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Papo de louco, de homem, de fantasma, de HQ – e de livros

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Queridos amigos que assistiram a Interstellar, do Christopher Nolan,

Tenho uma dúvida que está comprometendo minha apreciação do filme. Não farei resenha, nem resumo. Não falarei de erros ou acertos. Por enquanto, a única informação que importa é: saí da sala de cinema como quem sai do interior de um sino gigante que acaba de dar doze badaladas. Béééímmm. Béééééimmm. Béééééimmm.

A minha dúvida está relacionada ao fantasma da Murph. (Pare de ler aqui se você ainda não viu e pretende ver o filme).

Bom, certo. O fantasma é o Cooper. O Cooper-futuro/fantasma está no passado para dizer a si mesmo para não partir & dar outras instruções. Só que:

Ele só envia essa mensagem porque, num futuro não tão distante/mundo paralelo, ele está em perigo. Aquela mensagem só existe porque ele está no espaço/em outra dimensão. E ele só está lá por que ele, do futuro, enviou uma mensagem ao passado. Ou seja, não dá. Veja: ele só viaja porque Cooper-futuro-fantasma manda uma mensagem a si mesmo (passado) dizendo para não viajar.

(Nota mental: pensando assim, seria realmente providencial se nosso eu-futuro viesse de vez em quando nos dar uns toques, tipo, de boa, para que evitássemos algumas cagadas no presente. Ou seja, não é a bola de cristal que tem que consultar. É o tesseract. Ha-ha-ha. Não, péra. Não foi engraçado).

Enfim. Meu problema não está na maneira como ele envia a mensagem, nem com os códigos binários, nem com o problema da gravidade, nem com a outra dimensão. Meu problema é a ideia de que o Cooper-futuro é a origem da decisão do Cooper-passado. Só que: para que o Cooper-futuro/fantasma exista, o Cooper-passado precisaria ter tomado sua decisão de partir para o espaço baseado em outros elementos diferentes da mensagem que o Cooper-fantasma deixou.

Não sei se estou sendo clara, mas vou tentar reescrever: Cooper-fantasma só existe porque Cooper-passado decidiu viajar. Ou seja, a existência do Cooper-fantasma é uma consequência da decisão do Cooper-passado. Portanto, Cooper-fantasma não pode estar na origem da decisão do Cooper-passado. Para que o Cooper-futuro exista, é preciso ter existido um momento zero, independente da existência do Cooper-fantasma, em que o Cooper-passado decide viajar, para que, somente então, o Cooper-fantasma possa existir e mandar mensagens do além.

Papo de louco, né. Alguém me explica que estou errada?

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E tem mais um outro detalhe. Seria muito pensar que a escolha do nome “Dr. Mann” para o “vilão” não foi uma escolha aleatória e sim um fofo trocadilho? Teria o Nolan pensado em mandar algum recadinho (mais um) para o “homem”?

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Agora o momento nhóimmmm.

Acabei de ver que o Nolan pensou num prequel para a trajetória do Dr. Mann. E está em formato HQ (uoooiiin) na Wired digital de novembro. Achei fofo querer nos dar satisfação sobre o malvado. Ainda mais em quadrinhos. Lá vai.

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Você viu a timeline do filme, né?

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ATUALIZAÇÃO – ORGENTE

E se você, como eu, quis saber quais livros estavam na estante da Murph, aqui vai uma listinha comentada pelo Nolan (<3). Espero ter tempo pra traduzir alguns trechos.

Camila Teixeira

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Lá no meu outro eu

Fiz um post novo sobre Ma Révérence, HQ que acabei de ler e adoreeeei.

Vai lá.

Camila Teixeira

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Olha a onda

(Atualizado)

Começo esse post com um tema em mente, mas sem a certeza de como vou terminá-lo ou mesmo se devia escrevê-lo. É um post em construção, sem planta, nem maquete e é possível que um dia, futuramente, eu venha a me arrepender de tê-lo escrito. Pois é muito provável que daqui um tempo eu discorde de mim mesma, o que acontece com bastante frequência. Nessas horas eu até entendo o FHC, quando ele disse “esqueçam o que eu escrevi”. Não é fácil mudar de ideia. Por isso, já deixo claro, logo de cara, que me guardo o direito de um dia mudar os rumos dos meus pensamentos, cabendo a cada um o direito (e o dever?) de ir na direção que o próprio pensamento manda e não na direção que os meus indicam – e não me venham com churumelas.

