Cão farejador e o absoluto

Inauguro aqui uma série de posts existenciais. Os demais, publicarei em breve, se o bom senso permitir.

***

Eu devo estar atravessando minha 56ª adolescência. Ou saturno, quando passou, gostou tanto do que viu que resolveu voltar. O número de perguntas existenciais que tem atravessado meu espírito nos últimos tempos é de deixar qualquer um fora do eixo. São perguntas de todos os tipos, como os básicos quem sou eu? Pra onde vou? Ou mais banais, tipo: por que não corto logo esse cabelo? Ou: por que não gosto de cor-de-rosa? Ou então algumas novas, do tipo: por que a conjunção de planetas teria algum efeito sobre o meu humor? Estou fadada seguir nesse espectro que me foi predestinado? A predestinação existe mesmo?

Entre todas elas, pulsa agora uma pergunta existencial campeã. Ela anda me martelando faz tempo e caça indícios de resposta em cada movimento meu. Parece um cão farejador que passou anos gripado, incapaz de sentir qualquer tipo de cheiro, e tem seu faro de volta justo num dia de passeio pelo zoológico. Se abro uma lata de leite, a pergunta existencial está lá. Se o almoço queima, ela está lá. Se a água do chuveiro não esquenta, ela está lá. Se a roupa não secou, ela está lá. Se não acho as chaves de casa, ela está lá. Se pego um garfo torto. Se deixo o celular cair no chão. Se a piscina está fechada. Se a internet não funciona. Se acaba o pão. Se a manteiga está dura. Se meu pé está gelado. Se acabou o papel. Se não tem sobremesa. Se a calça encolheu. Se a lâmpada pifou. Lá está ela, por todos os lados.

E essa pergunta, a suprema, a mãe de todas as outras, a que tem me tirado do sério, é a seguinte:

Por que a gente tem essa necessidade (atualmente, irritante) de tentar entender tudo e explicar tudo e ordenar tudo a todo instante?

Ou então:

Por que não podemos apenas viver uma experiência em seu absoluto, sem ter a necessidade de conectá-la com outros eventos, causas, motivos, razões ou circunstâncias, como diz o mestre.

Daí, ela se desdobra em milhares de outras, tipo: por que simplesmente não aceitamos o caos? Por que simplesmente não aceitamos a alegria? Por que simplesmente não saboreamos uma macarronada deliciosa sem pensar que preferimos abobrinha grelhada no alho?

Por que essa necessidade de entender? Por quê? Por quê? Por quê?

Por que a felicidade genuína, minha gente, está na ignorância, morada certeira da paz. Disso todos sabemos. Por que, então, de posse dessa informação tão fundamental e preciosa, continuamos nessa espiral incessante de questionamentos que só serve para que os outros olhem para gente, como você deve estar me olhando agora, e pense: essa menina deve estar louca.

Em outros tempos, eu acharia normal ter tantas perguntas e mais – acharia saudável. O problema seria se eu não as tivesse. Hoje eu já acho que, depois de uma enxurrada delas, é preciso começar a encontrar respostas. Ou então, aprender a ignorá-las.

Por que não as ignoramos? Por quê? Por quê? Por quê?

 

Camila Teixeira

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6 pensamentos sobre “Cão farejador e o absoluto

  1. Titis, primeiro lugar uma das coisas boas de ter voltado pra França é a de nos presentear com sua escrita, gosto muito da maneira como o faz: leve, descontraída, divertida e direfente. Em segundo lugar é que tenho a oportunidade de te fazer uma visitinha por aí logo mais hehehe

    Sobre essa questões existenciais, posso dizer que sobre as conjuncoes dos planetas em seu mapa, elas são forças que atuam sobre ti mas que tem total condições e livre-arbitrio de dar o rumo que quiser a sua vida. Se tiver consicência dessas forças que atuam sobre seu Ser, fica mais claro o caminho e os desafios que aparecerão.

    E concordo plenamente que a ignorância é sim um caminho para a morada da Paz. Incrível mas é verdade. Acho que o caminho tu mesmo já sabe: é viver cada momento, desde saborear a macarronada com um sorriso no rosto, sem ficar questionando e pensando em outras coisas. Ou seja viver e parar de ficar pensando nos porquês.

    Aproveite aí!!

  2. Sandro Mendes disse:

    Tem uma piadinha que é assim…
    Havia um cantor, que sofria de uma amnésia desgraçada. E numa noite, num bar, começou a dedilhar o violão e falar com a plateia: “olá pessoal, boa noite”… dedilhava alguns acordes…. “obrigado pela presença de todos e agora vou tocar uma canção que não me lembro o nome”… dedilhava… e nisso 1 pessoa lá do fundo berrou: toca Raul!
    E ele na mesma hora reagiu: “essa canção não é do Raul”… dedilhava… “e como tava dizendo”… dedilhava… e mais uma vez interromperam, dessa vez umas 3 pessoas: toca Raul!… ele mais reativo, com a voz mais forte: “não vou tocar Raul!”… e dedilhou mais uma vez o violão…. “essa canção”… dedilhou o violão… e a plateia já cansada daquilo, dessa vez um monte de gente berrou: toca Raul…
    Na mesma hora o cantor ficou puto da vida, falou que não iria tocar Raul, desligou o violão e foi embora. Nisso ouviu-se uma voz ao fundo: volta Raul.

    VIVA A AMNÉSIA, viu Cá… saudáveis os que sofrem dessa doença, não é mesmo?

    Bjos,

  3. isa_mãe disse:

    Sensacional o Sandro.

    Por que não as ignoramos? Por quê? Por quê? Por quê?
    Porque somos bobos.

    A turma inventa as coisas porque acha que tudo tem explicação. Mas acho que não tem. O momento é agora. O passado já passou e o futuro não existe ainda, mas poderá depender do que se fizer hoje, ou não. Se fosse para gente ficar pensando nos por quês das coisas, acho que a gente já nasceria com todas as memórias de todos tempos passados e a sabedoria do futuro também.
    Se existir alguma ligação, digamos espiritual, não é para ser lembrada. Estamos em um corpo que não levita, não flutua, não viaja para outros mundos. Portanto viva o que o seu corpo permite. Somos limitados. A culpa é do nosso corpo que aprisiona a alma. (li outro dia: “se a culpa é minha coloco em quem eu quiser” acho que é isso. )
    RSrsrsrsrsrsrs…..

    Filha me diga uma coisa. Esse blog pode ser estragado com minhas escritas?

  4. Só na sua cabeça disse:

    mãe, acho que vc tem razão. esse negócio de por quê é tudo invenção. só que agora surgiu outra pergunta: pq a gente mora num corpo que aprisiona nossa alma? pq? pq? pq?????….rsrs

    e não. esse blog só existe na sua cabeça e não pode ser estragado de maneira alguma, muito menos com suas escritas.

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