Arquivo mensal: dezembro 2012

Tomi Ungerer

Faz algum tempo, eu descobri o Tomi Ungerer, autor/ilustrador francês. O Tomi é o seguinte: além de ser um grande nome da ilustraçao publicitaria e da imprensa americana, ele é também autor de obras infantojuvenis, nas quais ele chega pra molecada e fala assim: ta vendo esse soldado perfurado por balas de fuzil? isso existe de verdade OU ta vendo esse mundo bonito e colorido? existe o homem pra estragar tudo OU ta vendo essa miséria humana? isso também existe. Nao com essas palavras, mas com seus desenhos.

tomi ungerer ©Le Pacte

Tomi Ungerer. Foto que tirei daqui. © Le Pacte.

O Tomi é um autor que fala a verdade verdadeira, doa a quem doer. Talvez porque ele proprio tenha sofrido com a verdade verdadeira, doa a quem doer. Nascido em Strasbourg, leste da França, sofreu quando pequeno com os horrores da Segunda Guerra Mundial. A ocupaçao alema deixou marcas profundas em sua personalidade. Em varios dos seus livros para crianças, a decepçao, a guerra, o lado sombrio da humanidade estao presentes.

Tomi foi também um verdadeiro mochileiro. Apos chegar até a Laponia, foi para os EUA, onde se firmou como ilustrador.

tomi ungerer otto

Descobri Tomi lendo Otto, um urso de pelucia que vai parar na vitrina de um antiquario, depois de ter visto o que é a guerra, o abandono e a solidao. A frase de abertura é a seguinte: Entendi que estava velho no dia em que me vi na vitrina de um antiquario. Quando bati o olho nessa pequeno aglomerado de palavras, minha primeira reaçao foi fechar logo o livro e procurar outra coisa mais alegrinha para ler. Mas nao consegui. Precisei voltar para saber o que tinha acontecido com o Otto. E é de chorar.

tomi ungerer jean de la lune

Depois nao parei mais. Sempre que posso, procuro algo que nao tenha lido para conhecer as nuances do trabalho dele. Um dos ultimos que li foi Jean de la lune, sobre um garoto que mora na lua e que um dia resolve visitar a Terra. Quando ele chega, tudo é lindo, colorido, perfumado. Mas um grupo de homens, lideres politicos e representantes da ordem, afirmam que ele é um inimigo e passam a persegui-lo. Jean de la lune vai preso, mas finalmente consegue escapar e encontra ajuda para voltar para sua lua natal. Jean de la lune acaba de ser adaptado para um filme de animaçao dirigido por Stephan Schesch e vai ser lançado em breve.

Além disso, um outro documentario sobre a personalidade de Tomi esta para ser lançado. A revista Les Inrocks fez um textinho sobre o assunto, dizendo o seguinte: “No filme estao todas as facetas ungerianas: os livros infantis que nao consideram as crianças como idiotas, seus desenhos politicos subversivos, sua veia erotica”. Aqui vai o trailer. Verei certamente.

Adoro quando ele diz: “Quando eu desenho, é algo unico. é como ir ao banheiro. Tem que sair.” Ou entao quando ele diz “nao importa o quao longe você ja foi, pois nunca tera sido longe o suficiente”.

tomi rufus

Nao li a obra completa, mas muitos titulos infantojuvenis giram em torno de um personagem que deixa suas origens para conhecer um outro mundo que, a principio, é lindo, mas que acaba revelando algum tipo de violência. Tipo Rufus, a historia de um morcego que queria conhecer as cores do dia, realiza seu desejo, até que algo tragico acontece.

***

O Le Monde publicou recentemente um slide-show sobre ele com algumas de suas ilustraçoes. As legendas sao otimas, com comentarios do proprio Tomi: 

Ilustraçao 4: Cheguei aos EUA em 1956. Fiquei chocado ao descobrir que no pais da liberdade ainda reinava a segregaçao.

Ilustraçao 5: Meu erotismo se desenvolveu como reaçao ao puritanismo. Em Fornicon, denunciei a tirania de uma sexualidade que se tornou mecanica. Fui parar nas listas negras e também oficialmente banido de todas as bibliotecas.

Ilustraçao 6:  Quando cheguei a NY, fiquei espantado com o famoso sorriso americano – o sorriso colgate, tao voraz quanto hipocrita. Minha reaçao a essa sociedade materialista desencadeia um diluvio de desenhos satiricos.

Ilustraçao 7: Meu engajamento contra a guerra e o rascimo foi uma forma de exorcismo contra a lavagem cerebral fascista. é preciso saber domesticar seus demônios. Sem a colera e a revolta – meus dois combustiveis – todos esses desenhos nao existiriam.

Ilustraçao 8: O que é o fim? A trajetoria da minha vida foi tao sinuosa quanto radical. Sou um experimenta-tudo, passo meu tempo a trocar de estilo. Cada curva representa uma nova forma de me expressar. Hoje estou com o volante livre, sem permissao para dirigir.