Pois é disso que quero falar, de como a gente vai na onda dos outros. Ou de como é difícil seguir a própria onda. Ou de como a inteligência pode ser parcial. Desculpe o exemplo, mas é que quando eu vejo que uma boyband chamada One Direction regrava o sucesso brasileiro do Tchakabum conhecido como Olha a Onda, e que, por algum motivo eu soube dessa notícia e, mais, reproduzo-a aqui, é sinal de que algum movimento Olho de Thundera, visão além do alcance, atravessa as paredes da minha casa atrás de mim, fazendo buuuuuuu, buuuuuu. Até hoje de manhã eu consegui fugir desse gasparzinho, mas um cruzamento de acasos (alguns chamam coincidências) me obrigou a sentar na minha cadeira e relatar os fatos da forma como descrevo em seguida.

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Estou lendo um livro sobre feminismo, chamado Féminism au Masculin, de Benoîte Groult (traduzi dois trechos aqui). Foi um presentinho de natal que está dando um nó na minha cabeça já feita de dreadlocks. Para resumir, a autora apresenta filósofos da história do mundo que, contra toda obviedade, defenderam o feminismo em suas respectivas épocas. Falando assim, parece um livro enorme, mas a verdade é que se trata de uma obra bem curtinha. A autora relata o perfil de cada filósofo/pensador/político que teve a coragem de afirmar que a mulher também tinha seus direitos em épocas em que o sexo feminino era reduzido, no melhor dos casos, a mulher do lar, e no pior dos casos, a doente mental. Estou cogitando reler tudo pois cheguei numa fase em que começo a duvidar de tudo o que li até agora, tão absurda me parece a História.

Dois exemplos de pensadores que defenderam os direitos da mulher:

  • Condorcet, filósofo do século 18 que participou da Revolução Francesa, mas que também foi perseguido por ela, por defender, entre outras, a ideia do direito da mulher. Foi preso e se suicidou em sua cela.
  • Stuart Mill, filósofo inglês do século 19, descreditado por amar uma mulher e por defender os direitos do sexo feminino.

O primeiro ponto que queria sublinhar é o seguinte: filósofos, estudiosos, cientistas, políticos, enfim, gente letrada e de certa iluminação intelectual dos séculos 17, 18 e 19 se uniam num conceito comum da mulher, que era o seguinte: sua incapacidade natural para a inteligência e os estudos. E mais: subjugavam o sexo feminino como se esse fosse uma lástima da humanidade.

Aqui entra o segundo ponto. Como pessoas de comprovada inteligência podem desenvolver raciocínios tão divergentes de sua própria clareza de espírito? Em outras palavras, uma pessoa considerada inteligente por seus pares ou pela sociedade pode ter preconceitos, por exemplo? Pode errar, se enganar? O FHC pediu para esquecer o que escreveu. E agora, José?

É a velha questão. Quanto do que somos é nossa essência? Quanto do que somos é reflexo ou reprodução do meio em que vivemos? Até que ponto pensamos o que pensamos ou que pensa nossa época? Somos culpados por nossos pensamentos? Somos vítimas das nossas heranças? Somos responsáveis pelo que fazemos deles.

Daí eu leio sobre o suicídio do Aaron Swartz, o jovem hacker brilhante que militava pelo conhecimento livre na internet. Para quem não sabe, entre a participação na criação das licenças Creative Commons, do RSS, do Reddit, ou seja, da base da internet tal como conhecemos hoje, Aaron entrou no sistema da biblioteca do MIT, baixou centenas de arquivos científicos e disponibilizou todo o conteúdo para consulta livre. Por causa disso, estava sendo processado pelo governo americano (o MIT desistiu do processo) e corria o risco de ser condenado a passar 50 anos na prisão. Entre tudo o que li a respeito desse episódio trágico e triste, destaco o seguinte:

Li um comentário de que pessoas como Aaron, inquietas e que vivem em luta para melhorar o mundo, não conseguem aguentar muito tempo no planeta. (…) Se o sistema está errado, é preciso tentar transformá-lo – e não mudar para se adequar a ele. Aaron sintetizou esse espírito tão necessário nos dias de hoje. Eu acho que a trajetória curta e intensa dele ainda vai render frutos. Nem que seja o livro. Não foi em vão.

