manhã. É um quase-suspense, drama, ficção científica e romance de formação, ao mesmo tempo. Por outro lado, é difícil estabelecer o assunto principal, se é sobre a amizade, sobre a mentalidade humana, sobre o que seríamos capazes de fazer para diminuir nossas mazelas. Em todo caso, é uma ótima reflexão sobre o modo como apreendemos os acontecimentos que impactam nossa vida e formam nossa personalidade.

A trama de Never let me go acontece em dois níveis. O primeiro é a história da amizade entre Kathy, a narradora, Tommy e Ruth, todos alunos de Hailsham, uma escola muito especial dos confins da Inglaterra, desde a infância até chegarem aos 30 anos. O segundo nível, em evidência logo na primeira página, embora abordado com parcimônia pelo autor durante toda a narrativa, é sobre a doação de órgãos. O autor se serve do primeiro nível, ou seja, dos ritos de passagem, dos códigos secretos entre amigos e confidências entre eles para desenvolver em breves relances a dureza do segundo nível. A doação, que hoje vemos como algo nobre, é tratada de uma maneira misteriosa durante a narrativa e seu uso só é revelado nas últimas 50 páginas.

Embora no início eu tenha tido enormes dificuldades em acreditar na força da história, o autor conseguiu me fazer ter um pouco de fé no que ele queria contar. Que bom. O que me segurou foi sua habilidade para descrever cenas minimalistas, impressões conturbadas e sentimentos complexos com doçura e muita justeza. Fui fisgada pela maneira como ele manipula a decodificação de atitudes, gestos e palavras para justificar seu romance. Um exemplo. No livro, ele utiliza uma frase matadora – e que pode se aplicar à vida de qualquer pessoa – sobre a maneira como os alunos de Hailsham eram informados sobre o que aconteceria com eles no futuro. Kathy diz a Tommy:

Nós fomos informados sem ser.

Difícil não parar nessa frase e pensar no tanto que ela se aplica a qualquer situação difícil da vida real. Por pior que seja um acontecimento, não tem como escapar: nós fomos informados sem ser. É um conformismo duro de engolir, mas que é real.

Só que o fatality, o momento em que passei da primeira marcha para a quinta, foi a forma como Ishiguro desenvolveu a frase acima. Kathy conta:

Tommy achava que, durante todo o tempo que passamos em Hailsham, os guardiões escolhiam com bastante cuidado o momento de nos dizer cada coisa, de modo que fôssemos sempre um pouco jovens demais para entender corretamente a informação mais recente. Mas, claro, nós assimilávamos as ideias a um certo nível e, antes de muito tempo, todos esses dados entraram em nossas cabeças sem que tenhamos nos dado realmente conta.

Ô, o poder da doutrina. Os alunos de Hailsahm estão envolvidos num conjunto de pregações, faça isso, seja aquilo, você é muito importante para nós, recebem peça por peça de informação para que se transformem num belo produto a serviço da humanidade.

De novo, difícil não fazer um paralelo entre a maneira como eles são doutrinados e:

  • a forma como nós nos preparamos (ou não) para a vida adulta,
  • a forma como uma geração forma a seguinte,
  • a forma como as gerações se deixam formar,
  • a confiança que as gerações mais jovens deposita na logo anterior.

Never let me go é um livro repleto de nuances, de possibilidades de interpretação, além de ser um belo convite para pensar na forma como crescemos, fomos criados e educados. E sobre a forma como aceitamos tudo isso, como aceitamos, em partes, o horror. Ishiguro acerta em cheio: um mundo sombrio, mas com delicadeza.

Concordo com o autor. É realmente uma pena que, quando jovens e até mesmo quando adultos, a gente não tenha o discernimento necessário para parar tudo e começar de novo.

***

O filme foi adaptado para o cinema. No Brasil, foi chamado Não me abandone jamais. Acho difícil o filme ter a mesma profundidade do livro, já que ele revela logo de cara os segredos da trama. Mas verei, certamente. Adoro adaptações. Lá vai o trailer, mas cuidado. Ele revela mais do que deveria para quem quer ler o livro.

