Arquivo mensal: outubro 2012

Polina

Às vezes eu queria que o mundo inteiro falasse francês. Seria ótimo perguntar em francês a um nômade da Mongólia quanto tempo ele fica em cada acampamento e vê-lo responder algo tipo: não conto o tempo, conto a necessidade. Ou então: o tempo que o tempo deixa. Se ele me desse uma dessas respostas, eu cairia dura no chão ao constatar que toda a ideia que faço desse povo é absolutamente verdadeira. E o mais importante é que ele entenderia minha pergunta e eu a resposta. Ele poderia falar português também, óbvio, mas o português não cabe exatamente no causo que quero defender nesse post, que é o seguinte: me apaixonei por uma HQ francesa. E se o mundo inteiro falasse francês, o mundo inteiro poderia ler a mesma história que acabei de ler. E, sei lá, ficar um pouco feliz também, se não for sonhar muito.

Quando cheguei aqui, durante minhas primeiras visitas às livrarias, fiquei espantada com a profusão de HQs nas estantes. Tem de tudo: monstros, fantasmas, naves espaciais, horrores do mar, guerreiros do futuro armados com pistolas gigantes. Até que no meio desse ambiente hostil, vi a capa de uma HQ diferente das outras: uma bailarina em exercício. Era Polina. Fiquei intrigada com a diferença temática entre essa HQ e as demais, mas na ocasião não pude ir adiante e ver do que se tratava.

Ontem o dia chegou e, senhóóóóór, ainda bem que esse rapaz, Bastien Vivès, o autor, existe. É um moço de 27 anos, aparentemente discreto, mas de uma sensibilidade profunda. Tanto que eu até duvido que ele saiba que é tão sensível assim. Acho que ele nem sabe que é tão profundo. Porque as pessoas que são profundas não sabem que são profundas. Elas são. Enfim, pouco importa.

O Gosto do Cloro

Primeiro eu li O Gosto do Cloro, uma HQ que me fisgou por se passar numa piscina. A capa é uma menina de costas, de touca, colocando oclinhos, enquanto é observada por um garoto dentro da piscina. A história é simples: o encontro de um rapaz e uma menina. E também de toda a ansiedade do garoto nos dias em que vai nadar. Será que ela vem, será que já está lá, será que vai falar comigo? Além da história tem também a estética. NO Gosto do Cloro, os quadrinhos são limpos, poucos traços, mas muito justos e cheios de perspectivas que retratam com exatidão o tempo de quem já passou mais de 20X25 metros dentro de uma piscina. As observações, as cenas, os mergulhos, o fôlego, a espera, a calma. Está tudo lindamente retratado por Vivès.

O ponto alto da história é o golpe do suspense. Nas cenas finais do livro, a menina chama o rapaz para ficar debaixo da água. Ela fala alguma coisa para ele, mas ele não consegue entender. Mais tarde ele pergunta a ela o que ela disse. Ela diz que contará na semana seguinte. É tipo a mesma cena de Lost in Translation, quando a Charlotte diz alguma coisa secreta no ouvido do Bob Harris. Para quem fala português (enfim, aqui entra a parte em que eu queria que o mundo inteiro falasse português), os movimentos que ela faz com a boca parecem muito com um “eu te amo”, mas no estágio em que se encontra a relação dos dois, é pouco provável. Mas que parece, parece.

O ponto fraco está na repetição de alguns diálogos e frases, como se o autor não soubesse o que colocar na boca dos personagens. Ou como se quisesse enfatizar a falta de assunto entre eles. Se for a segunda opção, ele não precisaria ter insistido taaaanto na repetição, já que a expressão dos personagens já deixava isso bem claro.

Pooooor isso, resolvi passar para uma segunda opinião. Parti para Polina. Não tinha lido nenhuma resenha, nenhum resumo sobre a história. Só sabia que tinha recebido ótimas críticas.

Polina

Polina é de uma delicadeza infinita. É a história de uma bailarina russa, dos seus seis anos até a idade adulta. É a história das marcas de sua infância na idade adulta, e de como Polina reage aos eventos inesperados da vida. Ou de como ela briga e se reconcilia. Para resumir, acho que é a história da coragem de Polina.

Logo na primeira página, dá para sentir o tom empregado por Vivès. Polina está no carro com sua mãe, indo para escola, onde passará por um teste de balé. Sua mãe diz:

Você precisa se concentrar em tudo o que já estudamos. Você conseguiu alongar um pouco hoje de manhã?

(Polina) Sim.

(Mãe) E aí, tá se sentindo melhor?

(Polina) Tá dolorido ainda.

(Mãe) Se o professor Bojinski vier testar sua flexibilidade, presta atenção para não demonstrar nada da tua dor.

Uma das minhas páginas preferidas. Polina faz uma pirueta para um grupo de pequenas bailarinas.

Quando termina, todas querem fazer uma pergunta a ela. 

Os traços dessa HQ são menos limpos, mas isso não interfere em nada a leitura. Por outro lado, é impressionante a capacidade de Bastien Vivès de captar e reproduzir os movimentos do corpo. Embora Polina não seja exatamente uma história sobre a dança, a HQ é quase um documentário sobre o assunto.

Polina é um tanto de delicadeza sobre a dureza da vida.

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Atualização

No final do texto, escrevi dansa e não dança (já corrigi). Oups. Coisas que só a proximidade entre duas línguas, o português e o francês, faz por você, visto que em francês é danse.

Estou em processo de metamorfose e nem percebi.

Camila Teixeira

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