Sempre penso nos valores que admitimos hoje e que, no futuro, não serão mais válidos. Ou, ao contrário, no que condenamos hoje e que, em breve, será permitido. Quem se preocupa se um dia terá vergonha do próprio passado? Quem pensa na herança que vai deixar? Se é que alguém pensa nisso.

Camila Teixeira

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Tomi Ungerer

Faz algum tempo, eu descobri o Tomi Ungerer, autor/ilustrador francês. O Tomi é o seguinte: além de ser um grande nome da ilustraçao publicitaria e da imprensa americana, ele é também autor de obras infantojuvenis, nas quais ele chega pra molecada e fala assim: ta vendo esse soldado perfurado por balas de fuzil? isso existe de verdade OU ta vendo esse mundo bonito e colorido? existe o homem pra estragar tudo OU ta vendo essa miséria humana? isso também existe. Nao com essas palavras, mas com seus desenhos.

tomi ungerer ©Le Pacte

Tomi Ungerer. Foto que tirei daqui. © Le Pacte.

O Tomi é um autor que fala a verdade verdadeira, doa a quem doer. Talvez porque ele proprio tenha sofrido com a verdade verdadeira, doa a quem doer. Nascido em Strasbourg, leste da França, sofreu quando pequeno com os horrores da Segunda Guerra Mundial. A ocupaçao alema deixou marcas profundas em sua personalidade. Em varios dos seus livros para crianças, a decepçao, a guerra, o lado sombrio da humanidade estao presentes.

Tomi foi também um verdadeiro mochileiro. Apos chegar até a Laponia, foi para os EUA, onde se firmou como ilustrador.

tomi ungerer otto

Descobri Tomi lendo Otto, um urso de pelucia que vai parar na vitrina de um antiquario, depois de ter visto o que é a guerra, o abandono e a solidao. A frase de abertura é a seguinte: Entendi que estava velho no dia em que me vi na vitrina de um antiquario. Quando bati o olho nessa pequeno aglomerado de palavras, minha primeira reaçao foi fechar logo o livro e procurar outra coisa mais alegrinha para ler. Mas nao consegui. Precisei voltar para saber o que tinha acontecido com o Otto. E é de chorar.

tomi ungerer jean de la lune

Depois nao parei mais. Sempre que posso, procuro algo que nao tenha lido para conhecer as nuances do trabalho dele. Um dos ultimos que li foi Jean de la lune, sobre um garoto que mora na lua e que um dia resolve visitar a Terra. Quando ele chega, tudo é lindo, colorido, perfumado. Mas um grupo de homens, lideres politicos e representantes da ordem, afirmam que ele é um inimigo e passam a persegui-lo. Jean de la lune vai preso, mas finalmente consegue escapar e encontra ajuda para voltar para sua lua natal. Jean de la lune acaba de ser adaptado para um filme de animaçao dirigido por Stephan Schesch e vai ser lançado em breve.

Além disso, um outro documentario sobre a personalidade de Tomi esta para ser lançado. A revista Les Inrocks fez um textinho sobre o assunto, dizendo o seguinte: “No filme estao todas as facetas ungerianas: os livros infantis que nao consideram as crianças como idiotas, seus desenhos politicos subversivos, sua veia erotica”. Aqui vai o trailer. Verei certamente.

Adoro quando ele diz: “Quando eu desenho, é algo unico. é como ir ao banheiro. Tem que sair.” Ou entao quando ele diz “nao importa o quao longe você ja foi, pois nunca tera sido longe o suficiente”.

tomi rufus

Nao li a obra completa, mas muitos titulos infantojuvenis giram em torno de um personagem que deixa suas origens para conhecer um outro mundo que, a principio, é lindo, mas que acaba revelando algum tipo de violência. Tipo Rufus, a historia de um morcego que queria conhecer as cores do dia, realiza seu desejo, até que algo tragico acontece.

