Saudadinha

Da proa de um barco imenso, aceno com meu lencinho branco para uma multidão que faz o mesmo gesto que eu, em minha direção. Amo vocês, eu grito. A multidão não diz nada, é como se eu não estivesse ali. E é verdade, eu raramente estive, um dia ou outro apenas, somente quando o relógio não escandalizava em meus ouvidos olha a hora, olha a hora. Minha declaração fica no vácuo, sem eco, desliza até o espaço na esperança de ser ouvida por alguma forma aleatória de vida, quem sabe. Todos aqueles tchauzinhos de miss com o movimento delicado das mãos não são para mim, mas para o barco que vai. Menos mal, penso eu, ao menos não fiz ninguém sofrer. Não choro, todos sorriem e algumas lágrimas ficam esperando escondidas uma piada a mais para cair sem querer.

Daí eu vou na minha viagem, o barco fica cada vez menor, a multidão desaparece no porto, eu mudo minha vista de direção e vejo o sol que se põe do outro lado e deixa meu rosto meio alaranjado e morno; o clima úmido não poupa meu cabelo já melado e levemente coberto de sal. Por um instante quase imperceptível, seria capaz de apostar que um grãozinho de feijão tenta brotar sua primeira folhinha verde lá no fundo do peito. Vejo algumas arraias seguir meu rastro por baixo das ondas e sou surpreendida pelo voo repentino de uma delas. Meus pensamentos brincam de estátua e resistem com certo heroísmo infantil à ventania que sopra por trás da minha cabeça. Meus ouvidos, menos resistentes, porém, sucumbem às flechadas do vento e sentem uma pequena otite nascer.

Fico mareada com o sobe e desce, lembro subitamente que prefiro sentir o barro atravessar os dedos do meus pés, a areia entrar debaixo da minha unha mal aparada, a concha virada para cima machucar a sola do meu pé, e aguardo ansiosamente a próxima ilha na qual atracarei. Ficarei de pé na orla, com o corpo imóvel, mas com olhos de radar e encontrarei com urgência um galho de árvore com o qual escreverei um universo na areia, antes que a próxima onda o apague. Mergulharei na água transparente, nadarei com os peixes minúsculos, finos e prateados, e flutuarei entre as bolhas e espumas até a chegada da próxima ressaca.

Camila Teixeira

Papo de louco, de homem, de fantasma, de HQ – e de livros

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Queridos amigos que assistiram a Interstellar, do Christopher Nolan,

Tenho uma dúvida que está comprometendo minha apreciação do filme. Não farei resenha, nem resumo. Não falarei de erros ou acertos. Por enquanto, a única informação que importa é: saí da sala de cinema como quem sai do interior de um sino gigante que acaba de dar doze badaladas. Béééímmm. Béééééimmm. Béééééimmm.

A minha dúvida está relacionada ao fantasma da Murph. (Pare de ler aqui se você ainda não viu e pretende ver o filme).

Bom, certo. O fantasma é o Cooper. O Cooper-futuro/fantasma está no passado para dizer a si mesmo para não partir & dar outras instruções. Só que:

Ele só envia essa mensagem porque, num futuro não tão distante/mundo paralelo, ele está em perigo. Aquela mensagem só existe porque ele está no espaço/em outra dimensão. E ele só está lá por que ele, do futuro, enviou uma mensagem ao passado. Ou seja, não dá. Veja: ele só viaja porque Cooper-futuro-fantasma manda uma mensagem a si mesmo (passado) dizendo para não viajar.

(Nota mental: pensando assim, seria realmente providencial se nosso eu-futuro viesse de vez em quando nos dar uns toques, tipo, de boa, para que evitássemos algumas cagadas no presente. Ou seja, não é a bola de cristal que tem que consultar. É o tesseract. Ha-ha-ha. Não, péra. Não foi engraçado).

Enfim. Meu problema não está na maneira como ele envia a mensagem, nem com os códigos binários, nem com o problema da gravidade, nem com a outra dimensão. Meu problema é a ideia de que o Cooper-futuro é a origem da decisão do Cooper-passado. Só que: para que o Cooper-futuro/fantasma exista, o Cooper-passado precisaria ter tomado sua decisão de partir para o espaço baseado em outros elementos diferentes da mensagem que o Cooper-fantasma deixou.