Camila Teixeira

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Pequenos passos

Eu admiro quem consegue enxergar maravilhas em coisas banais. Outro dia, por exemplo, faz tempo, vi um texto adorável de um cara que narrava a travessia (aparentemente extraordinária) de uma formiga sobre a mesa na qual ele estava instalado. Ele viu algo de incrível nisso, perceba. O que me faz concluir que a beleza depende de quem observa e conta, e não do fato em si.

Chegar a essa conclusão é bastante perturbador. O sujeito se sentiu maravilhado com o cotidiano de uma formiga. A minha pergunta é: como e por que não sou capaz da mesma proeza? Me senti bastante culpada por ver que minha sensibilidade já foi avariada pelo mundo. Se vejo uma formiga atravessar o meu móvel, meu primeiro impulso é pensar que existe um estranho fora do seu ninho (e, portanto, no meu). Segundo, que ela deve ser uma informante da sua espécie. Terceiro, que se achar algo comestível pelo caminho, minha mesa se transformará em ponto de peregrinação do formigueiro mais próximo.

Fico imaginando se alguém diferente de nossa espécie observava, de algum ponto do universo, os pequenos passos do homem na Lua (se é que existiram). E o que deve ter pensado sobre isso.

 

Camila Teixeira

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Já fomos piores

Estou lendo um livro que no Brasil foi publicado com o título “Um amor conquistado – O mito do amor materno”, da filósofa francesa Elisabeth Badinter. Que aventura. A autora faz um panorama detalhado e chocante sobre a evolução do conceito de maternidade através do tempo. É um resgate histórico rico em exemplos sobre o valor que a sociedade de cada época atribuía ao binômio mãe-bebê.

O que tem me chamado a atenção é a forma como nosso comportamento é condicionado pela época em que vivemos. E como não nos damos conta disso. Achamos que somos pessoas inteiras, donas dos nossos pensamentos. Errado. Se você pensa assim, desgabaritou total na prova de múltipla escolha da vida. Porque nossos pensamentos, de maneira geral, são orientados pelos valores que nos são contemporâneos.

No livro de Badinter, isso fica muito claro. Ela traz uma enxurrada de dados que comprovam como homens e mulheres de cada século reproduziam os costumes de sua época. E ela não fala de ignorantes ou leigos. Ela ataca sem dó a burguesia, médicos, filósofos, pessoas de certa lucidez intelectual. Com essas frases, estou querendo dizer que a autora prova, por A+B, que o ser-humano é, ó, vou te contar. Terrível (novidade). Tomando como exemplo, o valor dado à mulher beirava o nulo. O valor dado à criança, qualquer que fosse sua idade, era totalmente negativo. A maternidade, a amamentação, o nascimento e a vida da criança pareciam não ter utilidade alguma. Ao contrário, era um peso na vida da família. E quando um bebê morria, o que era muito frequente em função das condições de higiene e até da falta de cuidado familiar, era quase um alívio, aleluia (a autora não diz isso com todas as letras, mas eu interpreto assim). Ainda estou no começo do livro, mas ler o prefácio já é suficiente para ter uma ideia do que estou falando.

Com as referências culturais de que dispomos para interpretar os dados de Badinter, fica evidente o quanto já evoluímos para o bem. Ufa. Apesar de apesar de todos os pesos pesados dos pesares, tenho a impressão de que, de uma maneira geral,

a) hoje somos dotados de uma consciência maior do outro e

b) nos importamos cada vez mais com isso.

c) Com exceção, é claro, daqueles que são corrompidos pelo pudê (=poder) em qualquer esfera: política, social, empresarial, financeira, ONG, familiar, da associação de bairro, na turminha da escola, etc.

Pensando nos valores que estão brotando por aí (um consumo mais consciente, menos hierarquia, mais compartilhamento, etc), consigo carregar uma (nano) pontinha de esperança no futuro. A menos, claro, que o ser-humano seja fiel ao que é e dê um baita tiro no pé, rumo ao fracasso total. Não me espantaria.