***

O Le Monde publicou recentemente um slide-show sobre ele com algumas de suas ilustraçoes. As legendas sao otimas, com comentarios do proprio Tomi: 

Ilustraçao 4: Cheguei aos EUA em 1956. Fiquei chocado ao descobrir que no pais da liberdade ainda reinava a segregaçao.

Ilustraçao 5: Meu erotismo se desenvolveu como reaçao ao puritanismo. Em Fornicon, denunciei a tirania de uma sexualidade que se tornou mecanica. Fui parar nas listas negras e também oficialmente banido de todas as bibliotecas.

Ilustraçao 6:  Quando cheguei a NY, fiquei espantado com o famoso sorriso americano – o sorriso colgate, tao voraz quanto hipocrita. Minha reaçao a essa sociedade materialista desencadeia um diluvio de desenhos satiricos.

Ilustraçao 7: Meu engajamento contra a guerra e o rascimo foi uma forma de exorcismo contra a lavagem cerebral fascista. é preciso saber domesticar seus demônios. Sem a colera e a revolta – meus dois combustiveis – todos esses desenhos nao existiriam.

Ilustraçao 8: O que é o fim? A trajetoria da minha vida foi tao sinuosa quanto radical. Sou um experimenta-tudo, passo meu tempo a trocar de estilo. Cada curva representa uma nova forma de me expressar. Hoje estou com o volante livre, sem permissao para dirigir.

Alguns titulos dele foram traduzidos para o português. Recomendo muito.

Quer mais? Algumas ilustraçoes que tirei do site do Museu Tomi Ungerer.

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Nada mais a declarar, além do meu amor por esse artista.

Camila Teixeira

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ToXic

Quando terminei de ler ToXic (X’ed Out, título original), logo pensei que tinha duas opções. A primeira: passar batido, fazer cara de paisagem e fingir que não era comigo. A segunda: parar minha vida inteira para entender o mundo e o submundo de suas quase 30 páginas. Estava seguindo firme na primeira opção, quando Charles Burns, o autor, me deu um tapa bandido na cara e disse: acorda, menina! Ele puxou a minha orelha e disse: não vai sair daí até entender, pelo menos, dois quadrinhos da história.

Fiquei de castigo. Li e reli ToXic. Porque o problema é o seguinte: você não pode ler Charles Burns e achar que depois vai poder sair pra comer uma pipoquinha Nhac! numa boa. Não vai. Porque o Charles vai puxar teu pé à noite, ele vai se esconder dentro do teu armário, debaixo da tua cama, dentro do chiado da tua televisão. Ele vai te assombrar até você falar: tá, tá, tá, tá, tá! Porque é isso que ele quer, a tua alma, a tua confissão, os teus segredos. E se você tiver o mínimo gosto por HQ, ou pelo caos, pelo desconcerto, pelo estranho, ou simplesmente se você foi adolescente um dia na vida, ele vai vencer. Nem adianta lutar contra.

Primeira página, referência clara a Tintin. 

Para resumir muito, o universo do americano Charles Burns gira em torno das transformações, do mal-estar, da incompreensão, das dúvidas, dos medos e das turbulências que marcam o período entre a adolescência e o início da fase adulta. Ok, você vai pensar, todo mundo faz isso. Sim. Só que Charles Burns tem uma linguagem muito própria. Pra citar algumas: a mistura entre o sonho e a realidade, o consciente e o inconsciente; a manifestação do mal-estar psicológico dos personagens por meio de sequelas e feridas diversas pelo corpo; o mundo underground, a referência ao movimento punk, a violência, a monstruosidade.

O autor.

No caso de ToXic, Doug tem um machucado na cabeça, toma remédios para tentar se curar de um mal indefnindo, é aspirante a artista na cena punk, tem problemas com a família, tem uma namorada que se corta com uma lâmina de barbear para ser retratada numa foto polaroid, e ele se perde nas dimensões de um inconsciente assustador, que reflete seus medos reais, ou o contrário, que é a origem desses medos. Doug deseja sair dessa espiral, ele quer sair, mas não consegue. Está bloqueado. E ToXic é sobre isso, sobre esse desejo quase forte de encontrar uma saída. Alguns críticos falam que é a versão punk de Tintin, outros que é Tintin modo Twin Peaks.