Não sei se estou sendo clara, mas vou tentar reescrever: Cooper-fantasma só existe porque Cooper-passado decidiu viajar. Ou seja, a existência do Cooper-fantasma é uma consequência da decisão do Cooper-passado. Portanto, Cooper-fantasma não pode estar na origem da decisão do Cooper-passado. Para que o Cooper-futuro exista, é preciso ter existido um momento zero, independente da existência do Cooper-fantasma, em que o Cooper-passado decide viajar, para que, somente então, o Cooper-fantasma possa existir e mandar mensagens do além.

Papo de louco, né. Alguém me explica que estou errada?

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E tem mais um outro detalhe. Seria muito pensar que a escolha do nome “Dr. Mann” para o “vilão” não foi uma escolha aleatória e sim um fofo trocadilho? Teria o Nolan pensado em mandar algum recadinho (mais um) para o “homem”?

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Agora o momento nhóimmmm.

Acabei de ver que o Nolan pensou num prequel para a trajetória do Dr. Mann. E está em formato HQ (uoooiiin) na Wired digital de novembro. Achei fofo querer nos dar satisfação sobre o malvado. Ainda mais em quadrinhos. Lá vai.

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Você viu a timeline do filme, né?

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ATUALIZAÇÃO – ORGENTE

E se você, como eu, quis saber quais livros estavam na estante da Murph, aqui vai uma listinha comentada pelo Nolan (<3). Espero ter tempo pra traduzir alguns trechos.

Camila Teixeira

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Lá no meu outro eu

Fiz um post novo sobre Ma Révérence, HQ que acabei de ler e adoreeeei.

Vai lá.

Camila Teixeira

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Kanagawa, quem sabe

Fico pensando onde deve ter ido parar meu senso crítico. Faz tempo que não o vejo, faz tempo que não vem tomar um café comigo, faz tempo que não vem colocar minhocas na minha cabeça. Por certo, tirou férias e resolveu ficar por lá, um lugar mais interessante do que aqui – suponho -, sem mandar nem um cartão postal. “Estou aqui e aviso que essa é a última vez que me lembrarei de você. Não sinta minha falta, pois o inverso não ocorrerá. Adeus para sempre, adeus”, ele escreveria, certamente. Deve ter encontrado terra fértil para plantar suas teorias sem pé nem cabeça em terras em que tudo dá, inclusive abobrinhas, sua especialidade. Sorte dele.

Enquanto isso, fico aqui, cabeça dura, com saudades de sua animação, de quando era meu amigo, meu companheiro fiel de toda hora, que me embarcava em suas ondas, em seu vai e vem, em seus altos e baixos, em suas urgências e agoras, em suas nuances que me permitiam distinguir cinza claro e cinza escuro, ou então misturar sem culpa diferentes tons de rosa – mesmo o rosa sendo a última das cores na minha escala de preferências. Enquanto isso, fico aqui, desenterrando minhocas, reorganizando cores, arrumando postais, cozinhando abobrinhas e observando de longe o movimento dos tsunamis.

 

Camila Teixeira

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Procuro

Procuro um corpo vago e saudável, dotado essencialmente de um cérebro em bom estado de funcionamento, espírito livre, mente limpa e vazia. Alugo por um valor atrativo, quase irrecusável. Imperativo que esteja prontamente disponível em horários tão imprevisíveis quanto improváveis, tipo 2h53 da madrugada. Procuro um corpo vago de mente limpa, espírito livre para que possa ocupá-lo enquanto meu próprio corpo, em seus limites materiais previsíveis, assume as responsabilidades e ordens diárias. Garantia de bom uso, inclusive com assinatura de cláusula de não-violência e riscos físicos-zero. O objeto procurado será utilizado como uma espécie de lounge-anexo. Será um espaço dedicado a concretização de minhas atividades cerebrais & desejos aleatórios impossibilitados de tomar forma durante o dia por ocuparem os últimos lugares na fila das prioridades. Coisas simples do dia-a-dia, como ler, escrever, pensar, dormir, nadar, correr,  ir ao cinema, ouvir música estão entre as principais atividades previstas.  A transferência dos meus pensamentos para o novo corpo será feita de acordo com as necessidades de cada dia e, principalmente, de modo que qualquer tipo de crença ou ferramenta religiosa seja deixada de lado em favor do emprego da mais pura ciência: transmimento de pensassão. Nenhum santo será invocado, nenhum sacrifício será feito, nenhuma mandinga será permitida. Preces estilo Mumm-Ra estão fora de cogitação. Comprometo-me a devolvê-lo no mesmo estado em que foi alugado, se não em melhores condições, talvez até revitalizado.

