Arquivo mensal: junho 2012

Considerações sobre a estupidez

“In order to move on, you must understand why you felt what you did and why you no longer need to feel it.”

Mitch Albom, Five People You Meet in Heaven

Há algum tempo, venho me interessando por esse fenômeno curioso que é a estupidez. A razão é simples: embora eu deseje do fundo da alma acreditar na lucidez e na bondade humana, e mais, quando eu consigo ter um vislumbre concreto dessas propriedades, vem o ser-humano, o próprio, e estraga tudo. Em situações mais graves, chego inclusive a me espantar quando percebo que o homem é capaz de algum tipo de amor e altruísmo sinceros.

Ao mesmo tempo, tenho plena consciência de que essa tarefa que me deleguei, a de compreender a estupidez, é ingrata, pois, já reparei, a estupidez é imprevisível. Ela surge onde menos se espera e brota no ser-humano como um herpes comportamental repentino e gigantesco. Mesmo assim, tento me convencer de que existem meios de apreendê-la.

Minha teoria sobre a estupidez é composta por três partes.

1. Causa

Estar vivo e ser humano.

2. Condições que favorecem sua ocorrência

O estresse. Assim como ocorre no herpes comum, a estupidez tem grandes chances de se produzir após uma forte descarga de estresse. Portanto, se você perceber que alguma pessoa está estressada em níveis alarmantes pode ter certeza de que dali nascerá uma estupidez.

A onipotência e a ignorância. Pessoas que acreditam possuir um poder superior, ou ainda os que ignoram por completo as regras de convivência social são mais propensas à estupidez.

3. Características e profilaxia

A. Im/Previsibilidade.

Ter em mente que a estupidez é imprevisível já seria uma forma de proteção contra seus golpes malignos. Quando a estupidez imprevisível chutar, já teremos o espírito preparado para amortecer, pelo menos, seu impacto. Outra forma de se preservar é, obviamente, esperar a estupidez dos estúpidos costumeiros.

De qualquer maneira, não dá para ficar muito feliz. Mesmo se conseguirmos nos defender do impacto, dificilmente conseguiremos nos proteger da sensação natural e corrosiva que geralmente sobe pela nossa espinha, diante de uma situação estúpida. Para conter essa sensação, só praticando a respiração diafragmática durante milênios.

B. Prazer e culpa.

A estupidez pode acarretar dois tipos de sensação ao estúpido. Se for um estúpido consciente do seu ato, é provável que a sensação resultante seja o prazer, ou até mesmo o orgulho. Já o estúpido por acidente possivelmente sentirá alguma forma de culpa.

C. As leis.

As leis deveriam nos proteger das formas mais graves de estupidez. Só que elas têm quatro problemas:

  • o estúpido não está nem aí para elas.
  • para o verdadeiro estúpido, as leis representam uma força que chega com lentidão após o ato estúpido, o que reforça o postulado acima. Isso se os envolvidos no caso, na tentativa de enquadrar o estúpido, também não forem estúpidos ao ponto de passar por cima, eles também, das leis que nos protegem (cof).
  • as leis são incompreensíveis em seu enunciado e talvez por isso ninguém as entenda/respeite. Temos aqui, ora, um excelente nicho que poderia, enfim, ser adotado como causa nobre pela publicidade. Se as leis fossem redigidas por publicitários, quem sabe até por jornalistas ou professores do primário, talvez pudéssemos esperar argumentos mais esclarecedores ou persuasivos e, portanto, apostar na decadência da estupidez, hoje, infelizmente, em alta.
  • a única lei que parece combinar com a lógica da estupidez (mas que não a justifica) é a lei da sobrevivência.

De qualquer maneira, parece que ainda não existe um aciclovir contra esse tipo de herpes. (Ora, veja, temos aqui um outro ramo que poderia render rios de dinheiro à indústria farmacêutica). Portanto, a única coisa que se pode tentar contra a estupidez é a distância. No mais, cuidar para que a corrosão que nos sobe pela espinha não se torne uma fonte inesgotável de estresse de forma a nos transformar em mais um herpes ambulante.

 

Camila Teixeira

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Boas notícias

Há dois dias, fiz o post abaixo, que coloquei nas minhas redes sociais, assim, de brincadeira, para ver se alguém se candidatava a responder. Curiosamente, recebi zero resposta. Minha primeira reação é pensar que minha presença nas redes sociais é irrelevante, afirmação que me parece perfeitamente possível e que justificaria o número de respostas que obtive. Mas, em seguida, considerei que, apesar de possível, não era a mais apropriada, afinal, vez ou outra, o mundo interage virtualmente comigo e a gente troca umas figurinhas fofas.

