A função do gostar

Eu sempre penso se o que gosto sou eu que gosto de verdade. Ou se é o gosto de outra pessoa. Se você chegou aqui achando que o que gosta é gosto seu, sinto informar que nada ou pouco do que gosta você gosta porque simplesmente gosta. Porque o gostar, repare, é um ato de integração social. Poucas coisas podem ser tão maquiavelicamente manipuladas quanto o ato de gostar.

Complicado? Nada, boba. Funciona assim. Você gosta de um cara. Ele gosta de pudim de chá de boldo e de passar o domingo vendo pegadinha na televisão. Hm. Apesar disso, você gosta do sujeito. O que você faz? Um esforço descomunal para fingir que se interessa pelo hobby dele. E daí, cria-se a empatia, a semelhança, a proximidade, requisitos básicos para iniciar a relação amorosa que você deseja.

Ou então, meu amigo. Você está numa entrevista de emprego. Você precisa desesperadamente desse emprego. A empresa fabrica armas nucleares. Você odeia armas nucleares, mas precisa pagar suas contas ou morre porque tem um agiota bandido atrás de você. O que você faz? Diz que é fã do Rambo, do Comandos em Ação e que passou sua infância inteira jogando batalha naval.

É assim. A gente gosta porque o outro gosta, por conveniência, para parecer, por integração, porque precisa, por interesse, por vingança, por influência, para provocar, para disfarçar, por obrigação, para agradar, para impressionar, por costume, para não se sentir só.

Quanto do gostar é realmente puro, é realmente amor?

 

***

 

PS: Gostou do meu texto?

 

Camila Teixeira

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4 pensamentos sobre “A função do gostar

  1. Sandro Mendes disse:

    Muito bem colocado Cá….

    As pessoas gostam e não questionam porque gostam, elas sequer se questionam a respeito deste gosto.

    Aproveito a deixa para lançar a campanha: aprenda com as crianças chatas.

    A gente acha que ensina algo às crianças, mas não. Elas (ou seja, nós mesmo viu o cara pálida) possuem um dispositivo natural e maravilhoso de aprenderem sozinhas, sobretudo as chatas. Então elas fazem uma pergunta, a gente responde bem. Em seguida perguntam por que, a gente se complica, mas sai alguma resposta. Mais uma vez, outro por que, a gente se atrapalha, perde o raciocínio, viaja e fala qualquer coisa. E… por que outra vez… daí a gente dá um potinho de sorvete pra criança, encerra o assunto e acha que está tudo certo. Nisso a criança aprendeu como comer porcariada fora de hora.

    Então, recomendo que perguntemos 3 por-ques para tudo, principalmente para aquilo que gostamos.

  2. Só na sua cabeça disse:

    san, eu até nem culpo que usa o gostar para outros fins que o próprio gostar. é uma ferramenta muito útil do dia-a-dia. só acho necessário saber que, em muitos casos, o gostar não tem aquela pureza intocável.

    quanto aos por ques da molecada, aguardo essa fase com cautela (=medo)…hehe. mas já achei uma larousse infantil com várias respostas para várias perguntas. vou comprar todos os volumes por precaução ; )

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