Alguns titulos dele foram traduzidos para o português. Recomendo muito.

Quer mais? Algumas ilustraçoes que tirei do site do Museu Tomi Ungerer.

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Nada mais a declarar, além do meu amor por esse artista.

Camila Teixeira

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Sinais do apocalipse

Meu computador esta agonizando. Essa noticia, para mim, é uma espécie de prenúncio de que o fim do mundo é uma probabilidade muito mais provavel do que provavelmente se supoe.

O que torna meu computador precioso é seu teclado brasileiro em terra estrangeira. E quem tem olho em terra de cego é rei. Til, entao, nem se fala E’ tipo um ser divino. Acento agudo, A direto no dedinho esquerdo, cedilha, ponto final sem precisar apertar shift. Esse conjunto de detalhes faz do meu computador um objeto raro-esmeralda. Nao ouso imaginar o caos caso ele decida evoluir na vida e entrar para a eternidade.

Nao bastasse isso, existe ainda um outro agravante. Expirou hoje a licença do meu dicionário digital. Se fosse so isso, tudo bem. O problema é que tempos atras fui possuida pelo TOC de organizaçao da minha irma (fato que, isoladamente, é otimo). So que, fiel ao costume familiar, arrumei tudo tao bem que nao sei onde guardei o CD de instalacao. E agora não posso renovar minha licença.

Nao posso simplesmente ignorar esse conjunto de sinais apocalipticos e adotar um carpe diem despreocupado. Nao posso simplesmente dizer tudo bem e ir dar um passeio para contribuir com o ciclo da fotossintese. Tem dias que o mundo é grave.

Estou temporariamente orfa do meu computador. O universo nao é o mesmo sem ele.

 

Camila Teixeira

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Depressões e embutidos

O pior tipo de depressão é a depressão gástrica apetitósica. Funciona assim. Com ela, você continua vivendo consciente de todas as delícias do mundo e do formidável prazer que te proporcionariam durante uma interação mundana. Mais: você continua desejando essas delícias. Só que o buraco negro que gira numa velocidade alucinante na altura do seu abdome causa sérios efeitos colaterais nos cinco sentidos que utilizamos para experimentar o mundo. A consequência mais drástica é a ojeriza por algo que, num estágio normal da existência, adotaríamos. Ou seja, na depressão gástrica apetitósica, você evita o que quer, não quer o que deseja. Já na depressão nervosa, tudo é muito mais simples. Você não quer o que não quer. E está tudo bem, não há contradição. E não há nada pior do que não querer algo que se quer (sim, há pior, mas, em nome da coerência do post, aceitemos o fato de que não há nada pior do que não querer o que se quer).

Por outro lado, há uma certa sabedoria embutida na depressão gástrica apetitósica. É uma boa forma de despertar para a consciência de que, em muitos casos, embora não soframos dessa moléstia no cotidiano, seus sintomas parasitam nosso comportamento diário. Evitamos o que queremos.

É, é. É uma pena ter que passar por uma depressão gástrica apetitósica para obter alguma iluminação na vida. A conta da iluminação às vezes é um pouco salgada. Ou dá náuseas. Mas, enfim, passa. Saúde!

Camila Teixeira

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Corte

Chega uma hora em que seu corte de cabelo passa a ser incompatível com seu modo de vida. Aceite.

Quando cruzo a Ipiranga com a São João, meu cabelo é realmente um filhote de leão raio da manhã, e nesse momento eu sei bem o que acontece com o meu coração. Caetano é dos meus. Se bem que o cabelo dele agora tá bem mais comportado. É disso que estou falando.

Durante boa parte da minha vida, fui feliz com minha juba. Ainda mais depois que descobri os nomes que se pode dar às ondulações capilares que enfeitam minha cabeça: inglesas, curvas de boticelli, ondas. Inveje. Pouco importa em qual classificação eu entro, o que conta é que eu faço parte desse time de lindos nomes para a cabeleira – mesmo se a categoria na qual eu me enquadro com mais frequência é a do bad hair day, pra ficar numa expressão de TPM cabelística, ou então, pra colocar a culpa nas fases da lua.

Não sei que força a gente acha que o cabelo tem pra querer conservá-lo tão longo por tanto tempo. Quando você observa, a única força que ele tem é de roubar nosso tempo no banho, nosso dinheiro no cabeleireiro, nossa dignidade na foto. E vai esconder do universo aquele retrato do penteado new wave cultivado com todo carinho, nos anos 80.

Cortar o cabelo é o fim de uma época, um adeus permanente, é suicidar a história, um luto por vontade própria. É também acabar com aquele rastro de existência pelo chão da sala.

Porque é o desapego do desapego do desapego.

 

Camila Teixeira

 

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