Fico curiosa para saber que valores de hoje serão obsoletos no futuro.

O livro da Badinter pode ser lido aqui.

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Camila Teixeira

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Costura

Às vezes eu fico feliz de ter esse blog e de deixar anotado nele algumas das minhas paranoias. Porque, de repente, vem a vida e costura tudo o que a gente pensou aos poucos. Nessas horas, é como se ela, a vida, viesse, me desse um abracinho fofo, um beijinho na testa e me dissesse: é por aí, querida.

Esses dias, disse me sentir como uma maluca que fica falando sozinha na praça. Na semana retrasada, falei sobre a experiência única de estar vivo, embora sejamos tão parecidos uns com os outros. No meio de janeiro, escrevi uma carta ao diretor de planejamento do ser-humano, solicitando a possibilidade de experimentar aquilo que o outro sente.

Hoje, esses três posts se encontraram nessa discussão que vi no TED, “Can we ever know how another person ‘senses’ the world?“.

É legal saber que pessoas desconhecidas do outro lado do mundo estão falando sobre as dúvidas que me surgem enquanto lavo a louça aqui na cozinha de casa.

Eu me sinto meio caipira ao dizer isso (mas sou caipira mesmo, fazêoquê), mas na internet a gente não troca ideia com o vizinho, e sim, com o mundo inteiro. Às vezes somos mais parecidos com um carinha que vive no Japão do que com o cara que senta do nosso lado no trabalho, no ônibus ou no cinema. Proximidade não tem nada a ver com geografia. É.

 

Camila Teixeira

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O louco

Outro dia, estava indo ao mercadinho, quando vi um louco falando sozinho no meio da praça. Ele argumentava, falava alto, se exaltava. Estava muito bravo  com seu “interlocutor”. Quem passava perto, resolvia passar longe. Irritado, o louco gesticulava, andava de um lado para o outro, coçava a barba.

Eu não tenho barba, mas tenho um blog. E às vezes tenho a sensação de ser esse louco.

 

Camila Teixeira

 

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O que você quer ser quando crescer

Quando eu era criança, eu meio que tinha medo dessa pergunta. A razão é simples: eu não sabia a resposta. Mas como era uma pergunta recorrente, que todo mundo se fazia de modo bastante descontraído, eu me via na obrigação de responder algo. Tudo bem, é só jogar conversa fora, eu me dizia, no intuito de não me desesperar.

Duas coisas me paralisavam nessa pergunta. A primeira era justamente esse “modo descontraído” para uma pergunta íntima e profunda demais. Por mais que eu não soubesse o que queria ser, tinha a forte sensação de que não deveria atentar contra o sagrado. Mas eu atentava – por pura pressão externa, que fique bem claro.

A segunda coisa que me chocava era o fato de todo mundo só dar e esperar respostas profissionais. Médico. Arquiteto. Veterinário. Ok. E precisa mesmo ser uma resposta profissional? Desculpe, querida, é o formato atual da convivência em sociedade, me explicava a fada dos dentes sem ser formalmente consultada. Ah tá, saquei. Mas lá no fundo, em segredo, continuava sem entender. Por que o que a gente vai ser quando crescer precisa ser exclusivamente uma profissão?

 

***

 

Tudo isso para dizer que o “o que você vai ser quando crescer” é a primeira forma de se perguntar “que sentido terá sua vida”. E saber dar um sentido para a própria vida, me parece, vai muito além de uma profissão, muito embora a profissão tenha uma dimensão considerável no sentido que a vida vai seguir.

Só que da forma como fazemos, o assunto passa meio batido. A resposta, muitas vezes imediata e superficial, fica naquele vulto entre a descontração, a gracinha para agradar adulto, a invenção para tapar buraco, a necessidade de aceitação. Haha, que coisinha fofa, já sabe o que quer ser quando crescer – e tome um apertão na bochecha da tia de batom laranja, blush vencido, brinco plástico de argola amarela, e topete com spray cristalizado.

