Arquivo da categoria: França

Lá no meu outro eu

Fiz um post novo sobre Ma Révérence, HQ que acabei de ler e adoreeeei.

Vai lá.

Camila Teixeira

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Méritos

Faz tempo que quero comentar um negócio muito importante. Reservei um tempo especial só para falar disso. E esse negócio é uma pergunta existencial, que é a seguinte: como as francesas fazem para cultivar um cabelo extremamente charmosamente  muito bagunçado? Sério.

Há meses venho reparando nesse fenômeno curioso e completamente incompreensível. Cada vez que entro no tramway às 7h30 da manhã, aparece uma francesa do meu lado com um coque gigante e desajeitado em cima da cabeça, cheio de fios desgovernados caídos pelo rosto, com um ar de oi, acabei de acordar, e ainda assim, um penteado incrivelmente irresistível e de dar inveja em qualquer monja.

Esses franceses são cercados de lendas. O french kiss, a petite mort, a magreza numa gastronomia cheia de manteiga, o não tomar banho, a baguete e a boina, o romance em Paris, Paris apenas, e agora mais esse que instauro, o mistério do cabelo espatifado altamente charmoso.

Se eu me aventuro a reproduzir a moda, o resultado seria desastroso, já sei por antecipação. Nem uma versão mais radical do Bob Marley ia querer algo do tipo.

Ainda falta muito para que eu alcance o mérito do penteado francês.

Camila Teixeira

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Blast

Fiz um post novo sobre Blast, HQ do Manu Larcenet. Vai lá ver.

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Aâma

A quem possa interessar, fiz um novo post lá no meu novo eu sobre a HQ Aâma. Vai lá.

Aama

Camila Teixeira

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Novo eu

Tenho um novo eu internético.

Lá publicarei principalmente meus comentários sobre as HQs & afins que tenho lido.

Juntei tudo o que já publiquei aqui sobre o assunto e mais um post novo sobre a HQ Portugal. Vai lá.

 

Camila Teixeira

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Fotinhas de Paris

Dei uma passadinha por lá e lembrei de você.

©CamilaTeixeira

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***

Atualizando.

Pensando aqui. Foi sem tripé e com frio. Até que não ficaram tão ruins.

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Tomi Ungerer

Faz algum tempo, eu descobri o Tomi Ungerer, autor/ilustrador francês. O Tomi é o seguinte: além de ser um grande nome da ilustraçao publicitaria e da imprensa americana, ele é também autor de obras infantojuvenis, nas quais ele chega pra molecada e fala assim: ta vendo esse soldado perfurado por balas de fuzil? isso existe de verdade OU ta vendo esse mundo bonito e colorido? existe o homem pra estragar tudo OU ta vendo essa miséria humana? isso também existe. Nao com essas palavras, mas com seus desenhos.

tomi ungerer ©Le Pacte

Tomi Ungerer. Foto que tirei daqui. © Le Pacte.

O Tomi é um autor que fala a verdade verdadeira, doa a quem doer. Talvez porque ele proprio tenha sofrido com a verdade verdadeira, doa a quem doer. Nascido em Strasbourg, leste da França, sofreu quando pequeno com os horrores da Segunda Guerra Mundial. A ocupaçao alema deixou marcas profundas em sua personalidade. Em varios dos seus livros para crianças, a decepçao, a guerra, o lado sombrio da humanidade estao presentes.

Tomi foi também um verdadeiro mochileiro. Apos chegar até a Laponia, foi para os EUA, onde se firmou como ilustrador.

tomi ungerer otto

Descobri Tomi lendo Otto, um urso de pelucia que vai parar na vitrina de um antiquario, depois de ter visto o que é a guerra, o abandono e a solidao. A frase de abertura é a seguinte: Entendi que estava velho no dia em que me vi na vitrina de um antiquario. Quando bati o olho nessa pequeno aglomerado de palavras, minha primeira reaçao foi fechar logo o livro e procurar outra coisa mais alegrinha para ler. Mas nao consegui. Precisei voltar para saber o que tinha acontecido com o Otto. E é de chorar.

tomi ungerer jean de la lune

Depois nao parei mais. Sempre que posso, procuro algo que nao tenha lido para conhecer as nuances do trabalho dele. Um dos ultimos que li foi Jean de la lune, sobre um garoto que mora na lua e que um dia resolve visitar a Terra. Quando ele chega, tudo é lindo, colorido, perfumado. Mas um grupo de homens, lideres politicos e representantes da ordem, afirmam que ele é um inimigo e passam a persegui-lo. Jean de la lune vai preso, mas finalmente consegue escapar e encontra ajuda para voltar para sua lua natal. Jean de la lune acaba de ser adaptado para um filme de animaçao dirigido por Stephan Schesch e vai ser lançado em breve.