E se não é isso, sobram dois grupos de hipóteses a considerar.

 

GRUPO A – Sobre as boas notícias

a) Ninguém quer dividir suas boas notícias, o que seria algo muito triste, ou

b) As boas notícias estão em falta, o que seria pior, ou

c) A gente não sabe identificar as boas notícias, o que seria desesperador.

 

GRUPO B – sobre as redes sociais

a) Meus contatos têm mais o que fazer, além de responder meus posts bobos, o que seria compreensível e demonstraria que as redes sociais são uma perda de tempo, ou

b) Nas redes sociais, cada um só olha o próprio perfil, o número de retuites, curtidas e afins que recebe, sendo todo o restante spam e orkutização, o que seria um bom reflexo da umbiguização da nossa era, ou

c) Eu não devia me preocupar com o número de respostas que obtive & bobagens similares, o que significaria que existir virtualmente é totalmente desnecessário & nova fonte de angústia, ou

d) Existir virtualmente = existência de fato, o que, nesse caso, demonstraria como devo progredir na vida.

 

Estou profundamente desnorteada.

Alguém, por favor, me dê uma boa notícia.

 

Camila Teixeira

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Make a wish

Por favor, me dê uma boa notícia.

Obrigada

 

Camila Teixeira

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Vida selvagem

Ou bucóóóólica.

Aqui vão algumas fotinhas da útlima fonte da juventude que encontrei enquanto atravesso o deserto nublado dos últimos meses.

Encontrei um pacapó (cavalo, no idioma do tigre) tão simpático, que me deu um sorriso tão lindo e sujo de capim que resolvi homenageá-lo com várias fotinhas.

Camila Teixeira

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Lições cinematográficas

Eu me sinto grata quando consigo tirar alguma lição útil de um filme ou de um livro, ainda mais se é uma obra que, a princípio, não teria grandes lições de vida para dar. Só nessa semana, consegui identificar três obras cinematográficas que, devido ao meu atual contexto, posso rotular como “portadoras de um grande ensinamento”.

A que mais merece meu apreço no quesito “mestre” é O Iluminado. Veja. Não há nenhum indício de que a história de um homem que fica terrivelmente maluco ao se instalar num hotel vazio durante o inverno possa trazer algum tipo de lição vital. Todavia, há um ensinamento maior nessa obra, ao qual devemos ficar atentos e JAMAIS ousar contrariá-lo de forma consciente. Esse ensinamento é o seguinte: não ficarás longe do sol, do calor e do céu azul por mais de seis meses seguidos.

Minha teoria é que Jack Nicholson não fica maluco por causa do isolamento, nem por causa das forças sobrenaturais ou do alcoolismo. Certo, todos são agravantes, mas a causa, a origem de sua loucura está no fato de que ele ficou longe do sol por um tempo demasiadamente longo. Ou você acha que ele piraria o cabeção se aquele hotel sinistro estivesse na beira de uma praia deserta de água cristalina, ele deitadão numa canga de motivos tropicais, tomando todas as tubaínas do mundo, comendo sanduíche de atum com maionese e frutas frescas, a mulher dele descascando a pele solta das costas dele, enquanto o filho solta pipa na brisa? Em última medida, se estivesse calor na história, O Iluminado não existiria.

Perceba, manter o sol e o calor a uma proximidade segura é uma lição que se deve levar para a vida inteira e ainda transmitir para netos e bisnetos.

Dito isso, é realmente uma pena alguns aprendizados virem tarde demais na nossa timeline. Quando assisti ao filme, era época da fita VHS e só hoje, séculos depois, consegui constatar a lição que Stephen King quis transmitir com essa obra de dimensões humanitárias. Atualmente, sou obrigada a fazer de um raiozinho mirrado de sol uma verdadeira fonte da juventude, o que é deveras complicado, demanda uma boa dose paciência budista, autoenganação ou visão positiva, estilo, pelo menos não está nevando.

Junho já avançou na metade do calendário e o sol ainda não apareceu. Vou ser obrigada a ir atrás dele, nem que seja dando marretadas na porta de casa.

 

Camila Teixeira

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