Arquivo da categoria: Existenciais

Error

A gente acha que tempo é um negócio que sempre tem, que sempre vai existir, que é só inspirar mais uma vez. Por mais que a gente sempre diga, nossa tô tão sem tempo, tô tão corrida, não tenho tempo pra nada, a gente guarda uma convicção profunda de que vai acordar no dia seguinte. Mas quem garante? Jamais a gente pensa assim, que, de um dia pro outro, pode deixar de respirar. Que tipo, o tempo pode acabar MESMO. Tem que acordar antes de não acordar mais. 

Mas como eu faço parte desse time que sempre acredita que vai acordar no dia seguinte, e sou inclusive uma crente fervorosa, acabo deixando muitas coisas para fazer amanhã. Tenho uma pilha delas. Todo mundo esperando ansiosamente pelos dias que virão, dando pulinhos de esfuziante alegria diante da perspectiva de chegar amanhã. Eu até tento convencer essa galera saltitante de se acalmar um pouco, que amanhã sempre vem, que é um dia depois do outro, mas elas insistem em querer que amanhã seja hoje, agora. E a prioridade passa a ser tudo.

O único problema é que meu tempo passa rápido demais com coisas que demoram uma loucura. É um fenômeno muito estranho. Demora, demora, demora, se arrasta no tempo, e quando eu acordo no dia seguinte, já passou. Ou está terminando, no finzinho, na última colherinha do bifinho.

Passa tudo tão rápido numa demora tão lenta. E eu fico sem entender onde foi parar meu tempo, tão rápido que nem sinto, tão lento que quase não o vejo passar.

 

Camila Teixeira 

 

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Olha a onda

(Atualizado)

Começo esse post com um tema em mente, mas sem a certeza de como vou terminá-lo ou mesmo se devia escrevê-lo. É um post em construção, sem planta, nem maquete e é possível que um dia, futuramente, eu venha a me arrepender de tê-lo escrito. Pois é muito provável que daqui um tempo eu discorde de mim mesma, o que acontece com bastante frequência. Nessas horas eu até entendo o FHC, quando ele disse “esqueçam o que eu escrevi”. Não é fácil mudar de ideia. Por isso, já deixo claro, logo de cara, que me guardo o direito de um dia mudar os rumos dos meus pensamentos, cabendo a cada um o direito (e o dever?) de ir na direção que o próprio pensamento manda e não na direção que os meus indicam – e não me venham com churumelas.

Pois é disso que quero falar, de como a gente vai na onda dos outros. Ou de como é difícil seguir a própria onda. Ou de como a inteligência pode ser parcial. Desculpe o exemplo, mas é que quando eu vejo que uma boyband chamada One Direction regrava o sucesso brasileiro do Tchakabum conhecido como Olha a Onda, e que, por algum motivo eu soube dessa notícia e, mais, reproduzo-a aqui, é sinal de que algum movimento Olho de Thundera, visão além do alcance, atravessa as paredes da minha casa atrás de mim, fazendo buuuuuuu, buuuuuu. Até hoje de manhã eu consegui fugir desse gasparzinho, mas um cruzamento de acasos (alguns chamam coincidências) me obrigou a sentar na minha cadeira e relatar os fatos da forma como descrevo em seguida.

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Estou lendo um livro sobre feminismo, chamado Féminism au Masculin, de Benoîte Groult (traduzi dois trechos aqui). Foi um presentinho de natal que está dando um nó na minha cabeça já feita de dreadlocks. Para resumir, a autora apresenta filósofos da história do mundo que, contra toda obviedade, defenderam o feminismo em suas respectivas épocas. Falando assim, parece um livro enorme, mas a verdade é que se trata de uma obra bem curtinha. A autora relata o perfil de cada filósofo/pensador/político que teve a coragem de afirmar que a mulher também tinha seus direitos em épocas em que o sexo feminino era reduzido, no melhor dos casos, a mulher do lar, e no pior dos casos, a doente mental. Estou cogitando reler tudo pois cheguei numa fase em que começo a duvidar de tudo o que li até agora, tão absurda me parece a História.

Dois exemplos de pensadores que defenderam os direitos da mulher:

  • Condorcet, filósofo do século 18 que participou da Revolução Francesa, mas que também foi perseguido por ela, por defender, entre outras, a ideia do direito da mulher. Foi preso e se suicidou em sua cela.
  • Stuart Mill, filósofo inglês do século 19, descreditado por amar uma mulher e por defender os direitos do sexo feminino.

