Arquivo mensal: novembro 2012

ToXic

Quando terminei de ler ToXic (X’ed Out, título original), logo pensei que tinha duas opções. A primeira: passar batido, fazer cara de paisagem e fingir que não era comigo. A segunda: parar minha vida inteira para entender o mundo e o submundo de suas quase 30 páginas. Estava seguindo firme na primeira opção, quando Charles Burns, o autor, me deu um tapa bandido na cara e disse: acorda, menina! Ele puxou a minha orelha e disse: não vai sair daí até entender, pelo menos, dois quadrinhos da história.

Fiquei de castigo. Li e reli ToXic. Porque o problema é o seguinte: você não pode ler Charles Burns e achar que depois vai poder sair pra comer uma pipoquinha Nhac! numa boa. Não vai. Porque o Charles vai puxar teu pé à noite, ele vai se esconder dentro do teu armário, debaixo da tua cama, dentro do chiado da tua televisão. Ele vai te assombrar até você falar: tá, tá, tá, tá, tá! Porque é isso que ele quer, a tua alma, a tua confissão, os teus segredos. E se você tiver o mínimo gosto por HQ, ou pelo caos, pelo desconcerto, pelo estranho, ou simplesmente se você foi adolescente um dia na vida, ele vai vencer. Nem adianta lutar contra.

Primeira página, referência clara a Tintin. 

Para resumir muito, o universo do americano Charles Burns gira em torno das transformações, do mal-estar, da incompreensão, das dúvidas, dos medos e das turbulências que marcam o período entre a adolescência e o início da fase adulta. Ok, você vai pensar, todo mundo faz isso. Sim. Só que Charles Burns tem uma linguagem muito própria. Pra citar algumas: a mistura entre o sonho e a realidade, o consciente e o inconsciente; a manifestação do mal-estar psicológico dos personagens por meio de sequelas e feridas diversas pelo corpo; o mundo underground, a referência ao movimento punk, a violência, a monstruosidade.

O autor.

No caso de ToXic, Doug tem um machucado na cabeça, toma remédios para tentar se curar de um mal indefnindo, é aspirante a artista na cena punk, tem problemas com a família, tem uma namorada que se corta com uma lâmina de barbear para ser retratada numa foto polaroid, e ele se perde nas dimensões de um inconsciente assustador, que reflete seus medos reais, ou o contrário, que é a origem desses medos. Doug deseja sair dessa espiral, ele quer sair, mas não consegue. Está bloqueado. E ToXic é sobre isso, sobre esse desejo quase forte de encontrar uma saída. Alguns críticos falam que é a versão punk de Tintin, outros que é Tintin modo Twin Peaks.

O que me chamou atenção foi a forma que o autor escolheu contar a história. Os quadros são bastante clássicos, os desenhos são nítidos, claros, bem definidos e tudo isso é oposto do conteúdo da trama. O mundo perturbado de Doug em nada tem a ver com essa retidão. Você acha que está num mundo normal, mas é engano seu, béim. O contraste entre as duas linhas narrativas causa um efeito desnorteante, como se você tivesse levado uma bordoada na cabeça. Bem mundo real mesmo, tipo quando você passa manteiga no pão, enquanto lá no fundo do seu eu arde um inferno dantesco.

Pra falar a verdade, a monstruosidade retratada não é o tipo de universo que me atrai e ainda tem muita coisa da história que nem comentei. Mas Charles Burns é tão conceitual que não dá pra fingir que não viu. Não sei se  X’ed Out foi publicado no Brasil, mas Black Hole, sua obra mais famosa e que levou 10 anos para ser escrita, foi. Li somente alguns trechos, mas recomendo muito.

 

Camila Teixeira

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Embalagens, chocapic, HQ, etc.

Eu tô numa fase em que uma das únicas coisas que consigo terminar de ler é a nota explicativa do pacote de bisnaguinha, que aqui se chama fofamente petit pain au lait. Ou então da caixa de Chocapic. Imagina que existe uma diferença profunda entre a composição do Chocapic tradicional e seu equivalente orgânico. Na fórmula tradicional, tem 26,8% de chocolate em pó, enquanto no cereal orgânico essa porcentagem cai para 5,4% (sem perda alguma na qualidade gustativa). Enquanto a primeira tem 31% de trigo, a segunda tem 61%. Para você ver como tradicionalmente a gente come mais porcaria do que quando resolve olhar a etiqueta da embalagem.