Interessados: deixar mensagem.

Desde já, grata.

 

Camila Teixeira

 

 

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Home again.

Essas coisinhas que, quando batem, coçam a orelha até o mês seguinte.

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Error

A gente acha que tempo é um negócio que sempre tem, que sempre vai existir, que é só inspirar mais uma vez. Por mais que a gente sempre diga, nossa tô tão sem tempo, tô tão corrida, não tenho tempo pra nada, a gente guarda uma convicção profunda de que vai acordar no dia seguinte. Mas quem garante? Jamais a gente pensa assim, que, de um dia pro outro, pode deixar de respirar. Que tipo, o tempo pode acabar MESMO. Tem que acordar antes de não acordar mais. 

Mas como eu faço parte desse time que sempre acredita que vai acordar no dia seguinte, e sou inclusive uma crente fervorosa, acabo deixando muitas coisas para fazer amanhã. Tenho uma pilha delas. Todo mundo esperando ansiosamente pelos dias que virão, dando pulinhos de esfuziante alegria diante da perspectiva de chegar amanhã. Eu até tento convencer essa galera saltitante de se acalmar um pouco, que amanhã sempre vem, que é um dia depois do outro, mas elas insistem em querer que amanhã seja hoje, agora. E a prioridade passa a ser tudo.

O único problema é que meu tempo passa rápido demais com coisas que demoram uma loucura. É um fenômeno muito estranho. Demora, demora, demora, se arrasta no tempo, e quando eu acordo no dia seguinte, já passou. Ou está terminando, no finzinho, na última colherinha do bifinho.

Passa tudo tão rápido numa demora tão lenta. E eu fico sem entender onde foi parar meu tempo, tão rápido que nem sinto, tão lento que quase não o vejo passar.

 

Camila Teixeira 

 

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I’m not here

Caso ainda não tenha ficado claro, esse blog não está aqui. Pelo menos até meio de abril.

 

Inté.

Camila Teixeira

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Méritos

Faz tempo que quero comentar um negócio muito importante. Reservei um tempo especial só para falar disso. E esse negócio é uma pergunta existencial, que é a seguinte: como as francesas fazem para cultivar um cabelo extremamente charmosamente  muito bagunçado? Sério.

Há meses venho reparando nesse fenômeno curioso e completamente incompreensível. Cada vez que entro no tramway às 7h30 da manhã, aparece uma francesa do meu lado com um coque gigante e desajeitado em cima da cabeça, cheio de fios desgovernados caídos pelo rosto, com um ar de oi, acabei de acordar, e ainda assim, um penteado incrivelmente irresistível e de dar inveja em qualquer monja.

Esses franceses são cercados de lendas. O french kiss, a petite mort, a magreza numa gastronomia cheia de manteiga, o não tomar banho, a baguete e a boina, o romance em Paris, Paris apenas, e agora mais esse que instauro, o mistério do cabelo espatifado altamente charmoso.

Se eu me aventuro a reproduzir a moda, o resultado seria desastroso, já sei por antecipação. Nem uma versão mais radical do Bob Marley ia querer algo do tipo.

Ainda falta muito para que eu alcance o mérito do penteado francês.

Camila Teixeira

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Blast

Fiz um post novo sobre Blast, HQ do Manu Larcenet. Vai lá ver.

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