Arquivo mensal: dezembro 2011

Guilhotina

Eu fiquei pensando no que desejar para 2012. Rapidamente, me dei conta de que não será um ano como os outros, afinal, será o ano do fim do mundo. Sendo assim, eu mudei minha pergunta. O que se deve desejar diante do fim? O que seria grandioso o suficiente para tornar o fim menos bruto, menos duro, menos guilhotina? Desejar ainda mais? Querer ainda mais? Obter ainda mais?

Justamente, pensei. O maior conforto que se pode ter diante da guilhotina é perceber que não se quer mais nada. Que tudo de bonito e bom já foi feito, obtido, realizado e partilhado. Que os dias vividos até agora foram suficientes para experimentar a vida. E sentir o conforto profundo de saber que foi uma vida bem vivida.

E se, de repente, por um milagre, a gente perceber que a guilhotina passou mas não cortou, poder pensar, ufa, ainda tenho mais um bônus. Uma extensão de tempo para desfrutar do que faz bem, para corrigir o erro, para seguir em frente. Um alívio extra, mas sem garantia de duração, afinal, a guilhotina é todo dia.

A sincera e honesta sensação de que o que vier é lucro.

Feliz fim do mundo.

 

 

Camila Teixeira

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Camila Teixeira

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Amigo secreto

Quando eu era pequena, minha família fazia amigo secreto no natal. Acabar com o enigma do quem-tirou-quem era divertido, só que eu preferia as semanas que antecediam o dia da revelação, quando era possível trocar bilhetinhos anônimos. Que aventura escrever uma mensagem, colocar na caixinha que ficava na estante da casa da Vó. Para mim, era uma caixa sem fundo, na qual o bilhetinho mergulhava e depois flutuava durante eras e eras até chegar ao destinatário. Até que, do nada, surgia um bilhetinho para mim, engraçado, humorado, misterioso e que, em poucas linhas, revelava como o secreto me conhecia bem. E isso me intrigava. Como o oculto pode saber tanto sobre mim? Era como se uma força cósmica de outra galáxia resolvesse me mandar um bilhete. Se fosse nos dias de hoje, seria como receber uma carta escrita a mão pelo Sol. Oi, tá calor aí?  Eu achava o máximo ser escolhida pela força cósmica como seu interlocutor privilegiado. Eu era a escolhida. E trocar ideias com o desconhecido era um tanto assustador, mas demais de fascinante.

(…)

Daí a Folha Online publicou dia desses algumas cartinhas que escritores mandariam para os seus amigos secretos. Achei a ideia legal e, como estava mesmo procurando um tema natalino para comentar, resolvi reproduzir o modelo.

Aqui vai a minha:

Oi, Hosdjwfens,

Queria dizer que não precisa mais se preocupar em me mandar um cartão postal da sua cidade natal. Eu já saí da corrente. Aliás, eu desisti da corrente dos postais quando, em 1985, fiquei esperando ansiosamente o cartão que você não me mandou. Mas, sabe, foi ótimo ficar imaginando durante todo esse tempo como seria o lugar onde você mora, aí na Escandinávia. Também fiquei imaginando se o nome de todos os seus conterrâneos se escreve apenas com consoantes. ASDFG. QWERT. RSRSHSH. LAKSJL. Haha, achei engraçado (desculpe). É que não sei ler o seu nome direito. Também não tenho a mínima ideia da sua aparência. Não sei nada sobre você, a verdade é essa. E você também não sabe nada sobre mim. Que coisa, não? Fomos ligados por uma corrente aleatória sem sentido. E agora fica a minha pergunta: se a gente não se conhece, por que esperei tanto notícias suas? E que razões você teria para enviá-las? Mas, enfim, você quis participar da corrente dos postais. E eu também. Você não me mandou nenhum, eu não o recebi. Não sei se um dia você pensou em mim. Eu, em todo caso, nunca me esqueci de você. Feliz Natal pra ti também.

 

Camila Teixeira

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O postulado (in) feliz

Dia desses li um texto sobre dois psicólogos/pesquisadores que traçaram um paralelo entre o funcionamento da mente humana e a felicidade. Os autores dizem: “A human mind is a wandering mind, and a wandering mind is an unhappy mind”. Em seguida, eles completam “The ability to think about what is not happening is a cognitive achievement that comes at an emotional cost”.

No momento em que li, instantaneamente achei que era algo evidente e que, enfim, alguém tinha conseguido apontar por meio da lógica a causa da felicidade ou da infelicidade. De fato, passamos boa parte do tempo pensando naquilo que não temos, por maior que seja nossa coleção de bens materiais e imateriais. E isso tem um peso.