O primeiro ponto que queria sublinhar é o seguinte: filósofos, estudiosos, cientistas, políticos, enfim, gente letrada e de certa iluminação intelectual dos séculos 17, 18 e 19 se uniam num conceito comum da mulher, que era o seguinte: sua incapacidade natural para a inteligência e os estudos. E mais: subjugavam o sexo feminino como se esse fosse uma lástima da humanidade.

Aqui entra o segundo ponto. Como pessoas de comprovada inteligência podem desenvolver raciocínios tão divergentes de sua própria clareza de espírito? Em outras palavras, uma pessoa considerada inteligente por seus pares ou pela sociedade pode ter preconceitos, por exemplo? Pode errar, se enganar? O FHC pediu para esquecer o que escreveu. E agora, José?

É a velha questão. Quanto do que somos é nossa essência? Quanto do que somos é reflexo ou reprodução do meio em que vivemos? Até que ponto pensamos o que pensamos ou que pensa nossa época? Somos culpados por nossos pensamentos? Somos vítimas das nossas heranças? Somos responsáveis pelo que fazemos deles.

Daí eu leio sobre o suicídio do Aaron Swartz, o jovem hacker brilhante que militava pelo conhecimento livre na internet. Para quem não sabe, entre a participação na criação das licenças Creative Commons, do RSS, do Reddit, ou seja, da base da internet tal como conhecemos hoje, Aaron entrou no sistema da biblioteca do MIT, baixou centenas de arquivos científicos e disponibilizou todo o conteúdo para consulta livre. Por causa disso, estava sendo processado pelo governo americano (o MIT desistiu do processo) e corria o risco de ser condenado a passar 50 anos na prisão. Entre tudo o que li a respeito desse episódio trágico e triste, destaco o seguinte:

Li um comentário de que pessoas como Aaron, inquietas e que vivem em luta para melhorar o mundo, não conseguem aguentar muito tempo no planeta. (…) Se o sistema está errado, é preciso tentar transformá-lo – e não mudar para se adequar a ele. Aaron sintetizou esse espírito tão necessário nos dias de hoje. Eu acho que a trajetória curta e intensa dele ainda vai render frutos. Nem que seja o livro. Não foi em vão.

Sempre penso nos valores que admitimos hoje e que, no futuro, não serão mais válidos. Ou, ao contrário, no que condenamos hoje e que, em breve, será permitido. Quem se preocupa se um dia terá vergonha do próprio passado? Quem pensa na herança que vai deixar? Se é que alguém pensa nisso.

Camila Teixeira

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Apaga tudo

Por um erro de manipulação, apaguei todas as músicas do meu telefone. Sabe aqueles instantes em que sua barriga dá um nó e sua bochecha queima igual churrasquinho de gato? Bateu um desespero abesoloto, afinal, minhas músicas são minha vida, em resumo, ou quase.

Para minha salvação, os originais estão moito bem guardados num local secreto. Mas o problema era: como reconstituir a playlist?

Lá fui eu amargurada recomeçar do zero. Foi quando me dei conta de que apagar tudo foi a melhóóóóór coisa que aconteceu. Olhei pasta por pasta do meu arquivo semi-infinito e vi que tinha deixado muita coisa de fora. Minha antiga playlist não era exatamente minha playlist, mas o que se costuma ouvir por aí.

Compilei tudo de novo. Aléveo profondo ao ligar meu mp3 e ouvir só o que gosto.

Faz o teste. Apaga tudo e ouve só o que você gosta e não aquilo que indicaram, que alguém gostou, que você viu não sei onde.

Eu não devia fazer um post desse a essa altura do campeonato: 22 anos de idade num domingo outonal, enquanto troco as lentes de contato dos meus lindos olhos azuis (que um dia terei). Esse é o problema de ouvir Green Day. A gente acha que é jovem.

 

Camila Teixeira

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Boas notícias

Há dois dias, fiz o post abaixo, que coloquei nas minhas redes sociais, assim, de brincadeira, para ver se alguém se candidatava a responder. Curiosamente, recebi zero resposta. Minha primeira reação é pensar que minha presença nas redes sociais é irrelevante, afirmação que me parece perfeitamente possível e que justificaria o número de respostas que obtive. Mas, em seguida, considerei que, apesar de possível, não era a mais apropriada, afinal, vez ou outra, o mundo interage virtualmente comigo e a gente troca umas figurinhas fofas.