O que me chamou atenção foi a forma que o autor escolheu contar a história. Os quadros são bastante clássicos, os desenhos são nítidos, claros, bem definidos e tudo isso é oposto do conteúdo da trama. O mundo perturbado de Doug em nada tem a ver com essa retidão. Você acha que está num mundo normal, mas é engano seu, béim. O contraste entre as duas linhas narrativas causa um efeito desnorteante, como se você tivesse levado uma bordoada na cabeça. Bem mundo real mesmo, tipo quando você passa manteiga no pão, enquanto lá no fundo do seu eu arde um inferno dantesco.

Pra falar a verdade, a monstruosidade retratada não é o tipo de universo que me atrai e ainda tem muita coisa da história que nem comentei. Mas Charles Burns é tão conceitual que não dá pra fingir que não viu. Não sei se  X’ed Out foi publicado no Brasil, mas Black Hole, sua obra mais famosa e que levou 10 anos para ser escrita, foi. Li somente alguns trechos, mas recomendo muito.

 

Camila Teixeira

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Embalagens, chocapic, HQ, etc.

Eu tô numa fase em que uma das únicas coisas que consigo terminar de ler é a nota explicativa do pacote de bisnaguinha, que aqui se chama fofamente petit pain au lait. Ou então da caixa de Chocapic. Imagina que existe uma diferença profunda entre a composição do Chocapic tradicional e seu equivalente orgânico. Na fórmula tradicional, tem 26,8% de chocolate em pó, enquanto no cereal orgânico essa porcentagem cai para 5,4% (sem perda alguma na qualidade gustativa). Enquanto a primeira tem 31% de trigo, a segunda tem 61%. Para você ver como tradicionalmente a gente come mais porcaria do que quando resolve olhar a etiqueta da embalagem.

Enfim, felizmente, tenho conseguido ler coisas um pouquinho mais extensas do que a embalagem do cereal (mas não muito). Embarquei forte na fase HQ, que se lê em uma horinha ou duas, mais ou menos. E os franceses são fortes em HQ, preciso dizer. Acabei de ler Quai d’Orsay – Crônicas Diplomáticas e – senhóóóór – como eu ri com o primeiro volume (de dois). Além de um desenho primoroso, em que quase se pode ouvir o que acontece nos quadrinhos, a trama é tão interessante quanto. Quai d’Orsay acompanha o início do jovem Arthur Vlaminck no Ministério das Relações Exteriores da França. Ele é contratado como conselheiro em discursos políticos para o ministro Alexandre Taillard de Worms (uma referência ao antigo ministro Dominique de Villepin).

Todo o primeiro volume gira em torno do estresse e das pressões que fazem parte do ambiente no qual Vlaminck caiu. Também é uma caricatura de como os discursos políticos são criados. Os temas são ricamente ilustrados pelos autores, o desenhista Christophe Blain e o roteirista Abel Lanzanc, esse último sob pseudônimo, já que foi na vida real um dos conselheiros do ministério retratado na história.

Uma das minhas passagens favoritas, na qual o ministro vai grifar um texto. 

O melhor de Quai d’Orsay é, sem dúvida, a construção do personagem do Ministro de Worms. Suas inspirações filosóficas, suas manias, sua presença retumbante, a força de suas palavras (delirantes e abstratas, em alguns casos) se misturam e formam um personagem tão carismático que dá até vontade de convidá-lo para comer um Chocapic no café da manhã, num dia desses.

TAC, TAC, TAC. THAC, TCHAC, TCHAC. Ri demais.

O volume dois eu gostei menos, embora tenha a mesma qualidade. O problema é que eu achei os personagens da trama menos idiossincrásicos que no primeiro volume. Falarei dele num dia em que não tiver que ler etiquetas de embalagens.