E, bem, se é assim, assim é que é. A gente cresce e deixa a pergunta passar batido, meio na brincadeira, meio no não sei, sempre foi assim. As preferências, as particularidades, os desejos de cada um acabam virando um bolo amorfo. O que era para virar uma escultura permanece pedra a vida toda. E quando chega a hora de prestar contas para saturno, o que mais se vê é gente dando cabeçada forte por aí. Não sei, mas acho que não deveria estar aqui. Ou então: eu sou isso mesmo? Ou ainda (pior): hã? Saturno? Não tô sabendo. Quem é? O cobrador do aluguel? Mas não era o Moacir o cara da imobiliária?

E quando a gente se dá conta, vê um monte de alma perdida, inclusive no espelho, ou andando pelo bairro, nos corredores dos escritórios, na rua em que mora, no vizinho, em casa. Todos médicos, arquitetos, jornalistas. Gente formada e ótimos profissionais.

Não existe uma formação para ser humano?

 

Camila Teixeira

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Mil planetas

Quando me falam que um objeto Y é tridimensional, eu desconfio. Eu sempre acho que o criador (numa visão que admite todas as versões para o surgimento do universo) preparou uma de suas pegadinhas, fazendo a gente acreditar numa versão incompleta da realidade.

Pegue uma abelha, por exemplo. O mundo não é apenas como ela vê. Mas ela acredita que é. Pegue um humano, por exemplo. O mundo não deve ser como ele vê. Mas ele acredita que é.

Pois o problema é justamente esse. Cada um acredita naquilo que vê. E se cada um vê uma coisa diferente do outro, pois é humanamente impossível enxergar exatamente a mesma coisa que o vizinho, nem que seja por diferenças de estatura, de posição em relação ao objeto, de graus de oftalmologia, jamais viveremos num mundo de acordo entre as partes. Pois, além de cada um acreditar naquilo que vê, cada um defenderá aquilo que lhe parece.

Mas não pode ser diferente. Como não acreditar naquilo que nos contam nossos cinco sentidos, as únicas ferramentas de que dispomos para experimentar o presente? Os sentidos são a fronteira entre nós e o mundo, repare.

Mas se cada um experimenta uma coisa diferente do outro, qual é a verdadeira? (Prestem atenção agora). A verdade é que a verdade é o objeto (de discussão, que seja) mais multidimensional que existe no universo (novidade). Se cada um experimenta o mundo com seu próprio filtro de sentidos, cada um possui sua própria experiência do que é real. Infelizmente, não é possível emprestar nosso paladar para outra pessoa. Imagine a cena:

_ Ei, olha aqui como eu sinto o gosto dessa tortinha de morango.

(Empresta toda a superfície da língua com suas raízes sensoriais para o outro).

_ Hmmm. Nossa, pra mim é mais azedo.

Infelizmente, não fomos presenteados com esse aparato de intercâmbio cultural, o que seria, deveras, interessante.

E como não podemos sentir com os sentidos dos outros, não raro desconfiamos daquilo que o outro conta. Ou julgamos deslocado, aquém, além, totalmente contrário à realidade, a nossa. Daí o descompasso entre nós e esse mundo que não nos mima.

Experimentar a vida é algo totalmente, altamente, completamente único. Além do estilo de vida, das escolhas que fazemos, da forma como pensamos, das nossas preferências, os sentidos também estão aí para fazer de cada vida uma vida única. Por mais semelhanças que se tenha com o próximo, somos totalmente diferentes. (Pausa para pensar). E dar-se conta dessa exclusividade, mesmo que de vez em quando, já deveria ser o suficiente para querer viver o mês seguinte com uma vontade vinda do fundo das tripas.

Quando me falam que um objeto é tridimensional eu acredito na parte verdadeira, mas logo penso que compreender esse objeto é uma experiência subjetiva. E que portanto ele não é apenas tridimensional. Quando me falam que existe um planeta Terra, eu acredito. Mas o número de planetas Terra possíveis será tão vasto quanto as formas de experimentá-lo. 7 bilhões de planetas Terra, no mínimo.

O universo é, de fato, imenso.

 

Camila Teixeira

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