E se não é isso, sobram dois grupos de hipóteses a considerar.

 

GRUPO A – Sobre as boas notícias

a) Ninguém quer dividir suas boas notícias, o que seria algo muito triste, ou

b) As boas notícias estão em falta, o que seria pior, ou

c) A gente não sabe identificar as boas notícias, o que seria desesperador.

 

GRUPO B – sobre as redes sociais

a) Meus contatos têm mais o que fazer, além de responder meus posts bobos, o que seria compreensível e demonstraria que as redes sociais são uma perda de tempo, ou

b) Nas redes sociais, cada um só olha o próprio perfil, o número de retuites, curtidas e afins que recebe, sendo todo o restante spam e orkutização, o que seria um bom reflexo da umbiguização da nossa era, ou

c) Eu não devia me preocupar com o número de respostas que obtive & bobagens similares, o que significaria que existir virtualmente é totalmente desnecessário & nova fonte de angústia, ou

d) Existir virtualmente = existência de fato, o que, nesse caso, demonstraria como devo progredir na vida.

 

Estou profundamente desnorteada.

Alguém, por favor, me dê uma boa notícia.

 

Camila Teixeira

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A função do vazio

Eu  tinha uma certa tendência a achar o vazio uma coisa meio melancólica, meio solitária. Aquela história do copo cheio/vazio sempre me deu um aperto no coração e um pouquinho de pena da metadinha vazia, tadinha, enquanto a outra metade desfilava triunfante sua plenitude. Uau, como está cheia aquela metade, como se fosse algo de dar inveja à pobre metade sem nada. Essa rixa entre as metades sempre me incomodou e a diferença de juízo sobre ambas me parecia um pouco injusta.

Porque, veja. O problema  do vazio é quando esse vazio está espalhado por muitos lugares, sem uma forma definida. Quando você arruma a bagunça e reúne todo o vazio num lugar só, você sabe exatamente que cara ele tem. Portanto, um vazio dentro de um copo é um vazio de muitos méritos, na medida em que é possível ter uma noção clara do tipo de coisas que ele pode comportar. Por outro lado, eu tenho um problema sério com formulários, por exemplo, pois, na maior parte dos casos, o espaço disponível é pequeno demais para o tamanho das coisas que eu tenho que anotar.

A metade cheia pode desfilar, bobona, sua plenitude triunfante. Não ligo mais. Do meu lado, me preocuparei em sempre preservar meu copo metade vazio.

 

Camila Teixeira

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Consumo

Outra coisa que reparei.

Eu não gosto de consumir. Eu prefiro o desejo de consumir. Porque é aquela coisa. O desejo de consumir faz com que o objeto de consumo seja perfeito. O ato de adquirí-lo faz com que seja possível observar todas as suas imperfeições. Quando temos o objeto de consumo em mãos, vemos o quanto ele é falho, mal feito ou mal pensado.

Fico me perguntando o quanto de verdadeira beleza existe no mundo real.

 

Camila Teixeira

 

 

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Urgente

Sofro de um mal terrível e crônico, que é o seguinte: eu nunca acho que um tema é bom o suficiente para entrar para o rol dos meus posts. Eu tenho uma lista enorme de assuntos que queria colocar aqui, mas daí, quando começo a desenvolver, vejo que boa parte das idéias se transforma em manifesto panfletário estudantil. E eu abandono.

Eu sempre acho que um post tem que ser bombástico. Que tem que causar um terremoto. Tem que dar um choque. Ou anestesiar. Ou aliviar. Ou descontrair. Um post tem cortar.

Pelo seguinte.

O tempo é escasso, merece respeito. E se a moeda de troca por ele não é digna, não vale a pena.

É disso que estou atrás. De algo que seja tão bom quanto o tempo.

Procuro com urgência.

 

Camila Teixeira

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O louco

Outro dia, estava indo ao mercadinho, quando vi um louco falando sozinho no meio da praça. Ele argumentava, falava alto, se exaltava. Estava muito bravo  com seu “interlocutor”. Quem passava perto, resolvia passar longe. Irritado, o louco gesticulava, andava de um lado para o outro, coçava a barba.

Eu não tenho barba, mas tenho um blog. E às vezes tenho a sensação de ser esse louco.

 

Camila Teixeira

 

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