Arquivo mensal: outubro 2015

Saudadinha

Da proa de um barco imenso, aceno com meu lencinho branco para uma multidão que faz o mesmo gesto que eu, em minha direção. Amo vocês, eu grito. A multidão não diz nada, é como se eu não estivesse ali. E é verdade, eu raramente estive, um dia ou outro apenas, somente quando o relógio não escandalizava em meus ouvidos olha a hora, olha a hora. Minha declaração fica no vácuo, sem eco, desliza até o espaço na esperança de ser ouvida por alguma forma aleatória de vida, quem sabe. Todos aqueles tchauzinhos de miss com o movimento delicado das mãos não são para mim, mas para o barco que vai. Menos mal, penso eu, ao menos não fiz ninguém sofrer. Não choro, todos sorriem e algumas lágrimas ficam esperando escondidas uma piada a mais para cair sem querer.

Daí eu vou na minha viagem, o barco fica cada vez menor, a multidão desaparece no porto, eu mudo minha vista de direção e vejo o sol que se põe do outro lado e deixa meu rosto meio alaranjado e morno; o clima úmido não poupa meu cabelo já melado e levemente coberto de sal. Por um instante quase imperceptível, seria capaz de apostar que um grãozinho de feijão tenta brotar sua primeira folhinha verde lá no fundo do peito. Vejo algumas arraias seguir meu rastro por baixo das ondas e sou surpreendida pelo voo repentino de uma delas. Meus pensamentos brincam de estátua e resistem com certo heroísmo infantil à ventania que sopra por trás da minha cabeça. Meus ouvidos, menos resistentes, porém, sucumbem às flechadas do vento e sentem uma pequena otite nascer.

Fico mareada com o sobe e desce, lembro subitamente que prefiro sentir o barro atravessar os dedos do meus pés, a areia entrar debaixo da minha unha mal aparada, a concha virada para cima machucar a sola do meu pé, e aguardo ansiosamente a próxima ilha na qual atracarei. Ficarei de pé na orla, com o corpo imóvel, mas com olhos de radar e encontrarei com urgência um galho de árvore com o qual escreverei um universo na areia, antes que a próxima onda o apague. Mergulharei na água transparente, nadarei com os peixes minúsculos, finos e prateados, e flutuarei entre as bolhas e espumas até a chegada da próxima ressaca.

Camila Teixeira

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