Amigo secreto

Quando eu era pequena, minha família fazia amigo secreto no natal. Acabar com o enigma do quem-tirou-quem era divertido, só que eu preferia as semanas que antecediam o dia da revelação, quando era possível trocar bilhetinhos anônimos. Que aventura escrever uma mensagem, colocar na caixinha que ficava na estante da casa da Vó. Para mim, era uma caixa sem fundo, na qual o bilhetinho mergulhava e depois flutuava durante eras e eras até chegar ao destinatário. Até que, do nada, surgia um bilhetinho para mim, engraçado, humorado, misterioso e que, em poucas linhas, revelava como o secreto me conhecia bem. E isso me intrigava. Como o oculto pode saber tanto sobre mim? Era como se uma força cósmica de outra galáxia resolvesse me mandar um bilhete. Se fosse nos dias de hoje, seria como receber uma carta escrita a mão pelo Sol. Oi, tá calor aí?  Eu achava o máximo ser escolhida pela força cósmica como seu interlocutor privilegiado. Eu era a escolhida. E trocar ideias com o desconhecido era um tanto assustador, mas demais de fascinante.

(…)

Daí a Folha Online publicou dia desses algumas cartinhas que escritores mandariam para os seus amigos secretos. Achei a ideia legal e, como estava mesmo procurando um tema natalino para comentar, resolvi reproduzir o modelo.

Aqui vai a minha:

Oi, Hosdjwfens,

Queria dizer que não precisa mais se preocupar em me mandar um cartão postal da sua cidade natal. Eu já saí da corrente. Aliás, eu desisti da corrente dos postais quando, em 1985, fiquei esperando ansiosamente o cartão que você não me mandou. Mas, sabe, foi ótimo ficar imaginando durante todo esse tempo como seria o lugar onde você mora, aí na Escandinávia. Também fiquei imaginando se o nome de todos os seus conterrâneos se escreve apenas com consoantes. ASDFG. QWERT. RSRSHSH. LAKSJL. Haha, achei engraçado (desculpe). É que não sei ler o seu nome direito. Também não tenho a mínima ideia da sua aparência. Não sei nada sobre você, a verdade é essa. E você também não sabe nada sobre mim. Que coisa, não? Fomos ligados por uma corrente aleatória sem sentido. E agora fica a minha pergunta: se a gente não se conhece, por que esperei tanto notícias suas? E que razões você teria para enviá-las? Mas, enfim, você quis participar da corrente dos postais. E eu também. Você não me mandou nenhum, eu não o recebi. Não sei se um dia você pensou em mim. Eu, em todo caso, nunca me esqueci de você. Feliz Natal pra ti também.

 

Camila Teixeira

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