Fresh feeling

Eu sei, romantismo não é meu forte e tenho plena consciência de que deveria pensar 297 vezes antes de postar qualquer vírgula que ultrapasse a linha do real e do concreto. Mas como decidi me aventurar mais esse ano (cof, no sofá), digo alto e claro que tenho uma nova teoria.

O amor é como um grande estacionamento. Tem quem estacione na beira do rio, no shopping lotado sábado à tarde, em local proibido, em lugar deserto, na garagem de casa, na vaga do vizinho, em cima da calçada. Em última medida, que não desenvolverei aqui, mas que deixo registrada graças à minha infinita generosidade para fins iluminatórios do mundo, os hábitos de estacionamento de uma pessoa revelam muito sobre seu caráter. Repare.

Voltando a minha teoria amorestacionamentária. É a mais pura verdade. O estado amoroso é um grande estacionamento. A gente escolhe uma vaga e fica. Aprecia aquele espaço como se fosse o universo. Vive e revive, todo dia, dia após dia, assim sucessivamente, repetidamente, cegamente, surdamente, do início até o fim. Até o dia em que a gente resolve sair do carro e vê que a vaga na sombra é melhor.

Não vou entrar nos pormenores interpretativos dessa minha nova teoria, visto que cada um é grande o suficiente para comprovar por experiência própria e com a devida riqueza de detalhes a multiplicidade de combinações teóricas e empíricas que a amorestacionamentária merece e permite em todo seu esplendor.

Revelarei apenas e entretanto a gênese desse brilhante conhecimento especulativo que é por natureza – destaco – alheio a qualquer aplicação prática que venham um dia, por pensamento ou ações, atos ou palavras, imputar a mim.

Estava eu tranquila no meu canto ouvindo minha nova playlist até que fui atropelada por um título que não conhecia, mas pelo qual me apaixonei subitamente. E eu nem sabia que ele fazia parte da playlist. Mas fazia, perceba. O problema é o seguinte. Estava tão  repetidamente, cegamente, surdamente estacionada em El Hombre Lobo, do Eels, particularmente em That look you give that guy, In my dreams, All the beautiful things e Ordinary man, que não tinha ouvidos para nenhuma outra de suas músicas. Grande erro.

Felizmente o amor tem dessas coisas, mesmo o amor de estacionamento. Ao viciar numa paisagem, a gente acaba descobrindo detalhes que nunca tinha visto antes, mesmo olhando todos os dias para ela.

Descobri Fresh Feeling. Lá vai.

Recomendo também a versão original.

Feliz ano novo, aliás.

 

Camila Teixeira

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2 pensamentos sobre “Fresh feeling

  1. gostei da dica musical titis!!

  2. Só na sua cabeça disse:

    num é uma graça? to com ela na cabeça.

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