Camila Teixeira

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Polina

Às vezes eu queria que o mundo inteiro falasse francês. Seria ótimo perguntar em francês a um nômade da Mongólia quanto tempo ele fica em cada acampamento e vê-lo responder algo tipo: não conto o tempo, conto a necessidade. Ou então: o tempo que o tempo deixa. Se ele me desse uma dessas respostas, eu cairia dura no chão ao constatar que toda a ideia que faço desse povo é absolutamente verdadeira. E o mais importante é que ele entenderia minha pergunta e eu a resposta. Ele poderia falar português também, óbvio, mas o português não cabe exatamente no causo que quero defender nesse post, que é o seguinte: me apaixonei por uma HQ francesa. E se o mundo inteiro falasse francês, o mundo inteiro poderia ler a mesma história que acabei de ler. E, sei lá, ficar um pouco feliz também, se não for sonhar muito.

Quando cheguei aqui, durante minhas primeiras visitas às livrarias, fiquei espantada com a profusão de HQs nas estantes. Tem de tudo: monstros, fantasmas, naves espaciais, horrores do mar, guerreiros do futuro armados com pistolas gigantes. Até que no meio desse ambiente hostil, vi a capa de uma HQ diferente das outras: uma bailarina em exercício. Era Polina. Fiquei intrigada com a diferença temática entre essa HQ e as demais, mas na ocasião não pude ir adiante e ver do que se tratava.

Ontem o dia chegou e, senhóóóóór, ainda bem que esse rapaz, Bastien Vivès, o autor, existe. É um moço de 27 anos, aparentemente discreto, mas de uma sensibilidade profunda. Tanto que eu até duvido que ele saiba que é tão sensível assim. Acho que ele nem sabe que é tão profundo. Porque as pessoas que são profundas não sabem que são profundas. Elas são. Enfim, pouco importa.

O Gosto do Cloro

Primeiro eu li O Gosto do Cloro, uma HQ que me fisgou por se passar numa piscina. A capa é uma menina de costas, de touca, colocando oclinhos, enquanto é observada por um garoto dentro da piscina. A história é simples: o encontro de um rapaz e uma menina. E também de toda a ansiedade do garoto nos dias em que vai nadar. Será que ela vem, será que já está lá, será que vai falar comigo? Além da história tem também a estética. NO Gosto do Cloro, os quadrinhos são limpos, poucos traços, mas muito justos e cheios de perspectivas que retratam com exatidão o tempo de quem já passou mais de 20X25 metros dentro de uma piscina. As observações, as cenas, os mergulhos, o fôlego, a espera, a calma. Está tudo lindamente retratado por Vivès.

O ponto alto da história é o golpe do suspense. Nas cenas finais do livro, a menina chama o rapaz para ficar debaixo da água. Ela fala alguma coisa para ele, mas ele não consegue entender. Mais tarde ele pergunta a ela o que ela disse. Ela diz que contará na semana seguinte. É tipo a mesma cena de Lost in Translation, quando a Charlotte diz alguma coisa secreta no ouvido do Bob Harris. Para quem fala português (enfim, aqui entra a parte em que eu queria que o mundo inteiro falasse português), os movimentos que ela faz com a boca parecem muito com um “eu te amo”, mas no estágio em que se encontra a relação dos dois, é pouco provável. Mas que parece, parece.

O ponto fraco está na repetição de alguns diálogos e frases, como se o autor não soubesse o que colocar na boca dos personagens. Ou como se quisesse enfatizar a falta de assunto entre eles. Se for a segunda opção, ele não precisaria ter insistido taaaanto na repetição, já que a expressão dos personagens já deixava isso bem claro.

Pooooor isso, resolvi passar para uma segunda opinião. Parti para Polina. Não tinha lido nenhuma resenha, nenhum resumo sobre a história. Só sabia que tinha recebido ótimas críticas.

Polina

Polina é de uma delicadeza infinita. É a história de uma bailarina russa, dos seus seis anos até a idade adulta. É a história das marcas de sua infância na idade adulta, e de como Polina reage aos eventos inesperados da vida. Ou de como ela briga e se reconcilia. Para resumir, acho que é a história da coragem de Polina.

Logo na primeira página, dá para sentir o tom empregado por Vivès. Polina está no carro com sua mãe, indo para escola, onde passará por um teste de balé. Sua mãe diz:

Você precisa se concentrar em tudo o que já estudamos. Você conseguiu alongar um pouco hoje de manhã?