Enfim, felizmente, tenho conseguido ler coisas um pouquinho mais extensas do que a embalagem do cereal (mas não muito). Embarquei forte na fase HQ, que se lê em uma horinha ou duas, mais ou menos. E os franceses são fortes em HQ, preciso dizer. Acabei de ler Quai d’Orsay – Crônicas Diplomáticas e – senhóóóór – como eu ri com o primeiro volume (de dois). Além de um desenho primoroso, em que quase se pode ouvir o que acontece nos quadrinhos, a trama é tão interessante quanto. Quai d’Orsay acompanha o início do jovem Arthur Vlaminck no Ministério das Relações Exteriores da França. Ele é contratado como conselheiro em discursos políticos para o ministro Alexandre Taillard de Worms (uma referência ao antigo ministro Dominique de Villepin).

Todo o primeiro volume gira em torno do estresse e das pressões que fazem parte do ambiente no qual Vlaminck caiu. Também é uma caricatura de como os discursos políticos são criados. Os temas são ricamente ilustrados pelos autores, o desenhista Christophe Blain e o roteirista Abel Lanzanc, esse último sob pseudônimo, já que foi na vida real um dos conselheiros do ministério retratado na história.

Uma das minhas passagens favoritas, na qual o ministro vai grifar um texto. 

O melhor de Quai d’Orsay é, sem dúvida, a construção do personagem do Ministro de Worms. Suas inspirações filosóficas, suas manias, sua presença retumbante, a força de suas palavras (delirantes e abstratas, em alguns casos) se misturam e formam um personagem tão carismático que dá até vontade de convidá-lo para comer um Chocapic no café da manhã, num dia desses.

TAC, TAC, TAC. THAC, TCHAC, TCHAC. Ri demais.

O volume dois eu gostei menos, embora tenha a mesma qualidade. O problema é que eu achei os personagens da trama menos idiossincrásicos que no primeiro volume. Falarei dele num dia em que não tiver que ler etiquetas de embalagens.

Camila Teixeira

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Apaga tudo

Por um erro de manipulação, apaguei todas as músicas do meu telefone. Sabe aqueles instantes em que sua barriga dá um nó e sua bochecha queima igual churrasquinho de gato? Bateu um desespero abesoloto, afinal, minhas músicas são minha vida, em resumo, ou quase.

Para minha salvação, os originais estão moito bem guardados num local secreto. Mas o problema era: como reconstituir a playlist?

Lá fui eu amargurada recomeçar do zero. Foi quando me dei conta de que apagar tudo foi a melhóóóóór coisa que aconteceu. Olhei pasta por pasta do meu arquivo semi-infinito e vi que tinha deixado muita coisa de fora. Minha antiga playlist não era exatamente minha playlist, mas o que se costuma ouvir por aí.

Compilei tudo de novo. Aléveo profondo ao ligar meu mp3 e ouvir só o que gosto.

Faz o teste. Apaga tudo e ouve só o que você gosta e não aquilo que indicaram, que alguém gostou, que você viu não sei onde.

Eu não devia fazer um post desse a essa altura do campeonato: 22 anos de idade num domingo outonal, enquanto troco as lentes de contato dos meus lindos olhos azuis (que um dia terei). Esse é o problema de ouvir Green Day. A gente acha que é jovem.

 

Camila Teixeira

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Dansei

Quandi li A Metamorfose, fiquei pensando se um dia atravessaria alguma transformação radical a ponto de não perceber o processo de mudança. Apenas acordaria um dia, me olharia no espelho e BÚ. Porque as transformações radicais são justamente essas que a gente nem percebe que está atravessando. São as mais perigosas também. Num dia, você acha que está tudo sob controle e, no dia seguinte, está escrevendo dansa ao invés de dança. Tsc, tsc, tsc.

Nesse tipo de transformação, você não tem como se defender. Você apenas muda – contra sua vontade, a favor de algo, uma incógnita, uma corrente, um X que você não sabe ao certo o que é. E isso é muito grave e preocupante. Se você é capaz de escrever em público dansa sem se dar conta do erro é sinal de que algo muito profundo está borbulhando nos confins do teu eu. E eu não gosto que nada borbulhe nos meus confins sem minha autorização expressa, se é que estou sendo clara.

A dansa me fez cair na real. De nada adianta ter corretor ortográfico se você não usa a ferramenta.

A gente nunca sabe o suficiente, é bom lembrar. Ainda mais durante uma metamorfose.

Acho que todo mundo sabe disso. Mas enfim, nunca se sabe.

 

Camila Teixeira

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