Além disso, um outro documentario sobre a personalidade de Tomi esta para ser lançado. A revista Les Inrocks fez um textinho sobre o assunto, dizendo o seguinte: “No filme estao todas as facetas ungerianas: os livros infantis que nao consideram as crianças como idiotas, seus desenhos politicos subversivos, sua veia erotica”. Aqui vai o trailer. Verei certamente.

Adoro quando ele diz: “Quando eu desenho, é algo unico. é como ir ao banheiro. Tem que sair.” Ou entao quando ele diz “nao importa o quao longe você ja foi, pois nunca tera sido longe o suficiente”.

tomi rufus

Nao li a obra completa, mas muitos titulos infantojuvenis giram em torno de um personagem que deixa suas origens para conhecer um outro mundo que, a principio, é lindo, mas que acaba revelando algum tipo de violência. Tipo Rufus, a historia de um morcego que queria conhecer as cores do dia, realiza seu desejo, até que algo tragico acontece.

***

O Le Monde publicou recentemente um slide-show sobre ele com algumas de suas ilustraçoes. As legendas sao otimas, com comentarios do proprio Tomi: 

Ilustraçao 4: Cheguei aos EUA em 1956. Fiquei chocado ao descobrir que no pais da liberdade ainda reinava a segregaçao.

Ilustraçao 5: Meu erotismo se desenvolveu como reaçao ao puritanismo. Em Fornicon, denunciei a tirania de uma sexualidade que se tornou mecanica. Fui parar nas listas negras e também oficialmente banido de todas as bibliotecas.

Ilustraçao 6:  Quando cheguei a NY, fiquei espantado com o famoso sorriso americano – o sorriso colgate, tao voraz quanto hipocrita. Minha reaçao a essa sociedade materialista desencadeia um diluvio de desenhos satiricos.

Ilustraçao 7: Meu engajamento contra a guerra e o rascimo foi uma forma de exorcismo contra a lavagem cerebral fascista. é preciso saber domesticar seus demônios. Sem a colera e a revolta – meus dois combustiveis – todos esses desenhos nao existiriam.

Ilustraçao 8: O que é o fim? A trajetoria da minha vida foi tao sinuosa quanto radical. Sou um experimenta-tudo, passo meu tempo a trocar de estilo. Cada curva representa uma nova forma de me expressar. Hoje estou com o volante livre, sem permissao para dirigir.

Alguns titulos dele foram traduzidos para o português. Recomendo muito.

Quer mais? Algumas ilustraçoes que tirei do site do Museu Tomi Ungerer.

tomi ungerer4

tomi ungerer2

tomi ungerer

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Nada mais a declarar, além do meu amor por esse artista.

Camila Teixeira

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ToXic

Quando terminei de ler ToXic (X’ed Out, título original), logo pensei que tinha duas opções. A primeira: passar batido, fazer cara de paisagem e fingir que não era comigo. A segunda: parar minha vida inteira para entender o mundo e o submundo de suas quase 30 páginas. Estava seguindo firme na primeira opção, quando Charles Burns, o autor, me deu um tapa bandido na cara e disse: acorda, menina! Ele puxou a minha orelha e disse: não vai sair daí até entender, pelo menos, dois quadrinhos da história.

Fiquei de castigo. Li e reli ToXic. Porque o problema é o seguinte: você não pode ler Charles Burns e achar que depois vai poder sair pra comer uma pipoquinha Nhac! numa boa. Não vai. Porque o Charles vai puxar teu pé à noite, ele vai se esconder dentro do teu armário, debaixo da tua cama, dentro do chiado da tua televisão. Ele vai te assombrar até você falar: tá, tá, tá, tá, tá! Porque é isso que ele quer, a tua alma, a tua confissão, os teus segredos. E se você tiver o mínimo gosto por HQ, ou pelo caos, pelo desconcerto, pelo estranho, ou simplesmente se você foi adolescente um dia na vida, ele vai vencer. Nem adianta lutar contra.

Primeira página, referência clara a Tintin. 

Para resumir muito, o universo do americano Charles Burns gira em torno das transformações, do mal-estar, da incompreensão, das dúvidas, dos medos e das turbulências que marcam o período entre a adolescência e o início da fase adulta. Ok, você vai pensar, todo mundo faz isso. Sim. Só que Charles Burns tem uma linguagem muito própria. Pra citar algumas: a mistura entre o sonho e a realidade, o consciente e o inconsciente; a manifestação do mal-estar psicológico dos personagens por meio de sequelas e feridas diversas pelo corpo; o mundo underground, a referência ao movimento punk, a violência, a monstruosidade.

