Arquivo mensal: julho 2012

O intrigante ET de Paris

Eu nunca tinha ouvido falar de Leos Carax (oups) até o Festival de Cannes desse ano, quando o diretor francês apresentou seu Holy Motors. O filme conquistou os críticos, mas também dividiu opiniões. Esquisito e genial, louco e chato, entediante e eufórico. Fui fazer o tira-teima ontem.

 

 

Na sala, cinco pessoas além de mim. Na tela, uma sequência de nove histórias. Sr Oscar, incrivelmente interpretado por Denis Lavant, percorre Paris numa limusine branca, dentro da qual existe um camarim que ele utiliza para se fantasiar de louco, pai de família, assassino, intérprete de motion-capture, músico, moribundo, mendiga. Para cada “papel”, ele recebe um roteiro a seguir e que identifica as pessoas que deve encontrar. Até aí, normal. Não, engano. Nada é normal em Holy Motors.

A originalidade é o grande destaque do filme, com cenários e situações inusitadas. Pegue o exemplo do louco encardido, o Sr. Merda, que surge de um bueiro no meio de um cemitério e sai comendo todas as flores postas sob os túmulos, cujas lápides indicam: visite meu website. Ou então o intérprete de motion-capture que simula uma luta de kung-fu e a cópula de dois monstros. Ou então do homem que assassina um outro homem semelhante a ele mesmo. Holy Motors é uma experiência visual de impacto, cheia de detalhes. E é num desses detalhes que Leos Carax deixa uma referência a ele mesmo. Na placa de um carro em primeiro plano está a inscrição ET 75, sendo 75 o número que indica a região parisiense. O ET de Paris.

O filme tem poucos diálogos, mas alguns deles bastante existenciais. A mendiga que pede dinheiro na ponte mais luxuosa de Paris pensa: “sou tão velha que tenho medo de não morrer”. Ou então, a filha que mentiu ao pai pergunta a ele se vai ser punida. Ele responde: “sim, sua punição será continuar sendo quem você é”. Ou ainda o chefe que pergunta ao homem: “o que te faz continuar, Sr Oscar?”

Andei olhando o que disse a crítica. Engraçado como cada jornalista teve uma impressão diferente sobre o tema de Holy Motors. Seria o próprio cinema? Uma autorreferência? Distúrbio de múltiplas personalidades? Reencarnação? Até poucos minutos antes do fim, não tinha conseguido formar nenhuma teoria sobre o assunto do filme, mas um diálogo entre o Sr Oscar e uma mulher me salvou. Holy Motors é uma referência à vida que a gente leva, aos diversos papéis e máscaras que assumimos para agradar aos outros em detrimento do nosso próprio prazer de viver. A música de Gerard Manset de umas das cenas finais diz: “gostaríamos de reviver, reviver a mesma coisa, refazer quem sabe o grande percurso, refazer novamente o que se ama”.

Gosto da minha teoria porque ela me permite gostar do filme. Qualquer uma das outras propostas me faria acha-lo esnobe, prolixo, enfadonho, umbiguista. Recomendo, nem que seja pela experiência visual.

 

 

Camila Teixeira

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Em Paris

Para um turista em Paris, qualquer perrengue torna-se rapidamente em um perrengue glamour. Afinal, não é todo dia que cai um teco de sorvete na sua querida blusa EM PARIS. Não é todo dia que se enfrenta uma megafila debaixo de um sol escaldante EM PARIS. Que se pega um programa furado EM PARIS. Que se testemunha uma festa de aniversário dentro de um metrô lotado EM PARIS.

O fato de estar em Paris funciona como um curativo psicológico para tudo o que dá errado durante a viagem. A gente apanha, mas é por um bom motivo. É o que dizem.

Em Paris, a gente se deixa encantar com qualquer poça d’água no meio de um jardim, com uma estátua branca sem braço e sem cabeça, com uma bicicleta estacionada na frente de um prédio de fachada austera, mas florida. É assim.

Paris tem essa propriedade que poucos lugares têm de fazer a gente ver beleza onde não tem; ou então de colocar as coisas nos seus devidos lugares; ou ainda de inverter a prioridade das coisas: o que é um machucado no pé diante da Fontaine Médicis?

A gente supera o indesejado com mais facilidade. Em Paris não há tempo para a feiura.

 

Camila Teixeira

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Romantismo em Paris

Vamos deixar uma coisa bem clara: ao contrário do que diz o mundo inteiro, Paris não é nada romântica. Eu gostaria de conhecer a pessoa que teve a ideia de associar Paris a romantismo para poder perguntar-lhe por que raios resolveu dividir esse engano com o resto da humanidade. Paris pode ser tudo: bonita, chique, organizada, histórica, luxuosa, obrigatória, etc, etc, etc. Mas romântica definitivamente ela não é. Ou melhor: ela poderá ser se você for rico o suficiente para poder pagar por um pouco de exclusividade e um quarto de hotel lindamente decorado. Ou então se você já for um local e conhecer os programas fora do circuito turístico. Ou então se você estiver vendo algum filme que se passa na cidade. Do contrário, bem-vindo ao clube dos frustrados com a propaganda enganosa.

Reuniãozinha íntima com meu amor: abraçando o mundo.

Reuniãozinha íntima com o meu amor: abraçando o mundo!

Porque acontece o seguinte, vamos deixar isso muito claro para quem acredita que, ao chegar na cidade, verá corações de fumaça sair do escapamento dos carros, ou que o bife terá a forma de uma rosa, ou que um misterioso desconhecido terá arranjado um jeito de deixar um anel de brilhantes em cima do seu travesseiro: Paris é, principalmente nos meses de julho e agosto, uma estação de metrô de São Paulo às 18h na véspera de feriado. Só que o dia inteiro, todo dia.

É duro ouvir isso, eu sei, mas é a mais pura verdade. Se você vai a Paris procurando romance, saiba que, ao invés de encontrá-lo, dará de cara com filas quilométricas para visitar um museu megalotado, para comprar uma garrafinha de água de 250 ml por 2,50 euros, para tentar fazer xixi em paz num banheiro mais ou menos limpo, para comprar um sanduíche seco. Sem contar algumas cotoveladas para poder ver os monumentos mais conhecidos, o próprio metrô lotado, as milhares e infinitas escadarias espalhadas pela cidade, a pressa que te obriga a dar uma olhada rápida por cima das obras que você achava que veria com tranquilidade, o trator da programação de visitas do dia, a dor nas pernas e na sola dos pés de tanto andar, e a foto-lembrança na qual você estará ao lado do seu amor e de mais 500 mil desconhecidos. Você abraçando o mundo. É uma ideia romântica, oras.

A boa notícia é que, com esse mar de gente com quem você será obrigado a dividir a paisagem, você terá uma ótima desculpa para ficar coladinho no seu amor. Ok, vai. Fazendo um esforço, isso também é romantismo. O resto é exagero meu.

Camila Teixeira

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