(Polina) Sim.

(Mãe) E aí, tá se sentindo melhor?

(Polina) Tá dolorido ainda.

(Mãe) Se o professor Bojinski vier testar sua flexibilidade, presta atenção para não demonstrar nada da tua dor.

Uma das minhas páginas preferidas. Polina faz uma pirueta para um grupo de pequenas bailarinas.

Quando termina, todas querem fazer uma pergunta a ela. 

Os traços dessa HQ são menos limpos, mas isso não interfere em nada a leitura. Por outro lado, é impressionante a capacidade de Bastien Vivès de captar e reproduzir os movimentos do corpo. Embora Polina não seja exatamente uma história sobre a dança, a HQ é quase um documentário sobre o assunto.

Polina é um tanto de delicadeza sobre a dureza da vida.

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Atualização

No final do texto, escrevi dansa e não dança (já corrigi). Oups. Coisas que só a proximidade entre duas línguas, o português e o francês, faz por você, visto que em francês é danse.

Estou em processo de metamorfose e nem percebi.

Camila Teixeira

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Coragem

Dia desses, vi o filme Comer, Rezar, Amar (o livro li ano passado, acho). Ontem terminei de ler  One Day. Há um ponto em comum nas duas histórias: a coragem de se desfazer de algo no meio do caminho e começar outra do zero.

Talvez esse seja um tema clássico dos 30 anos, época em que, normalmente, a gente tem inteligência intelectual e emocional para fazer um balanço sincero do que a gente fez da vida.

Não tenho muito a dizer a respeito, além de

  • como (não) é fácil fazer vista grossa sobre um descontentamento em nome da afeição que se tem por ele,
  • como é difícil viver essa contradição e
  • como é duro ver que tomamos uma decisão errada, que investimos tempo, dinheiro, energia e sentimento num caminho que pede retorno.

Nos dois casos, da desistência ou da persistência, é preciso coragem.

 

Atualização:

Lembrei. Esse tema também está em Vicky Cristina Barcelona.

 

Camila Teixeira

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Um dia

Eu achei que teria milhares de coisas para falar sobre One Day, livro do inglês David Nicholls, que terminei ontem. Eu achei que seria entusiasta, muito entusiasta ao falar sobre ele. Mas acho que não vai ser o caso, embora a obra tenha vários méritos, devo reconhecer.

O primeiro deles foi me fazer cruzar a barreira do “romance romântico”. Não é o tipo de leitura que me atrai, aliás, é o tipo de história que eu normalmente evito. One Day me fez superar esse bloqueio e, quando me dei conta, estava na página 239. Justiça seja feita, convivi feliz com a obra durante 4/5 da narrativa.

É um livro bem escrito e tem a vantagem de ser bastante enxuto. Isso faz com que a leitura seja fluida e alegre. O autor mostra rapidamente que as descrições que emprega têm uma utilidade ficcional e não são apenas um efeito decorativo.

Dexter e Emma são dois jovens que se conhecem no último dia da faculdade e tornam-se grandes amigos coloridos, embora nenhum deles admita isso para o outro. Outra vantagem é a simpatia dos personagens, mesmo aqueles que são construídos para causar desequilíbrio. Ninguém é odioso e, embora tenham suas chatices, são personagens reais e cativantes por seus dramas pessoais.

O livro conta como os protagnistas vivem os 20 anos seguintes a esse dia. Ou seja, é uma história sobre envelhecer, sem chegar à época da velhice; sobre o brilho da juventude e sobre as dificuldades de se tornar adulto; sobre a necessidade de fazer o que não quer para alcançar o que se desejou; ou sobre abafar a sinceridade no peito.

Parte do meu entusiasmo se foi no final da leitura. Ainda não sei se pelo desfecho em si ou se pelas opções que a vida oferece para uma história, seja ela ficção ou realidade.

De qualquer maneira, o livro correspondeu com sucesso ao que esperava para o momento: uma leitura leve e sem compromisso. Recomendo para os românticos e para quem quer respirar um pouco de juventude.

 

Camila Teixeira

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