O autor.

No caso de ToXic, Doug tem um machucado na cabeça, toma remédios para tentar se curar de um mal indefnindo, é aspirante a artista na cena punk, tem problemas com a família, tem uma namorada que se corta com uma lâmina de barbear para ser retratada numa foto polaroid, e ele se perde nas dimensões de um inconsciente assustador, que reflete seus medos reais, ou o contrário, que é a origem desses medos. Doug deseja sair dessa espiral, ele quer sair, mas não consegue. Está bloqueado. E ToXic é sobre isso, sobre esse desejo quase forte de encontrar uma saída. Alguns críticos falam que é a versão punk de Tintin, outros que é Tintin modo Twin Peaks.

O que me chamou atenção foi a forma que o autor escolheu contar a história. Os quadros são bastante clássicos, os desenhos são nítidos, claros, bem definidos e tudo isso é oposto do conteúdo da trama. O mundo perturbado de Doug em nada tem a ver com essa retidão. Você acha que está num mundo normal, mas é engano seu, béim. O contraste entre as duas linhas narrativas causa um efeito desnorteante, como se você tivesse levado uma bordoada na cabeça. Bem mundo real mesmo, tipo quando você passa manteiga no pão, enquanto lá no fundo do seu eu arde um inferno dantesco.

Pra falar a verdade, a monstruosidade retratada não é o tipo de universo que me atrai e ainda tem muita coisa da história que nem comentei. Mas Charles Burns é tão conceitual que não dá pra fingir que não viu. Não sei se  X’ed Out foi publicado no Brasil, mas Black Hole, sua obra mais famosa e que levou 10 anos para ser escrita, foi. Li somente alguns trechos, mas recomendo muito.

 

Camila Teixeira

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Embalagens, chocapic, HQ, etc.

Eu tô numa fase em que uma das únicas coisas que consigo terminar de ler é a nota explicativa do pacote de bisnaguinha, que aqui se chama fofamente petit pain au lait. Ou então da caixa de Chocapic. Imagina que existe uma diferença profunda entre a composição do Chocapic tradicional e seu equivalente orgânico. Na fórmula tradicional, tem 26,8% de chocolate em pó, enquanto no cereal orgânico essa porcentagem cai para 5,4% (sem perda alguma na qualidade gustativa). Enquanto a primeira tem 31% de trigo, a segunda tem 61%. Para você ver como tradicionalmente a gente come mais porcaria do que quando resolve olhar a etiqueta da embalagem.

Enfim, felizmente, tenho conseguido ler coisas um pouquinho mais extensas do que a embalagem do cereal (mas não muito). Embarquei forte na fase HQ, que se lê em uma horinha ou duas, mais ou menos. E os franceses são fortes em HQ, preciso dizer. Acabei de ler Quai d’Orsay – Crônicas Diplomáticas e – senhóóóór – como eu ri com o primeiro volume (de dois). Além de um desenho primoroso, em que quase se pode ouvir o que acontece nos quadrinhos, a trama é tão interessante quanto. Quai d’Orsay acompanha o início do jovem Arthur Vlaminck no Ministério das Relações Exteriores da França. Ele é contratado como conselheiro em discursos políticos para o ministro Alexandre Taillard de Worms (uma referência ao antigo ministro Dominique de Villepin).

Todo o primeiro volume gira em torno do estresse e das pressões que fazem parte do ambiente no qual Vlaminck caiu. Também é uma caricatura de como os discursos políticos são criados. Os temas são ricamente ilustrados pelos autores, o desenhista Christophe Blain e o roteirista Abel Lanzanc, esse último sob pseudônimo, já que foi na vida real um dos conselheiros do ministério retratado na história.

Uma das minhas passagens favoritas, na qual o ministro vai grifar um texto. 

O melhor de Quai d’Orsay é, sem dúvida, a construção do personagem do Ministro de Worms. Suas inspirações filosóficas, suas manias, sua presença retumbante, a força de suas palavras (delirantes e abstratas, em alguns casos) se misturam e formam um personagem tão carismático que dá até vontade de convidá-lo para comer um Chocapic no café da manhã, num dia desses.

TAC, TAC, TAC. THAC, TCHAC, TCHAC. Ri demais.

O volume dois eu gostei menos, embora tenha a mesma qualidade. O problema é que eu achei os personagens da trama menos idiossincrásicos que no primeiro volume. Falarei dele num dia em que não tiver que ler etiquetas de embalagens.

Camila Teixeira

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