Arquivo mensal: novembro 2011

Metáfora do café

Nada é mais irritante do que usar o café como forma de se referir ao estado de espírito de alguém. Acho de uma falta de inventividade sem tamanho. Perceba: café amargo, forte, frio, fresco, expresso, George Clooney. Percebeu? Tenho horror à metáfora do café. Tenho urticária quando vejo pessoas que usam a metáfora do café. Hoje serei uma dessas pessoas-urticária.

Porque estou aqui, veja você, diante do meu café. Que está dentro do bol. Tomar café no bol proporciona uma sensação toda especial. Parece que a gente tem o mundo inteiro entre as mãos. Ou então uma bola de cristal. Está tudo ali. E num gole só manda o mundo, as previsões, o passado e o futuro para dentro.

Só que quem observa de fora não sabe o café que o bol contém. E a verdade é que dentro do bol tem um café meio fraco. Aqui na França ainda não consegui achar um café forte de verdade. É tudo igual ao café que minha vó fazia. Chafé. Ela usava coador de pano, passava a água fervendo no pó e dele saía aquele líquido de fumacinha cheirosa, suave em cafeína. E daí, a gente ia na varanda falar oi para o Loro, dá o pé, Loro, coçá pioim. Depois, continuava a brincar de caverna do dragão no jardim. Eu olhava fascinada para as florzinhas coloridas, de formato mini-buquê degradê vermelho-amarelo. Ouvia o relógio de parede badalar às cinco da tarde. Na volta para casa, parava na banca para comprar figurinhas Amar é. Dormia olhando para as estrelas que desenhava no estrado do beliche de cima.

Curioso como um bol de café ralo pode conter tudo isso. Um mundo. E eu ainda cismo em me irritar com essa gente que usa o café para falar do humor que tem.

 

Camila Teixeira

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Bucóóólico

Passeio pelo Puy de la Vache. Subidinha íngreme, mas com uma bela vista das montanhas e do passado vulcânico da região.

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Camila Teixeira

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Inventário de tipos humanos

Eu ia encerrar meu expediente bloguístico de hoje, mas fui obrigada a mudar de ideia.

Acabei de ver no Don’t Touch My Moleskine, um blog que faz bem para a alma espiar de vez em quando, o post causador dessa minha hora extra na internet. É sobre a jovem que fez os desenhos acima (mais uma que entra para o time dos precoces). No post em questão, tem mais algumas ilustrações do mesmo naipe, de pessoas imaginadas, mas que são reais em algum lugar do mundo.

Além do mais, invejei muito o subtítulo do blog da ilustradora: Meus desenhos, apesar de todo meu ciúme.

Ao que parece, ela nunca desenhou nenhuma Camila. Pena. Mas recomendo mesmo assim.

 

Camila Teixeira

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Fase

Eu to numa fase cervo. De admirar a forma desse bicho. Eu já vi um de verdade, mas foi muito rápido. Ou pelo menos tenho a impressão de ter visto. Ou então sonhei. Não sei ao certo. Uma dessas afirmações é verdadeira.

Outra verdade é que fiz uma das minhas melhores aquisições natalinas do últimos anos. Comprei um enfeite de cervo, que está decorando majestosamente a lateral do meu espelho.

Lindo.

 

 

Camila Teixeira

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Apressadinho

Tenho pressa de rir de tudo por medo de ser obrigado a chorar.

De uma exposição em Bordeaux, em 2006.

Camila Teixeira

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Misery Let Me Down

Uma amiga compartilhou um link precioso. O texto fala de uma faixa gravada por Elliott Smith, em 1997, para uma rádio de Maryland. E que a gravação foi perdida e, enfim, encontrada recentemente.

A história completa em inglês.

Lá vai.

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Caligrafia

Quando eu estava na pré-escola, meu caderninho de caligrafia era algo sagrado. Lembro com perfeição do meu esmero em cobrir os pontilhados, a demora para preencher a folha inteira de aaaaaa em letra de mão. Era um exercício quase espiritual. Desenhava ainda pequenas flores, usava canetinhas coloridas, colava adesivos. Tudo isso no intuito de receber uma boa nota. E ela vinha: Muito Bem!, escrevia a tia Elisa.

Daí eu fui para o primário. A tarefa mudava, mas meu empenho era o mesmo. Meu trabalho era tão bom que a professora, a tia Ruth, pedia para que eu ajudasse meus coleguinhas em dificuldade. Eu achava fofo e tinha orgulho de poder ajudar. Depois, vieram o colégio, a faculdade, a vida profissional.

O que quer que eu fizesse, era como se eu estivesse preenchendo meu caderninho. Eu me dedicava, entendia e avançava. Completava uma página, passava para outra. Sempre funcionou assim, uma lógica que se repetiu minha vida inteira.

Daí vêm os bebês e, numa brincadeira, dão um rabiscão bem dado no caderninho de caligrafia que você cultivou durante anos, derrubam um pote gigante de guache em cima dele, picotam folha por folha do que você levou décadas para aprender, e ainda jogam seu caderninho pelo ar, como quem se desfaz de um bilhete antigo.

E não sobra mais nada. Só começar de novo.

 

 

Camila Teixeira

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Elementar

Você tem certeza de que seu bebê entendeu o conceito de quente quando, de repente, ele começa a soprar o aquecedor da sala.

Lógico.

 

 

Camila Teixeira

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Em obra

A vida é excepcional. É o lugar onde tentamos construir sonhos.

Eu gosto dessa frase do jeitinho que ela é. E ela é do Rodrigo de Souza Leão, um escritor carioca que morreu em 2009, aos 44 anos.  Aos 23, foi internado pela primeira vez numa clínica com o diagnóstico de esquizofrênico.

Uma vez (faz tempo), li na Gazeta Mercantil uma matéria que falava justamente sobre a proximidade psicológica entre os loucos/conturbados e os gênios. (…) Eu só lamento que RSL tenha sofrido tanto para controlar o gênio que tinha.

A citação acima tirei de uma entrevista que ele deu ao Portal Literal. Um perfil completo sobre ele está disponível no blog do Ronaldo Bressane.

 

Camila Teixeira

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A culpa é da paz

Você percebe que a pessoa chegou no limite da neurose quando ela pensa coisas do tipo:

 

Estar em paz é algo perturbador. Porque, veja bem, estar em paz significa que:

  • ou está tudo bem, tudo está em ordem, tudo está em dia;
  • ou que você descaradamente ignorou a existência de um problema pendente.

Nos dois casos, a paz simplesmente não pode existir pois:

a. sempre há ou haverá um problema a ser solucionado, nem que seja uma unha encravada;

b. “paz” e “problema” são dois estados que simplesmente não podem ocupar a mesma alma, assim como dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço.

Ou seja, se você se sente em paz, isso quer dizer que:

  • ou sua paz é uma farsa completa
  • ou é uma sensação sem fundamento
  • ou uma tremenda autoenganação

E convenhamos, se sentir em paz quando há uma pendência a ser resolvida é uma bela prova de que você não está nem aí para o mundo. E que você provavelmente já usou (com orgulho) aquelas camisetas de carnaval: sou da filosofia da vaca. C***ndo e Andando. Bonito, hein?

Mas, sabe, se você faz parte dessa corrente filosófica, tudo bem. Não há nada de errado nisso. E é até compreensível o alívio que essa filosofia é capaz de proporcionar ao espírito. É só viver em paz com a consciência de que está tudo bem.

 

Camila Teixeira

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