All that you cant leave behind

As vitrines francesas têm uma vantagem e um grande problema. Quando digo vitrine, falo principalmente dos mercados das pulgas e dos bouquinistas de Paris. A vantagem é que, geralmente, são lindamente decoradas. O grande problema é a dificuldade para tirar foto delas – os proprietários não deixam. Ainda não consegui achar uma explicação para o fato de que vendedores franceses não gostam de ter suas mercadorias fotografadas. Ó vida.

 

 

Depois de várias experiências frustradas, concluí que tirar fotos de vitrines francesas proporciona uma sensação semelhante àquela que antecede um delito. Não que eu seja uma delinquente de primeira linha. Mas o fato é que essa modalidade fotográfica me causa a mesma sensação que me faz evitar um delito. É uma aventura arriscada, um coração que vem na boca, uma falta de jeito, um frio na barriga, um medo de que o proprietário da mercadoria me pegue no flagra e venha descontar seu mau-humor sobre mim com um “não pode” seco e carrancudo.

 

 

Fui até obrigada a desenvolver métodos para conseguir tirar algumas fotinhas valiosas. Método número um: tirar a foto e sair correndo. Dois: deixar tudo programado, esperar o proprietário virar as costas e fazer o click no vacilo dele. Três: dar de louca e fingir que não entendo nada. Quatro: tirar foto com os olhos e guardar a imagem na memória. Cinco: enfrentar o proprietário.

 

 

Um tempo atrás, teve um mercado das pulgas na cidade onde moro. Eu estava em estado de graça, tentando recriar naquelas fotos o cheiro do doce queimado que minha vó fazia. Até que um senhor, o proprietário, veio e brigou comigo: “não pode tirar foto”. Minha alegria foi partida ao meio, na guilhotina, sem que eu tivesse qualquer chance de defesa.

 

 

Episódios como esse se repetiram várias vezes desde então. Fotografar vitrines virou um esporte de alto risco para mim. A verdade é a seguinte: alguns saltam de parapente. Eu tiro foto de velharias de velhinhos ranzinzas em feiras ao ar livre. A adrenalina resultante é a mesma, tenho certeza.

 

 

Ainda tento entender por que os proprietários não gostam de ter seus produtos fotografados. Talvez não queiram dividir seus pertences com ninguém, apenas vender.

Não sei como essa gente consegue se desfazer de coisas assim.

 

Camila Teixeira

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2 pensamentos sobre “All that you cant leave behind

  1. Helena disse:

    Lindas fotos, especialmente aquela com as botas ♥
    Eu sempre tive problemas pra fotografar na França, principalmente pessoas. Elas te olham como se tu fosse um criminoso. Tenho várias fotos das pessoas escondendo o rosto, mesmo se a foto foi feita de longe, num parque. Uma das coisas que nunca vou entender (até entendo, mas não concordo, não gosto) é essa “proteção” que eles criam em torno deles…aqui é tão mais fácil alcançar uma pessoa em todos os sentidos…

  2. Só na sua cabeça disse:

    Por isso desisti por completo de fotografar pessoas. Deixo essa modalidade para os fortes.
    E que bom que gostou das fotos, obrigada ; )

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