Só que, logo na sequência, algo me soou estranho. De uns tempos pra cá, eu vinha achando o contrário, que a felicidade é fundamentalmente ter o que buscar. E ter o que buscar é, em princípio, se dar conta daquilo que não temos. Eu estava feliz com esse meu postulado, pois ele elucidava perfeitamente meu estranhamento ao observar o funcionamento do mundo.

Quantas vezes já não vi situações contraditórias de pessoas realizadas e de grandes posses, mas, ainda assim, infelizes. Quantas vezes já não vi pessoas humildes, ou em busca de seus objetivos, animados pelo desafio de conseguir o que desejam. Considerar “o que não está acontecendo” como causa da infelicidade pode parecer lógico, mas me parece uma explicação  reducionista e incompleta.

O problema da conclusão deles é que se trata de um retrato apenas momentâneo. Não projeta as consequências do não-acontecimento no tempo e seu impacto na vida de alguém (considerando uma mente sã, obviamente). E é aí que entra a genialidade do meu postulado, que é o seguinte:

A capacidade de imaginar e desejar aquilo que não temos é justamente um dos combustíveis da felicidade. Saber onde se quer chegar, imaginar como, fazer planos, tudo isso borbulha no espírito de quem se dá conta daquilo que não tem – e claro, deseja alcançá-lo (a teoria é mesmo linda).

Em última medida, quando penso nesse meu postulado e o relaciono com o que dizem os pesquisadores, minhas conclusões são as seguintes, nessa ordem:

  • A infelicidade é o ponto de partida e mesmo parte da felicidade – e não o seu oposto;
  • A felicidade é um desejo, uma miragem, uma imaginação, um sonho, uma projeção;

Só que aí vem a vírgula, o porém que mata:

  • Nenhuma realização é tão bela quanto um sonho, tão perfeita quanto o desejo, tão linda quanto a miragem, tão ideal quanto a esperança;
  • Sempre, invariavelmente, haverá algum descontentamento na passagem entre o imaginário e o concreto.

Talvez esse choque entre o real e o imaginado, isso sim, seja a causa da infelicidade.

 

(Post em evolução, que é uma sequência deste).

 

Camila Teixeira

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Nevou

Como previsto em post anterior, nevou. Foi a primeira primeira vez, desde que chegamos. Usei minha chapka e tudo. Realização total.

Aproveitei para tirar algumas milhares de fotinhas. Só que, para poupá-los, coloco aqui apenas algumas.

Moito lindo.

 

 

 

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Camila Teixeira

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Ssshhhh

Silêncio. Blog dormindo.

 

 

 

Camila Teixeira

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Essa é nova

Ontem o tigre quis dormir com uma p’tá (batata).

 

Camila Teixeira

 

 

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Flexível

Às vezes, quando o vento bate forte, eu me impressiono com a elasticidade das árvores.

 

Camila Teixeira

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Das coisas inexplicáveis

Outro dia, eu estava vivendo tranquilamente, passando por uma vilinha toda cinza, quando, de repente, dei de cara com isso:

 

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E daí eu renasci 50 vezes.

 

 

Camila Teixeira

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A função do gostar

Eu sempre penso se o que gosto sou eu que gosto de verdade. Ou se é o gosto de outra pessoa. Se você chegou aqui achando que o que gosta é gosto seu, sinto informar que nada ou pouco do que gosta você gosta porque simplesmente gosta. Porque o gostar, repare, é um ato de integração social. Poucas coisas podem ser tão maquiavelicamente manipuladas quanto o ato de gostar.

Complicado? Nada, boba. Funciona assim. Você gosta de um cara. Ele gosta de pudim de chá de boldo e de passar o domingo vendo pegadinha na televisão. Hm. Apesar disso, você gosta do sujeito. O que você faz? Um esforço descomunal para fingir que se interessa pelo hobby dele. E daí, cria-se a empatia, a semelhança, a proximidade, requisitos básicos para iniciar a relação amorosa que você deseja.

Ou então, meu amigo. Você está numa entrevista de emprego. Você precisa desesperadamente desse emprego. A empresa fabrica armas nucleares. Você odeia armas nucleares, mas precisa pagar suas contas ou morre porque tem um agiota bandido atrás de você. O que você faz? Diz que é fã do Rambo, do Comandos em Ação e que passou sua infância inteira jogando batalha naval.

É assim. A gente gosta porque o outro gosta, por conveniência, para parecer, por integração, porque precisa, por interesse, por vingança, por influência, para provocar, para disfarçar, por obrigação, para agradar, para impressionar, por costume, para não se sentir só.

Quanto do gostar é realmente puro, é realmente amor?

 

***

 

PS: Gostou do meu texto?

 

Camila Teixeira

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